Revista Rua

Edu Mundo: “O pai da minha criatividade é o aborrecimento”

Apresentamos Márcio Silva e o seu aborrecimento – sim, porque para ele, o aborrecimento é o estímulo perfeito para dar início a uma folha em branco.
Edu Mundo | Fotografia de Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira24 Agosto, 2020
Edu Mundo: “O pai da minha criatividade é o aborrecimento”
Apresentamos Márcio Silva e o seu aborrecimento – sim, porque para ele, o aborrecimento é o estímulo perfeito para dar início a uma folha em branco.

Ele é do Porto, mas as suas canções trazem o mundo em cada melodia. Um mundo de possibilidades, se procurarmos a sensibilidade certa. Um mundo que começa em nós e na nossa perceção daquilo que se passa à nossa volta. As vozes, as entoações, os sons… Márcio Silva é Edu Mundo, um projeto que celebra todas as experiências do artista português, que já subiu a palcos com Souls of Fire, Terrakota, Diabo na Cruz e atualmente Cordel e Fogo Fogo. Numa conversa sobre música portuguesa e sonhos a cumprir, apresentamos Edu Mundo e o seu aborrecimento – sim, porque para ele, o aborrecimento é o estímulo perfeito para dar início a uma folha em branco.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Gostaríamos de começar esta conversa com uma pergunta sobre os últimos tempos. Como viveste a fase de confinamento? Foi difícil para ti?

Vacilei, como toda a gente. Muita gente sentiu que este ano ia ser um ano em grande. Eu, por exemplo, tinha grandes planos para 2020: dois discos, um para Fogo Fogo e outro para Cordel. Pararmos a velocidade assim de uma forma abrupta é qualquer coisa de vertiginoso. Para mim, a palavra que mais qualifica esta história toda é “vertigem”. Senti uma vertigem como um carro que, de repente, parte o motor e me faz bater com cabeça no tablier (risos) Acho que toda a gente sentiu isso, mais cedo ou mais tarde. Senti-me um marinheiro na montanha. Esta situação tirou-me do alto mar e pôs-me na montanha e, hoje em dia, há uma ressaca de mar, uma ressaca de ondulação. “porquê agora?”, “porquê nós?”. Só ouvíamos falar de pandemia nos livros de História… É estranho ser real!

Em relação aos músicos, a situação é bastante difícil e precária, porque acabou por trazer à superfície uma data de problemas que a cultura já tinha. Essa frustração de perceber que os teatros não podem encher, mas os aviões podem.

Sentiste que foi um período criativo para ti? Conseguiste retirar algum ensinamento desta fase?

Sou um bocado neurótico no sentido de criar ou de tentar trabalhar e, por isso, eu já fazia quarentenas. Já me fechava, ficava em casa muito tempo, saio apenas para comprar comida ou algo do género… A minha maneira de viver já contempla um lado ermita, de fazer companhia a mim próprio. Isso é outro problema, de alguma maneira, da nossa sociedade actual. As pessoas, de uma forma individual, tendem a perder essa capacidade de fazer companhia a si próprias, calar a voz interior. Não conseguirem passar várias horas sozinhas sem se sentirem fustigadas pelo silêncio ou pela solidão. Não ter de ligar ao amigo só porque não tem com quem falar. Eu acho que o pai da criatividade é o aborrecimento. Quando me sinto aborrecido dou, naturalmente, início ao encontro com a página em branco.

Durante a minha pesquisa para esta entrevista, cruzei-me com uma descrição muito interessante tua, que é “Edu Mundo, um poeta das canções”. É assim que gostas de ser chamado? Como te descreverias enquanto músico?

Eu não sei se eu sou poeta. Acredito que as outras pessoas me possam achar poeta. No fundo, as características que sei que tenho foram outras pessoas que as disseram. Eu não sei se sou teimoso… sei que as outras pessoas podem teimar comigo e fazerem-me ver que sou! (risos) Eu não sei se eu sou poeta. Sei que sou versejador e que tento sintetizar histórias em verso. Na verdade, tenho a capacidade de fazer uns versos… Agora, se esses versos são de poesia ou não, essa análise já deixo à consideração das outras pessoas.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Já estiveste envolvido em muitos projetos musicais, de vários géneros até (Terrakota, Souls of Fire, Diabo na Cruz e atualmente Cordel e Fogo Fogo). É neste universo tão vasto que te sentes bem? Ou seja, não queres ficar confinado em apenas um género?

