Revista Rua

2021-02-15T11:46:05+00:00 Opinião

Ele há cada uma!

Crónica
Ana Marques
Ana Marques
15 Fevereiro, 2021
Ele há cada uma!
©United Nations / Unsplash

Lá fora, as primeiras bagadas caem salpicadas e frígidas. Ao início, parecem emergir como quem testa o terreno antes de se chafurdar à bruta, e, a pouco e pouco, dá-se uma entrega que até as telhas das casas das gentes choram e pedem por mais. Ai é, é, que desta frincha sei que elas almejam por mais, sibilando a quem lhes der ouvidos pela noite calada! Agora, já pouco se vê, e quando alguém aparece, mais se assemelham a baratas ousadas que decidem mostrar-se quando ninguém está à espera, deixando a quem vê um espanto de tal ordem que vai deitar-se a remoer o sucedido.

À custa dessa brincadeira, que nem brincadeira o é, a alma de uma mulher desconfiada lá se vira indignada e suspeita para o homem, com a pulguita atrás da orelha, de braços cruzados, pronta para o interrogatório, Tu hoje que tens, homem, e ele ressuscita do pensamento, aterrando aos lençóis da cama, e lá diz como pode, Não tenho nada, pois que havia eu de ter, Sei lá, por isso é que te perguntei, com essa cara de caso, Olha agora tu avalias caras de caso, queres ver, Avalio a que te vejo todos os dias, homessa!

E dali não saíam. O homem não dizia por considerar ser parco assunto; ela não acreditava porque lhe via a cara trombuda. E assim ficavam. E pronto!

Pulsa-nos a realidade pandémica, é verdade, ninguém a esquece, oxalá todos a tivessem em mente e a respeitassem devidamente, mas, por vezes, com a acalmia rastejante que se faz sentir, e sendo ela tão mais do mesmo, às tantas, para quem aqui vive é só mais um dia num cenário bucólico como todos os outros anos.

De rompante, quem eu vejo é a Adelaide, dando corda aos chinelos de quarto, sai disparada porta afora, martelando o chão sem cautela, ao desvario do compasso, como se fosse hora oportuna para se mostrar aos céus abertos e às torrentes esguichadas que escorregam sem piedade das nuvens tensas. Tropeça-se toda na poça, chapinha um pé e reclama com os seus botõezinhos, e torna a acompanhar o passo, pois lá vai ela toda recambiada a despejar o lixo que leva pelas mãos grossas. Ai, mulher! Não aprendes! Parece que se coloca a jeito! Ou isto, ou o comandante quer apregoar uma sentença que tinha em atraso e aproveitou a deixa. De queixo aninhado no peito, como se com essa estratégia se visse livre das pingas gorduchas, vê-se aos arames com os dois sacos, com as veias gritantes, segurando como podiam os esforços que outras partes do corpo não implicam ao serviço.

A Olga, sagaz e coscuvilheira, do quarto andar, ressabiada e intrometida, sempre à coca, deixa cair o olhar por rua abaixo, segue-a como quem está dentro de um farol, perseguindo o intruso com o olhar cintilante. Vejo-a ir para dentro, até me espanta, e quando eu me viro a olhar a Adelaide e ela me desaparece da vista, reparo na outra com os braços estendidos no parapeito da janela, regressando, embora de luz apagada, esticando a visão dela para mim com um par de óculos a enfeitar o semblante.

Eu, que nada tenho a temer, aceno-lhe com os olhos levantados e dançantes. Ela, por sua vez, levanta-me a mão, estende-a, vejo-lhe o pijama vestido, não um qualquer que ela não é dessas, e eu acabo por levantar o meu braço em conformidade. Ela revira-me a cara. Eu espanto-me. A Adelaide torna a aparecer-me no campo de visão, e a Olga, de longe, na sua janela, vira-se na minha direção a dizer, Está frio, vizinha, e eu, quando me ia colocar a postos para responder, está-me a minha outra vizinha do lado esquerdo a responder-lhe, Está, está!

Sem nada a temer como há pouco, mas agora cheia de vergonha, encatrafio-me para dentro de casa e rio-me durante três minutos. Nessa noite, fiquei a remoer naquele momento como se fosse um homem a esconder à mulher um segredo que o atormenta.

Sobre o autor:

Estudo Ciências da Comunicação. Sou uma espécie de Camilo Castelo Branco: escrevo coisas aborrecidas e poucos reconhecem o meu talento. Há quem diga que tenho algum humor, eu digo que emano comédia.

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