Revista Rua

2020-09-07T16:59:00+00:00 Opinião

E agora?

Crónica "O poder está na RUA!"
Rui Madeira
Rui Madeira
7 Setembro, 2020
E agora?

O poder está na RUA! #1

Na democracia, a Arte e os Artistas já se mobilizaram para muitas guerras! Poucos dos que ainda resistem, lutaram, enquanto jovens, contra a ditadura. Pessoalmente tenho cravadas na memória imagens e sons daqueles tempos vividos numa aldeia do Ribatejo. Todos os Artistas devem estar conscientes da luta quotidiana que é preciso travar para manter a Democracia viva e com ela a Criação Artística.

No sector das Artes, o absentismo é quase ZERO. E é, talvez, o sector mais fragilizado, mais precarizado, mais mal remunerado, mais sem segurança…  ABANDONADO. Entre as Artes Vivas, o Teatro e a Dança são das únicas áreas de criação onde os artistas participam no co-financiamento directo em mais de 50%. As Artes vivem hoje tempos difíceis. Mas sejamos claros: não é por causa do COVID-19. Esta é apenas mais uma crise a acrescentar. A pandemia não é a mãe de todas as crises, como nos querem mascarar. Há um vírus endémico que nos tolhe a alma e que só nos faz grandes no auge das Tormentas. A falta de ar não começou agora! O vírus instalou-se na Democracia e todos nos fizemos passar por assintomáticos. O sector estava assintomático há muitos governos e todos (responsáveis políticos e agentes) tinham consciência da situação. Empurraram com a barriga. E ao invés do que se fez crer, o sector é muito diverso, no que concerne a organização das estruturas de criação, de produção, conceito de gestão e projecto artístico. Há no país três ou quatro estruturas de criação artística (e não são os teatros nacionais, esses sim, públicos) que mantêm uma gestão assente na contratação a termo. Significa isso que cerca de 30% do que recebem do Estado retorna ao Estado em contribuições. E o Estado, que nem sempre cumpre prazos de pagamento, acrescenta com isso mais custos à gestão. A tragédia começou com a criação de políticas não-sustentadas (e subfinanciadas) de Criação e Cultura para o País; com a falta de equidade e transparência no Modelo de Apoio às Artes e no conceito que o sustenta, que privilegia o projecto pontual. E com o Estado a “recolher” no mínimo 150€/mês por cada precário, que nada recebe de benefícios sociais.

“As Artes vivem hoje tempos difíceis. Mas sejamos claros: não é por causa do COVID-19. Esta é apenas mais uma crise a acrescentar. A pandemia não é a mãe de todas as crises, como nos querem mascarar. Há um vírus endémico que nos tolhe a alma e que só nos faz grandes no auge das Tormentas. A falta de ar não começou agora!”

Agora, mais importante que correr a “tocar a rebate” será, aproveitando o “estado de emergência” e debelada a brotoeja, que se reflicta, antes de passarmos do “estado de calamidade” ao “estádio de depressão”, que imagino ser o anterior à surpresa do “estado a que isto pode chegar”. Agora, urgente, é que na mesa da discussão de amanhã se coloquem as perguntas certas: 1. Que conceito de estrutura artística serve melhor o País, a Cultura e os Artistas? (um conceito baseado numa falsa agilidade empresarial, centrada na empresa unipessoal a recibos verdes ou uma estrutura de pequena/ média dimensão, de cariz solidário e sem fins lucrativos, mas que assente a sua gestão na responsabilidade social a termo?). 2. Para quando o estatuto profissional para os artistas (dança, teatro, música, circo, etc.)? A quem interessa esta indefinição?

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:

Diretor artístico da Companhia de Teatro de Braga.

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