Sim, são só diferentes formas de expressão. É como se um jogador de futebol pudesse jogar em vários clubes ao mesmo tempo. Não há uma fidelização a um projeto, se bem que sempre que me entrego a um projeto sou fiel, na maneira de me entregar totalmente, de me atirar totalmente. No entanto, esse salto que acontece é plural, acontece de várias formas e em várias circunstâncias. Estou a lembrar-me, por exemplo, dos Souls of Fire, que foi um dos projetos onde comecei como instrumentista (era baterista) e, mais tarde, comecei a fazer canções. Mas tudo isto tem vindo a ser um caminho à descoberta de características que estão cá dentro e, por curiosidade, gosto de desenvolver. Depois, a seguir, fui para Terrakota com o objetivo de incentivar-me a trabalhar mais a bateria e a conhecer mais o espectro de ritmos que existem pelo mundo fora. Nada melhor que Terrakota para me dar esse doutoramento! (risos) Mas, na mesma altura, apareceu Diabo na Cruz e aí tive de aprender braguesa e conhecer vários projetos que eu nem estava tão ciente. Foi mais fácil chegar a Nirvana ou Pearl Jam à minha realidade do que chegar Brigada Victor Jara. Mas Diabo na Cruz trouxe-me esse mergulho mais fundo sobre a música tradicional, sobre a música popular portuguesa. Apesar de ser bastante fustigante ter constantemente a necessidade de me perguntar se sou capaz, de estar sempre na corda bamba, considero que isso é que é viver! Dá-me muito prazer conhecer coisas novas. Tenho sempre presente a ideia de matar curiosidade, mais do que me elevar de alguma maneira. Quero saber se sou capaz de me inserir, se sou capaz de tocar aquele ritmo, se sou capaz de agarrar aquela guitarra. Dá-me prazer ter testes constantes, provocados sobretudo por falhas que encontro em mim mesmo. Acho que o meu caminho segue mais por aí do que pela ambição de montar uma carreira – até porque essa palavra é muito dura e eu tenho muito medo dela (risos) Então, o existir já é carreira!

Nessa lógica de ensinamento, o que é que Cordel te tem ensinado?

O Cordel é um projeto muito especial no sentido em que o que ganha é sempre a canção. Conheci o João Pires sem o conhecer pessoalmente (risos) Temos um colega em comum que achava que havia alguma confluência entre nós e, a dada altura, o João, menos paciente que eu, escreveu-me um email já com uma canção. Trabalhamos assim menos de um ano, enviando intenções musicais, sem nos conhecermos. Daí, também, o nome “Cordel”, no sentido de segmento de reta, em que ele está num polo e eu estou num polo oposto.

 Eu já tinha o bichinho de escrever em português – até porque eu não sei escrever noutra língua. Não me proponho a escrever em inglês porque sai tão primário: eu ir, eu estar. Sinto sempre que não estou à altura, não tenho os adjetivos certos, ainda não li o suficiente, não sei o suficiente para escrever noutra língua que não o português. Então, o João deu-me todas as possibilidades de eu acreditar nesta vontade que estava aqui crescente. Ao mesmo tempo, poucas vezes me tinha proposto à posição de cantar, acompanhado por uma guitarra. Já me tinha posto numa posição de cantar com uma banda, que é como estar à frente de um batalhão, mas de repente despojar-me disso tudo e abraçar um projeto onde só existem duas guitarras e duas vozes é bastante mais complicado, despido. Tem sido mais um teste. O Cordel vai de vento em popa.

Já tiveste oportunidade de compor para grandes nomes da música portuguesa, como Ana Moura, António Zambujo ou Sara Tavares. Olhando para o panorama da música portuguesa, que influências retiras?

Claro que existem ícones onde todos nós fomos beber. Obviamente que a minha vida mudou drasticamente depois de ouvir alguns discos que me servem de pontos de clivagem, nomeadamente o Enquanto há força ou o Maio Maduro Maio, de Zeca Afonso, o Resistir é vencer, de José Mário Branco, ou o Por este rio acima, de Fausto. Mas quando ouvi estes discos eu já estava disposto a querer ouvi-los. Acredito ter de haver uma predisposição. Nós estamos predispostos naturalmente a ouvir música anglo-saxónica. Porque foi assim que nós crescemos. Nascemos a ouvir bluesfunk, rock. E, de alguma maneira, o mundo tenta ecoar. Como o Fausto diz, “não cantes e toques o beat à americana porque esse nós já conhecemos na versão original”. Então, houve uma altura em que eu decidi que, ao invés de passear os “filhos dos outros” – pondo aqui uma analogia de “filhos dos outros” como sendo música de outros países -, queria olhar para dentro. Queria encontrar no vira a minha verdade, na charamba, no fandango, na chula… Porque, se fizermos o teste, todos nós sabemos de cor dez letras de samba ou Bossa Nova, mas se eu pedir a alguém para cantar dez viras eu não sei se saberá (risos)

