Revista Rua

2020-12-30T11:35:47+00:00 Atelier, Moda, Negócios

Duarte Brand: a marca portuguesa de luxury sportswear criada por Ana Duarte

A criadora da marca está em entrevista na RUA.
Fotografia ©Pedro Saraiva
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto7 Dezembro, 2020
Duarte Brand: a marca portuguesa de luxury sportswear criada por Ana Duarte
A criadora da marca está em entrevista na RUA.

Criativa, ambiciosa e com um olhar muito atento às necessidades emergentes de um setor em constante adaptação, Ana Duarte tem 29 anos e lançou-se na produção de uma marca própria que espelha – em cada detalhe – o seu gosto particular e uma visão futurista: a Duarte Brand. Estudou Design de Moda, em Lisboa, mas é em Londres que começa a traçar o seu caminho na indústria da moda, na cidade onde se torna mestre em Menswear Design and Tecnology, pela London College of Fashion, em 2015.

Ainda que tenha ponderado apostar na criação de peças femininas, mais concretamente, de lingerie, é no mundo da moda masculina que descobre a motivação certa para criar uma marca de autor, que se apresenta sob uma tendência de sportswear de luxo.

Aliando as técnicas clássicas da alfaiataria às inovações do setor, podemos descrever a Duarte Brand em três palavras: sustentabilidade, qualidade e durabilidade. Ana Duarte, que é ainda ilustradora de cinco livros publicados, abre-nos as portas deste mundo criativo que deixou de ser apenas dela, para ser reconhecido a nível internacional.

Li numa entrevista que a Ana ponderou seguir arquitetura, uma vez que os pais são ambos arquitetos, mas que curiosamente o seu olhar sempre se direcionou para outros pormenores, não para detalhes arquitetónicos, mas para pessoas. O que é que lhe desperta mais a atenção nesta observação das pessoas e de que forma isso a inspira para a criação?

Penso que sempre foi uma observação inconsciente, mas as minhas memórias de criança, tanto de família como de amigos, passam por memórias relacionadas com a roupa. Desde a textura, à cor e ao cair de uma peça e todas as associações que se criam a partir de uma imagem que fica na memória.

Depois de estudar em Portugal, a Ana muda-se para Londres para tirar um mestrado mais direcionado para a moda masculina. Ainda que tenha pensado focar-se na criação de peças de lingerie feminina, o que é que mais a fascina no mundo do menswear?

O que mais me fascina na roupa de homem é a atenção ao detalhe, ao conforto e ergonomia de uma peça. Mesmo uma peça que possa parecer simples por fora, tem tanto trabalho e dedicação no seu interior – desde os vários forros usados, a múltiplos bolsos e pequenos pormenores que eu nunca tinha visto em roupa de mulher. Além disso, os homens dão muito valor à ergonomia de uma peça, como por exemplo, um bolso tem de ser grande o suficiente para pôr carteira ou telefone, enquanto que numa peça de mulher muitas vezes os bolsos são falsos. Tudo o que aprendi em alfaiataria e no mestrado de Menswear tento aplicar, tanto em peças masculinas como femininas e unissexo. Assim cada peça tem um valor acrescido.

Se olharmos para o portefólio da Duarte Brand, vemos uma explosão de cores, em misturas de padrões, tecidos e conceitos. Em que é que se inspira para criar cada coleção?

Nunca tive um ponto de partida definido para cada começo, a inspiração acaba por surgir naturalmente a partir de algo, de alguma experiência que tenha tido ou de um livro ou filme. Independentemente de como surge a inspiração, tenho o desporto em geral e viagens como ponto de partida. O movimento, a cor e a natureza são os elementos que mais me impulsionam quando estou a criar.

Na atual era digital, considera que as redes sociais podem ser uma excelente ferramenta para comunicar, não só as peças e o design das mesmas como também todo o conceito da marca?

Definitivamente. Temos vários clientes e seguidores que nos encontraram a partir de redes sociais como o Instagram e, sem dúvida, que estas ferramentas são complementares para poder contar a história e a visão da marca. No fundo, as redes sociais criam um elo mais imediato com o público e tornam toda a experiência mais pessoal e acessível.

Num ano tão atípico, que acabou por afetar também o setor da indústria, estará a moda de autor comprometida? Que mudanças são, para a Ana, necessárias para que os consumidores apostem em marcas de slow fashion, numa altura em que o fast fashion poderá prevalecer?

É difícil prever como serão os próximos tempos, mas estando a desenvolver uma marca que tem por base a preocupação com a sustentabilidade em vários níveis, tenho reparado que cada vez mais os clientes dão valor a peças feitas em Portugal e de slow fashion. Em geral, penso que tem de existir uma desaceleração no consumo e cada vez mais tem de se educar o consumidor a perceber o porquê do valor de uma peça e todo o trabalho que está na sua criação e confeção.

Aliando técnicas clássicas da alfaiataria às tendências do sportswear, as peças são criadas para durarem “a vida toda”. Que práticas são adotadas na produção em prol da sustentabilidade e durabilidade das peças?

Desde a procura e escolha de materiais, à confeção das peças, temos o máximo de cuidado com todas as etapas. Muitos dos nossos fornecedores são portugueses e, como somos uma marca pequena, conseguimos contribuir para o zero waste, através da produção com excedentes de fábrica. A nível de criação das peças, fazemos os moldes, protótipos e provas no atelier, o que nos dá um grande controlo para haver o mínimo de desperdício no corte das peças. Há sempre bocadinhos de tecido que não se conseguem aproveitar para a execução das peças, mas que aproveitamos para a confeção de máscaras e outros acessórios. Produzimos localmente, segundo o fair trade, apoiando a economia nacional e sustentabilidade social. Quanto à durabilidade, como trabalhamos essencialmente com costureiras, conseguimos fazer com que as peças tenham muita atenção no detalhe e nos pormenores que as tornam resistentes ao uso.

O mercado português é facilmente suscetível a esta tendência de “luxury sportswear” ou ainda se encontra hesitante, comparando com o Reino Unido, por exemplo? Sob este conceito, seria possível comercializar a marca apenas em Portugal?

Sentimos cada vez mais uma maior adesão à nossa visão por parte do público nacional, tanto feminino como masculino. Claro que a nível multicultural, não temos tanta diversidade em Portugal como no Reino Unido, mas sinto que os portugueses já estão a arriscar mais e a escolher peças diferentes. Vendemos para o resto da Europa e Estados Unidos através da nossa loja online, mas 70% das nossas vendas é, neste momento, a nível nacional.

As peças são produzidas em Portugal e maioritariamente exportadas para o Reino Unido. O conceito da marca é estruturado neste sentido e na conquista de novos mercados internacionais? É uma das estratégias a implementar, cada vez mais, no futuro?

Sim, o nosso foco sempre foi expandir internacionalmente e estamos a decidir quais as estratégias, que sejam as mais sustentáveis para a marca.

Será a moda sustentável o futuro da indústria? Como é que a Ana prevê o futuro da moda – não só em Portugal, mas no mundo?

Tenho esperança que sim! No entanto, a questão da sustentabilidade tem de partir também dos fornecedores – de soluções e materiais que sejam reciclados e não tão prejudiciais para o planeta. Nas nossas coleções já temos tanto algodões como poliésteres reciclados, que normalmente incrementam o valor da peça, mas que optamos usar por uma questão de princípio. Penso que se a cadeia de produção e consumo for equilibrada do início ao fim – se os materiais forem sustentáveis, a produção feita por pessoas que estão a receber salários justos e o cliente comprar com ponderação – conseguimos construir um futuro melhor para todos.

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