Revista Rua

2020-09-01T13:54:13+00:00 Opinião

É bom ser português

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
1 Setembro, 2020
É bom ser português

Não é novidade nenhuma que a música portuguesa vive uma era, pelo menos para mim, de ouro. Já aqui escrevi algumas vezes sobre o boom de projetos que foram aparecendo ali por volta de 2004/2005 e que deram o mote para que, ainda nos dias de hoje, haja uma cadência bem clara de bons projetos musicais, no nosso país, a dar cartas no panorama musical nacional.

Uma das grandes diferenças que assistimos na música nacional, há uns bons 15 anos pelo menos, é a tendência de se cantar em português e não em inglês ou outro idioma. De facto, existiu durante muito tempo – décadas diria – a crença de que cantar numa língua mais universal, como o inglês, seria sinónimo de maior probabilidade de sucesso e até mesmo de internacionalização. Se olharmos para o que hoje nos rodeia, vemos que o paradigma mudou completamente. De bandas como Linda Martini ou Capitão Fausto a cantautores como B Fachada, Benjamim ou Samuel Úria, percebemos que cantar em português assumiu-se como a nova – e boa – realidade na música nacional.

Do Rock à Pop, do Hip-Hop ao Indie passámos a assistir a uma certa “portugalidade” na música, absolutamente transversal e imune a géneros ou nichos. Ora, é sobre a “portugalidade” ou melhor, a nova “portugalidade” que tem aparecido que irei agora falar. De há uns tempos para cá temos assistido a fenómenos que, por muito que queiramos, não lhes podemos ficar indiferentes. É daquelas coisas, como disse o Fernando Pessoa, “Primeiro estranha-se e depois entranha-se”. De quem falo? Dos novos bastiões do baluarte português: David Bruno e Chico da Tina.

Exagero, dirão alguns, mas creio que tanto um como outro já passaram, por mérito próprio, a fase da surpresa e a fase do acharmos que talvez seja algo efémero ou mera sorte/acaso. Para quem não os conhece, estamos a falar de dois artistas, da nova música nacional, que apesar de terem abordagens diferentes, no género musical, abordam a temática da tradição e do imaginário nacional como se calhar só o tínhamos visto noutros géneros, nomeadamente, na música popular portuguesa, vulgo pimba. A diferença aqui está na roupagem e no conteúdo que se tenta passar na mensagem.

Chico da Tina ©D.R.

O David Bruno ou dB já anda nisto há uns tempos. Pessoalmente falando, a primeira vez que li o seu nome foi como autor do instrumental da música do PZ, intitulada “Cara de Chewbacca”. Foi precisamente assim que o músico de Gaia começou: a criar e a samplar instrumentais, muito ligados a uma base Hip-Hop, tanto em nome próprio como para Conjunto Corona, grupo de Hip-Hop com pronúncia do norte que já conquistou, largamente, o público afeto a este género musical, mas também o público mais alternativo. Em 2018, David Bruno lança o seu segundo disco a solo, O Último Tango em Mafamude, e tudo muda: a abordagem, o género, a mensagem, a arte. David Bruno faz uma ode aos anos 80/90 de Gaia, a sua cidade, e começa aqui a narrar a tal portugalidade, o imaginário duma época, ainda que numa cidade específica, mas transversal, diria, a toda uma região do norte do país. Segue-se Miramar Confidencial, em 2019, e mantêm-se aqui as referências, as alusões aos sítios, aos lugares, às histórias, enfim, ao imaginário, que às tantas era sentido por tanta gente, mas ainda ninguém o tinha feito como David Bruno. Agora, em 2020, Raiashopping é o terceiro disco de originais em três anos e fala das suas origens e da sua infância, no interior do país. Muda a zona geográfica, mas o trovador das memórias e que narra a tradição está lá.

Ao mesmo tempo, ainda que mais recentemente, aparece também um novo nome a representar o Alto Minho, o Chico da Tina. Intitulado de Minho Trapstar, procura assentar a lírica duma realidade muito típica do Alto Minho, nomeadamente nas tradições minhotas, nas romarias e com a mensagem de que os inglesismos/estrangeirismos não têm o mesmo valor da verdadeira essência da nossa identidade nacional. Já com David Bruno isso acontece, mas o Chico da Tina, além de tudo isto é um verdadeiro fenómeno da internet. Basta procurarem o número de visualizações que cada um dos vídeos tem. A rádio, nos dias de hoje, é cada vez menos o lugar onde aparecem os novos valores ou, em suma, já não é apenas lá que um artista, na atualidade, procura divulgar e promover o seu trabalho; bem pelo contrário. Estes dois exemplos demonstram bem que o ouro agora está noutro sítio, está na internet, está no YouTube, está no vídeo, está nas redes sociais, está no etéreo da informação global. Se, por um lado, narram a tradição e trazem-nos o revivalismo da tradição, por outro, a forma atual e certeira de como se promovem demonstra que nada é feito ao acaso.

Esqueçam o “foi sorte” nestes dois casos. Há aqui trabalho, pensamento, estratégia e direção no público a atingir. Quando isto do COVID terminar, poderemos vê-los na edição de 2021 do NOS Primavera Sound Porto 2021. Ninguém pisa os palcos deste festival por sorte. Há trabalho e mérito.

É bom ser português.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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