Revista Rua

Diogo Faro: “Não podem pensar que por serem jovens não acontecerá nada!”

O comediante reconhecido por Sensivelmente Idiota está em entrevista à RUA neste tempo de quarentena.
Diogo Faro | Fotografias retiradas do seu Instagram
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto8 Abril, 2020
Diogo Faro: “Não podem pensar que por serem jovens não acontecerá nada!”
O comediante reconhecido por Sensivelmente Idiota está em entrevista à RUA neste tempo de quarentena.

Ativista, comediante e autor de livros e crónicas satíricas que descrevem os comportamentos humanos numa linguagem que lhe é já muito própria, Diogo Faro apresenta-se como um Sensivelmente Idiota, o nome dado ao seu blog e que ainda hoje o acompanha em cada rede social, em cada livro e, mais recentemente, em cada palco. Recorre ao humor como uma arma poderosa para arrebatar com temas socialmente fraturantes e (ainda) tabus, potenciando a sua voz ativa para defender os seus propósitos e aquilo em que acredita: o feminismo e a luta pela igualdade de género, económica e social – ainda que muito resumidamente. Recentemente, o seu trabalho chegou também ao stand-up comedy, com espetáculos ao vivo – e a solo – por todo o país, neste Lugar Estranho que surge com o propósito de levar à reflexão sobre assuntos relevantes, mas com muito humor à mistura.

Com o devido resguardo, conversámos com o humorista na intenção de conhecermos a sua perspetiva quanto ao presente e o futuro de uma sociedade confinada ao que é (ainda) incerto.

 

Diogo Faro

Gostávamos de começar esta entrevista por falar, precisamente, da atualidade que estamos a viver. Como é que tens lidado com a necessidade de isolamento?

Para mim também está a ser um pouco complicado, se calhar não tanto como em relação a outras pessoas, porque dada a minha profissão eu já trabalhava bastante em casa, mas claro que o confinamento é difícil para toda a gente. Eu não me posso queixar, porque tenho uma casa decente e não me falta comida, mas estar sempre aqui é limitativo. Ainda assim, tenho conseguido trabalhar, escrevo todos os dias, porque tenho crónicas fixas no Sapo ou no Tribuna Expresso e acabo por ter sempre coisas para escrever, livros para ler e filmes para ver.

E dada a tua profissão, consegues continuar a sentir-te motivado diariamente?

Consigo, porque gosto muito de escrever. Claro que não vou dizer que estou feliz, porque não estou, acho que ninguém está na verdade. Ter de levar as compras aos meus avós e não os poder abraçar ou ficar a falar com o meu pai da janela… isto é muito chato para toda a gente, mas tem de ser. Em relação à desmotivação, há dias em que estou mais triste ou farto de estar fechado em casa e não consigo escrever, mas na maior parte dos dias tenho estado bem. Felizmente, tenho familiares e amigos muito unidos e estamos sempre a falar pelo WhatsApp. Às vezes, à noite, vai tudo buscar uma cerveja ou um copo de vinho, juntámo-nos em videochamada e vamos dando a volta ao que podemos. (risos)

“Espero que consigamos continuar a ser todos civicamente responsáveis. As pessoas não podem pensar que por serem jovens não acontecerá nada, porque pode acontecer. Isto é uma questão de saber viver em comunidade, temos de proteger os mais velhos e quem tem problemas pulmonares, para que consigamos ultrapassar isto, não só enquanto país, mas no mundo.”

Qual é a tua opinião em relação à forma como a sociedade está a lidar com tudo isto? Achas que as pessoas já estão mais conscientes e a cumprir com todos os cuidados que são exigidos?

