Revista Rua

2018-05-03T19:06:06+00:00 Opinião

Sobre o custo de um filho

Economia
Sílvia Sousa
Sílvia Sousa
3 Maio, 2018
Sobre o custo de um filho

Entre 1960 e 2010, o índice sintético de fecundidade, em Portugal, desceu de 3.16 para 1.39, ou seja, em 50 anos, o número médio de crianças vivas, nascidas por mulher em idade fértil, desceu para menos de metade. Em 2013, este indicador atingiu um mínimo de 1.21 e, embora tenha melhorado desde então, os dados mais recentes (2016), apontam para um valor de 1.36. Considerando que o valor mínimo para a reposição de gerações é 2.1, o desafio demográfico, agravado pela crescente proporção de idosos na população total, é enorme. E, claro, coloca um desafio complexo à definição de medidas de promoção da natalidade, exigindo que se compreenda o que leva as pessoas a ter filhos.

A Economia terá, naturalmente, um contributo a dar nessa matéria, i.e., na fundamentação da decisão de se ter filhos, através da análise dos custos associados, em particular, do custo de oportunidade. Este, para além de ter em conta os custos mais óbvios (cuidados de saúde, alimentação, vestuário, educação…), tem em consideração outros aspetos decorrentes da comparação entre a escolha de se ter um filho ou não. No contexto do mercado de trabalho, o custo de oportunidade de se ter filhos é medido através do seu impacto no salário auferido e na progressão na carreira, tópico sobejamente estudado, com abordagens complementares e resultados relativamente consistentes.

No contexto do mercado de trabalho, o custo de oportunidade de se ter filhos é medido através do seu impacto no salário auferido e na progressão na carreira, tópico sobejamente estudado, com abordagens complementares e resultados relativamente consistentes.

Sílvia Sousa, economista

diferencial salarial entre cônjuges. Partindo do facto de que os casais tendem a ser constituídos por pessoas com níveis de escolaridade e percursos profissionais idênticos, observa-se uma aproximação dos rendimentos dos membros do casal, tendência essa que se altera com a chegada do primeiro filho, altura em que se verifica uma queda significativa no rendimento médio da mulher, acompanhada por uma manutenção ou aumento do rendimento médio do homem. Uma nuance curiosa é a relevância do timing do primeiro filho, sugerindo que as idades mais penalizadoras para as mulheres situam-se entre os 25 e os 35 anos. A ideia é que os casais que têm filhos mais cedo têm, em média, menores níveis de escolaridade e de rendimento e logo diferenças salariais inferiores. Já as mulheres que têm filhos mais tarde, têm, em média, níveis de escolaridade mais elevados e menos filhos, encontrando-se numa fase da sua carreira que lhes permite alguma autonomia e poder de decisão relativamente a como e quando desenvolver o seu trabalho, sendo menos penalizadas.

Basicamente, é tudo uma questão de tempo. As crianças requerem tempo, muito tempo, especialmente antes de iniciarem a escola, e as mães, em média, despendem desproporcionalmente mais tempo do que os pais a cuidar das crianças e com outras responsabilidades associadas. Este fenómeno é particularmente penalizador quando as mulheres se encontram numa fase de construção da sua carreira, de forte investimento e afirmação profissional, produzindo um menor impacto no caso das mulheres com carreiras estabilizadas ou que ainda não as iniciaram. E este facto não deverá ser irrelevante na decisão ou na definição de medidas de política.

Sobre o autor:

Economista, Uni. do Minho

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