Revista Rua

2020-02-24T14:33:59+00:00 Opinião

Desventura dos racistas da eutanásia

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
24 Fevereiro, 2020
Desventura dos racistas da eutanásia
©D.R.

Têm sido tempos maravilhosos para os brandos costumes em Portugal. E como Portugal adora brandos costumes e eu os detesto (mais os “brandos” do que os “costumes”, porque sou um gajo de rotinas), é sobre isso que esta crónica versará. Versará, apesar de ser em prosa. Além do mais, é uma oportunidade que tenho para falar, ainda que indiretamente, sobre futebol, mau era se eu não aproveitasse.

Comecemos pela eutanásia, apesar de a eutanásia ser o fim. Desde logo, será o fim de jovens com cartazes nas ruas, a pedir para não matarem os velhinhos, sendo que não são só os velhinhos que sofrem a ponto de quererem acabar com o próprio sofrimento, não há idade para se estar em estado vegetativo, terminal ou em qualquer ponto sem retorno. Portanto, estamos perante discriminação de doentes, por fatores de idade. Veem? Os assuntos estão interligados.

Quem também interliga muito bem, e nem é pessoa de gostar de aparecer, é André Ventura. Da série “eu não sou, mas até conheço gente que é, por isso é que sei destas coisas”, André Ventura, munido de um papel, lembrou, no Parlamento, durante a discussão dos projetos de lei sobre a despenalização da eutanásia, que Hitler foi um dos grandes impulsionadores da eutanásia e isso deu em catástrofes dos diabos. Como dará em catástrofes dos diabos se o Chega! Basta! continuar a crescer. Também haverá direitos que vão morrer e nós a assistir: é morte assistida na mesma.

Concorde-se ou não com a eutanásia, despenalizar é, desde logo, dar um direito de escolha que não existia. Quem sentir que precisa, recorre; quem não precisar, não recorre. Como se viu com a interrupção voluntária da gravidez, não se desatou a matar criancinhas. Também não se há de matar velhinhos e menos velhinhos ao desbarato. Quer dizer, vai continuar a acontecer, mas não por causa da despenalização da eutanásia. Coitada da CMTV e do próprio André Ventura, se se parasse de matar velhinhos e menos velhinhos ao desbarato!

E coitado do mesmo André Ventura e de muitos outros, se não houvesse racismo em Portugal. Falo por experiência própria – muitas experiências próprias, aliás – para dizer que o maior problema do futebol em Portugal não é o racismo. Mas que o racismo existe, no futebol e em todas as vertentes da sociedade, existe. Existe e é normalizado. O que aconteceu com o Marega, em Guimarães, aconteceu noutros estádios, com outros jogadores (e entre jogadores), com todos os clubes e partindo de adeptos de todos os clubes. Todos os clubes!

O que houve de diferente é que o jogador tomou uma posição, que provavelmente deveria ter sido seguida pelos restantes jogadores em campo, e pela própria equipa de arbitragem, que tem um protocolo da FIFA que devia ter seguido e não seguiu. Porque o que convém é fazer de conta que nada aconteceu, não incomodar ninguém, pôr hashtags de solidariedade nas redes sociais, e depois continuar a falar baixinho sobre estes assuntos.

É isso que vai acontecer: este caso servirá de exemplo durante umas semanas, mas lá para abril, quando os pontos valerem mais, vai continuar a selvajaria, muita gente vai ser macaca, mas já ninguém vai ser Marega. O que vai certamente acontecer é que estes casos vão continuar, ironicamente, a ser branqueados. Vai ficar tudo na mesma, como está tudo na mesma em Itália, onde se multiplicam casos destes, na Ucrânia, na América do Sul… nos EUA é que não, porque o futebol deles é com as mãos. A partir daí, não se lhes pode pedir muito.

Por um lado, até é bom que tudo isto continue um bocadinho assim, dá-me material para continuar a escrever, porque os brandos costumes dizem que não se brinca com coisas sérias. É pena, porque eu não sei brincar com coisas a brincar.

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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