Honestamente, na generalidade, acho que os portugueses estão a ser muito responsáveis e com uma boa consciência cívica, tirando, claro, há duas ou três semanas em que ainda foi imensa gente para a praia quando já deviam estar recolhidos e claramente muitas pessoas deram um mau exemplo. Agora, também um pouco pela força da lei – que é sempre preocupante ter de ser assim, porque o estado de emergência não é uma coisa boa numa democracia – dadas as condições, acho que as pessoas estão muito ordeiras. Mesmo quando vou ao supermercado, vejo que as pessoas respeitam as filas, o espaço, não tossem para cima uns dos outros e tudo está desinfetado. Há bastantes cuidados, tanto por parte dos lojistas como dos clientes. Tenho visto muito civismo e entreajuda. Claro que há maus exemplos, também. Há empresas que são riquíssimas e que não vemos a ajudar em nada, mas, por outro lado, há empresas mais pequenas e que fazem o que podem para proteger os seus colaboradores, para não ter de os despedir ou reduzir muito os salários. Há outras que se reinventam e estão a produzir álcool gel ou máscaras, portanto também há muitos bons exemplos. É pena é que haja demasiados maus exemplos, na minha opinião, em relação a despedimentos ou então à falta de donativos. Ninguém é obrigado a ajudar, nem individualmente nem com empresas, mas numa situação destas às vezes fico a pensar: “Há pessoas que olham para a conta bancária e têm tanto dinheiro, será que dormem de consciência tranquila a saber que podiam ajudar e não o fazem?” Felizmente, há muita gente que o faz. Em Portugal vemos o exemplo do Ronaldo ou do Jorge Mendes, que não têm obrigação, mas ajudam. A distribuição de riqueza, normalmente, já é tão injusta no mundo, se as pessoas que são muito ricas, numa altura destas, não fizerem o mínimo de esforço e ajudarem um pouco mais do que as pessoas que não podem mesmo, então quando é que o farão?

Diogo Faro

O que esperas da humanidade depois deste surto? Consideras que a sociedade estará mais consciente em relação a certos assuntos? Será que caminhamos para uma sociedade menos consumista?

Eu sou um bocado cético em relação à humanidade. Acho que, por um lado, sim, há pessoas que vão perceber que não precisamos de consumir tanto, não é preciso estar sempre a comprar roupa nova ou que não necessitamos de andar de carro para todo o lado. Penso que as pessoas vão entender que há uma data de consumos que são completamente supérfluos e só prejudicam o planeta. Há mais coisas que podem ser valorizadas, mas também é um pouco triste que tenhamos de ter chegado a este ponto para que as pessoas tenham percebido o valor da amizade, da família, dos vizinhos e das relações interpessoais. Se for isso que é preciso, então eu espero que sim, que o mundo mude mentalidades. Mas, por outro lado, há muita xenofobia em relação aos chineses ou italianos. Eu não consigo prever a tendência, se será mais voltada para o comunitarismo ou socialismo, com as pessoas a perceberem a importância da comunidade e a sociedade a deixar de ser tão hierarquizada; ou se, por outro lado, o fascismo, como já estava a crescer tanto, se isto ainda vai dar-lhe mais força. Mas tenho esperança no mundo, porque até nos Estados Unidos ou no Brasil os próprios apoiantes do Trump e do Bolsonaro já começam a ficar com um pé atrás. Não sei mesmo, porque podemos ver que há dois lados: há o amor e a entreajuda das pessoas e há um outro lado que é menos bom.

Que mensagem gostarias de deixar?

Espero que consigamos continuar a ser todos civicamente responsáveis. As pessoas não podem pensar que por serem jovens não acontecerá nada, porque pode acontecer. Isto é uma questão de saber viver em comunidade, temos de proteger os mais velhos e quem tem problemas pulmonares, para que consigamos ultrapassar isto, não só enquanto país, mas no mundo. Espero que as pessoas se cuidem e cuidem também da sua saúde mental, porque isto vai trazer muitos problemas para quem já sofre de depressões ou ansiedade. Também é muito possível, e já se começa a falar no assunto, infelizmente, que a violência doméstica aumente. Isto ainda vai ser muito complicado e temos de estar cá uns para os outros.

Através das redes sociais, tens tentado, de certa forma, entreter um pouco quem te segue e proporcionar algum ânimo, mas ao mesmo tempo alertar e informar as pessoas. Tem sido o teu objetivo nestes últimos dias?

Eu tento sempre fazer as duas coisas, tentar passar informação que eu acho que é importante, nomeadamente acerca dos comportamentos que devemos ter, mas também, enquanto comediante, quero que as pessoas se consigam rir, porque faz falta. Estamos constantemente a ver notícias e começamos a ficar ansiosos! Acho que os artistas também têm aqui um papel importante a desempenhar. Claro que os papéis mais importantes neste momento são obviamente os profissionais de saúde, quem trabalha em supermercados, entre muitos outros, mas acho que os artistas podem ter um papel importante: continuarem a entreter as pessoas! É importante os músicos continuarem a dar concertos nas redes sociais, o Bruno Nogueira, por exemplo, continuar a fazer os seus diretos – ou mesmo eu continuar com as minhas crónicas -, para que as pessoas se possam rir um bocado. Não é que tenhamos uma obrigação, mas se no resto do tempo, quando as coisas estão normais, as pessoas também pagam bilhetes para verem os nossos espetáculos, acho que é hora de também retribuirmos a estas pessoas que nos apoiam, para que a vida volte ao normal.

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