Revista Rua

2019-11-14T18:55:23+00:00 Cultura, Teatro

Doença da Juventude, um retrato social da nova geração

Um retrato social às incapacidades de toda uma nova geração em tempos modernos.
Doença da Juventude ©Filipe Figueiredo
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva14 Novembro, 2019
Doença da Juventude, um retrato social da nova geração
Um retrato social às incapacidades de toda uma nova geração em tempos modernos.

Diz o ditado que dos fracos não reza a História e, talvez por isso, esta nova versão da peça Doença da Juventude, escrita por Ferdinand Bruckner em 1926, precisamente no interregno temporal entre as duas Grandes Guerras, retratando uma burguesia alemã na altura em decadência, comece de uma forma tão brutal. Um vídeo rápido e certeiro, não aconselhado a pessoas sensíveis é exibido como preâmbulo de uma história que de tão simples e tão crua, acaba por obrigar o espectador a refletir sobre si mesmo, sobre os seus hábitos e comportamentos, culminando, claro, na óbvia alusão à sociedade, à forma como os jovens são educados, aos seus objetivos e desejos. Basicamente, hoje em dia, na sociedade moderna, esta nova geração “milenar” procura o quê se já tem quase tudo?

O contexto é rápido: um grupo de jovens, colegas no curso de Medicina, uns veteranos, outros prestes a terminar a longa licenciatura, vivem numa jigajoga corriqueira, dir-se-ia até doméstica. Estratos sociais são apresentados com todas as suas particularidades tal como os conceitos de rico, pobre, fator cunha, fator trabalho, fator fome, e todas as mesquinhices associadas, também. E aí entram os primeiros murros no estômago: numa altura em que os jovens adultos crescem com (quase) tudo garantido, como poderão sobreviver ao que não conhecem, a uma vida adulta plena, e mais ainda, como podem perder as atitudes egoístas e egocentristas em que sempre viveram na maioria das vezes, para cuidar do OUTRO? A forma como as personagens são retratadas mostra exatamente uma realidade que se escolhe não acreditar que possa existir, o facto de uns se mostrarem completamente desconectados com a vida, e outros insistirem em declarar, numa situação que conhecemos bem do dia a dia, por vezes em forma perpétua, que tudo o que conseguiram foi com base de muito trabalho e de muitas dificuldades (e aqui o parêntesis: nada contra quem luta, porque todos lutamos diariamente pela “auto-sobrevivência”, mas sim contra a constante vitimização e consequente desculpabilização de quaisquer atos menos dignos).

Doença da Juventude ©Filipe Figueiredo

A determinada altura o espetador é levado à conclusão clara de que os sintomas da “doença” estavam lá todos e, ironicamente (ou não), acaba por ter a mesma ideia que Marta Dias, a atual encenadora, refere na sua descrição à imprensa: “Há coisas que preferimos não ver!” e quem não vê, é como quem não sente. É mais fácil ignorar e assumir a postura paternalista, embora moralmente todos possamos apontar o dedo a cada um daqueles jovens, para logo de seguida, apontar a arma a nós próprios. E é nesse momento em que temos de admitir que a raça humana caminha célere, independentemente da idade que possa ter, para uma certa destruição.

Ficha Técnica

VERSÃO, DRAMATURGIA E ENCENAÇÃO: Marta Dias
CENÁRIO: Marisa Fernandes
FIGURINOS: José António Tenente
LUZ: Marcos Verdades
VÍDEO: Eduardo Breda
COREOGRAFIA: Vítor Fonseca (Cifrão)
COM: Carolina Carvalho | Eduardo Breda | Filipa Areosa | Helena Caldeira | Madalena Almeida | Samuel Alves | Vítor d’Andrade

Até 29 de dezembro no Teatro Aberto, em Lisboa.

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