Revista Rua

2020-09-16T16:48:41+00:00 Opinião

e tudo acaba agora…

Crónica
Márcio Luís Lima
Márcio Luís Lima
16 Setembro, 2020
e tudo acaba agora…
I'm thinking of ending things ©D.R.

I’m thinking of ending things de Charlie Kaufman é capaz de ter sido o filme que mais me afetou ao longo deste ano – e devo dizer que poucos filmes me afetam ao ponto de me perturbarem como aconteceu com o filme de Kaufman.

A nébula obscura que paira desde o primeiro momento do filme até ao final, ao longo dos cento e trinta e quatro minutos, aponta constantemente para uma reviravolta que parece nunca acontecer. Esperei impacientemente por uma faca que caísse e rasgasse o peito do espectador, mas parece-me antes que a espera é um constante degolar pela mão do tempo enquanto assistimos ao filme – ela não cai de uma vez, penetra antes pelo cachaço numa tórpida anestesia local sem nos apercebemos. Do nada reparamos que tudo mudou, que o desenlace já deixou cair o pano e que o tempo já fez o seu trabalho: modificou tudo.

Antes que o espectador se aperceba do que está a acontecer, o filme acontece. E é a partir daí que me suscita uma náusea ingrata, a da dúvida entre o que é ou não real: quanto daquilo que assisti é filme e quanto é parte da minha própria linha cronológica.

Num ápice tudo se torna memória e somos meros pontos fixos enquanto o tempo passa por nós. Quantas vezes nos ouvimos a nós próprios exclamar “parece que foi ontem” como se o tempo sofresse algum tipo de mutação e sessenta segundos fossem feitos de uma matéria moldável que nos escorre pelas mãos, rasgando os poros e abrindo chagas de velhice. Estas feridas metafísicas rompem pela transcendência e alcançam a alma de uma modo avassalador, até ao âmago das sensações na memória. Uma mão falecida toca-nos na pele imaginária e sentimos o toque na saudosa memória, o cheiro entranha-se na roupa pela amargura da noite e uma escuridão tépida abraça o cadáver oco do nosso corpo, abandonado pelos escombros do tempo – osso e pavio queimado.

O experimentalismo cinematográfico começa a ganhar espaço numa sociedade onde toda a informação é tão pouco filtrada e cuspida em tantas frentes, por isso este toque de absurdo e surrealismo principia a alcançar cada vez mais gente. Cada espectador retira o que quiser do filme e isso é uma grande distinção face aqueles filmes em que o final afunilado nos entrega uma mensagem num corredor retilíneo sem portas.

A performance artística da Jessie Buckley e do Jesse Plemons é crucial para o resultado final da obra, a par da extrema e perturbadora loucura das personagens representadas por Toni Collette e David Thewlis – uma completa surpresa em todos os aspectos.

Rasguei várias peles junto das unhas e vi a carne viva a crescer ao longo da minha, ardendo, incinerando a cada centímetro de pele arrancada. Após as duas horas já toda a pele estava sobre a carpete de pelo azul do meu quarto. Um pulsar dos batimentos cardíacos atravessava as veias ténues dos meus membros e perdi o ritmo entre as inalações de oxigénio e o bombear do sangue, que a dado momento duvidei ser meu. Ambas as mãos sobre o meu rosto demarcavam um rastro do meu ser corpóreo sem que nada ficasse na terra para além das sementes que viriam a brotar da ponta dos meus dedos, por entre as minhas unhas caídas.

É este sentimento que sobeja após assistir ao filme I’m thinking of endings things de Kaufman (que desde os primeiros momentos nos apercebemos de que não se trata de romper um relacionamento amoroso, mas sim um relacionamento vital – entre o homem e a sua vida).

Cada balada que marca os segundos no meu pulso esquerdo não é mais que um relógio perene e fixo, pois sou eu quem realmente sofre as badaladas – e cada segundo, a par de uma culpa qualquer humana, carregada no cerne da alma, é como um pequeno corte de papel até que todo o espaço epidérmico seja somente chaga e fogo.

Sobre o autor

Licenciado em Filosofia (atual mestrando). Escritor, no sentido lato da palavra. Um apaixonado por boa literatura. Presente através do ig (@marcioluislima) e de becodapedrazul.wordpress.com. Toda a escrita tem por base o detalhe certo, daí sucede-se a vida.

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