Eu fiz esse exercício interno e fiquei um bocado envergonhado por ser um agente cultural e não saber muito da cultura do meu próprio país. Então, daí essa sensibilidade de querer ouvir mais o Sérgio Godinho, de querer ouvir o B Fachada, a Catarina Miranda, o Manel Cruz e, ao mesmo tempo, ir lá atrás e conhecer o acervo do Armando Leça – é incrível saber que houve alguém no mundo inóspito onde não existia internet que foi por Portugal adentro com um gravador gravar os cantos polifónicos, o cante, as modas da agricultura, a maneira como as pessoas incentivavam os animais a puxar os arados. Isso é música, apesar de também não ser.

É como retirar inspiração de qualquer momento?

Sinto-me muito influenciado pela minha vizinha que me diz “Ó filho, vais sair hoje? Está um rico dia para ires para a praia e estás metido em casa a tocar guitarra”. Isso influencia-me. Influencia-me tanto ou mais que a música já feita. Influenciam-me as pessoas e a maneira como falam. Mas claro que existem discos que são pontos de clivagem na minha vida: , de Jorge Palma, foi um disco que mudou praticamente a minha vida. Quando percebi que havia alguém a fazer aquilo daquela maneira e a ir tão fundo nas palavras como ele vai, apesar de ser influenciado por portugueses ou estrangeiros, aquilo mudou drasticamente a minha vida. Os Sobreviventes de Sérgio Godinho, mudou a minha vida também. São discos que depois de os ouvirmos não dá para voltar atrás. No entanto, as conversas com as pessoas são muito mais importantes. Às vezes estou a escrever uma coisa qualquer e estou a ouvir uma entrevista que deixei aleatoriamente a correr e o entrevistado diz uma frase que muda a minha perspetiva. Ou então até utilizo aquilo na letra e tento contextualizar com o trabalho que estou a fazer.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Essa atenção pode ser considerada um talento?

Eu não acredito muito em talento. Acredito mais, como diz o Rodrigo Amarante, que o processo é a musa. O método é a musa. Então, a inspiração, se existir, quando aparecer, que me encontre a trabalhar. Gosto dessa ideia de todos os dias vencer um bocadinho à morte. Acho isso muito mais interessante do que atirar para um místico ou um lugar de potencial de talento. É um lugar mundano, material, onde a pessoa que está aqui ao meu lado me diz uma frase e aquela frase pode inspirar-me. Ou então a melodia da mesma frase. Os meus sobrinhos influenciam-me muito pela forma como falam. As melodias que usam ao falar entram na minha cabeça e ganham novas possibilidades. Tento ouvir a melodia. Estou constantemente nisto. Normalmente dizem que eu sou um distraído, mas sou é atento noutras coisas.

Quais são os teus anseios? Onde queres chegar?

Da mesma maneira como sou materialista na maneira de pensar o talento, também não sei muito bem o que é o futuro. Não faço ideia. É uma projeção de quereres: eu gostava que ele viesse e fizesse isto de uma determinada maneira. Claro que quando nós projetamos existe um desejo inerente, porém gosto de deixar espaço para que a própria realidade me diga o que é que tenho de fazer ou por onde é que tenho de caminhar. E deixo também à minha sensibilidade essa perceção de entender as necessidades do meu presente. Eu não sei muito bem o que é isso do futuro. Aliás, deixo ao futuro essa porta aberta! Isso é que me faz, de alguma maneira, estar aqui e ainda não ter ocupado o meu tempo com um trabalho das 9h às 6h, remunerado mensalmente. Alegraria totalmente a minha família com essa segurança (risos) Mas prefiro estar neste lugar onde me deito na almofada e sinto que ela é a minha maior amiga ou maior inimiga. Às vezes ela diz-me: “Foi ótimo, foi incrível, és o maior, és um samurai!”. Outros dias pergunta: “Como é que vais pagar a renda amanhã?”. Eu acho que essa incerteza é que faz rodar o mundo. Esse lado turvo. Não tenho a intenção ou essa necessidade cómoda de querer saber comp vão ser os meus próximos cinco anos. Porque, sobretudo, nunca serei esse lugar. Não saber já é saber. É deixar ao acaso. Deixar esse acaso brilhar, e como há uma beleza nos instantes, no acaso! Eu gosto de aproveitar isso! (risos)

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