Revista Rua

2019-11-04T14:47:35+00:00 Opinião

Despido até às entranhas

Crónica
Francisco Santos Godinho
4 Novembro, 2019
Despido até às entranhas

Eu queria ser perdoado pelo lugar vazio, queria ser perdoado e o tormento que recomeça recomeça recomeça sem perdão, sem que eu não seja tido nem achado no meio disto, a dor que recomeça sem a mão de Deus que tudo absolve, eu que preciso de me achar em si, plante-se de novo na poltrona só por uns minutos e perdoe-me, não pedi o desamor de uma sala vazia, não pedi a deformação do meu interior, pedi-lhe que não fosse embora sem dar motivo e só tenho estas fotografias suas que nada mais são do que mortalhas escangalhadas embrulhando anos antigos antes dos meus, se falarem para mim as pessoas aí ao seu lado nas festas da quinta grande não reconheço nenhuma, são só letras desarranjadas numa lousa, as pessoas do lado direito, numa mesa de madeira tosca, avaliando épocas perdidas no colar da esposa do arquitecto, se me falassem do colar, imaginemos que falavam do colar

– O que acha do colar, você?

não responderia nada, escondia-me debaixo da toalha da mesa que abandonou até que talvez uma voz que entenda. Porque é que não posso fazer uma contagem regressiva até tudo desaparecer de vez? Três dois um e depois do um, nada, apenas a continuação de um outro mundo que existe só por vezes, sem o estorvo das coisas do dia a dia que existem sem que eu queira, o lamento do lugar vazio cortando a inexistência de vida que sobeja dos cacos de luar nos prédios vizinhos, a irrevogabilidade da solidão, do desgosto, da submersão nas águas irreais de espiar o lugar vazio, ou o lugar vazio que me persegue e se me perguntassem

– Que acha do colar, você?

talvez espreitasse mais de perto para não mais estar aqui.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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