Revista Rua

2020-02-13T17:34:27+00:00 Opinião

Domingos longos

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
13 Fevereiro, 2020
Domingos longos

Os domingos são estupidamente longos e inertes. Especialmente um domingo de Fevereiro, carregado de nuvens cinzentas e chuva “molha parvos”.

Como acordo folgado e a meio do dia, o pequeno almoço é confundido pelo almoço dentro do estômago e perde-se entre breves digestões porque não se ingere nem muito de um, nem muito de outro. A fome aparece de tarde e num horário desconexo.

Depois não dá para ir para lado nenhum. Na rua molha-se, nos centros comerciais perde-se a paciência. Procura-se uma prenda para o dia dos namorados, que está perto, muito apressadamente e quase em cima do joelho. Desembolsa-se um par de notas e os trocos que sobraram dão para o parque de estacionamento.

A caminho de casa aparece-me um lugar chamativo, vago e deslocado e suscita-me a memória de café. Estaciono, apago o rádio para me focar, desligo o motor, apanho a chuva leve e irritante, os óculos molham-se de gotas dispersas e apercebo-me que o café está cheio logo tenho de regressar ao Renault e sofrer novamente. Ligo o carro, as luzes, as escovas, arranco para outro sítio, repete-se o processo, só que dentro do salão encontro um lugar.

“um café, por favor”

Tomo-o e é o primeiro do dia, mas soube-me a pouco. Quando vou pagar percebo que os trocos foram-se todos para o parquímetro. Troco a nota e a carteira enche-se de moedas pequenas. Agora levo um peso tumescente no bolso e corro desengonçadamente.

Quando chego a casa percebo que ainda faltam meia dúzia de horas para o dia acabar.

“porque é que fizeram os domingos tão longos?”

Está tudo de pernas para o ar. Sem paciência para o rebuliço das pessoas, sem predisposição para a calmaria do apartamento. Sem vontade para ver filmes, nem vista para ler. Os dedos não querem escrever, mas a mente está cheia de inspiração. Não me quero deitar, mas não quero continuar de pé.

“Espero que o fim de semana acabe”, mas não tenho pressa para entrar na longa semana.

O domingo é um dia amórfico. Salve-se a crónica.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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