Revista Rua

2019-10-07T18:09:43+00:00 Opinião

É verdade porque está na net

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
7 Outubro, 2019
É verdade porque está na net

Estava a ouvir uma apresentação sobre Portugal, a sua história e costumes, em polaco. Obviamente não falo polaco, mas há certas palavras que, pela terminação ou som, nos fazem entender o sentido do discurso, especialmente quando são nomes portugueses mal pronunciados.

Interpelei a pessoa que proferia a apresentação sobre o que estava a dizer, e fiquei a saber que:

“A pedra mais usada em Portugal é o granito” (…),

“O Rio de Janeiro foi a cidade capital de Portugal” (…),

“O rio Douro é o maior rio de Portugal” (…),

“O ponto mais alto de Portugal é o Pico” (…),

“As bebidas tradicionais são o Porto, jeropiga e ginjinha” (…),

“É permitido o casamento entre homossexuais desde 2010” (…),

“30% dos acidentes são devido ao álcool” (…),

numa apresentação que pretendia ser turística.

– “Foste à Wikipédia?”, perguntei eu.

“Claro!”, responde-me o polaco com um sorriso; como quem diz, nós somos lá do Norte, brutalmente influenciados por alemães e russos, mas temos internet e usamos todas as ferramentas que os ocidentais nos disponibilizam.

O que foi dito estava errado? Não, excepto a questão do rio Douro, que eu fiz questão de dizer que o maior rio português é o Mondego e o maior rio que atravessa Portugal é o Tejo. O problema é o que é dito fora do contexto, mesmo que seja verdade, e que deturpa a interpretação global; neste caso, da nossa história.

“Ou seja, um dos piores momentos do pesadelo de Orwell, 1984, foi conseguido pela Wikipédia: a possibilidade de alteração da História e, consequentemente, da memória. Não foi preciso nenhum estado manipulador, apenas uma ferramenta global e o desleixo natural de alguns carneiros, do Animal Farm.”

É verdade que o Rio de Janeiro foi a capital do Reino, mas apenas e só porque as tropas francesas desceram até nós e o Rei foi para o Brasil. A Capital do Reino era onde se encontrava o Rei e a Côrte. Por exemplo.

Ou seja, um dos piores momentos do pesadelo de Orwell, 1984, foi conseguido pela Wikipédia: a possibilidade de alteração da História e, consequentemente, da memória. Não foi preciso nenhum estado manipulador, apenas uma ferramenta global e o desleixo natural de alguns carneiros, do Animal Farm.

Regresso a Eça e a Orwell sempre que os costumes e a verdade são colocados em causa.

As democracias, nos dias de hoje, usam mecanismos de controlo sobre a população que, há 60 anos, só se imaginariam numa ditadura: é a monitorização de todos os gastos da população e o cruzamento de dados; é o Ministério das Finanças cobrar coimas excessivas em áreas que não tutela; a actuação sobre o micro e pequeno comércio, fechando-o; a asfixia de liberdade por via da ameaça de desemprego; o confisco do Estado aos rendimentos das famílias e empresas; juntando todas as informações que a população, de livre e espontânea vontade, fornece via redes sociais.

As redes sociais são um factor de integração e são-no, ao mesmo tempo, uma ferramenta de casulo às mais diversas causas, sem relevância para a verdade global, mas com especial incidência nos interesses de alguns.

Passo a explicar: usando uma rede social, damos informações sobre idade, sexo, localização, gostos e desejos futuros, materiais ou imateriais. Há ferramentas que compilam essa informação e nos devolvem conteúdos de acordo com a nossa pesquisa inicial. Conteúdos que nos dão “uma verdade” e uma só; “está na internet é porque é verdade!”. Ficamos fechados a uma só fonte de conhecimento.

No online, este tipo de actuação de toda uma sociedade impõe o individualismo em vez da pluralidade. Os conteúdos na internet são imensos, muitas mais que qualquer outro local poderá compilar, mas têm a consequência de nos facultarem apenas o que queremos ver e não tudo aquilo que necessitamos de ver.

A sociedade fica egoísta.

Quando se lê um jornal ou uma revista, temos assuntos sobre política, economia, sociedade, humor, desporto; e para cada assunto deverá haver contraponto. Ou seja, quem lê um jornal, em princípio, tem a possibilidade de ler o mundo no seu todo.

Será importante fazê-lo? Claro!

O mundo não é preto ou branco; não há um só caminho, uma só verdade. Para tomarmos opções em consciência e com livre-arbítrio, é necessário conhecer as realidades que nos rodeiam.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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