Revista Rua

2019-02-22T16:58:54+00:00 Opinião

Eles saíram do armário.

Sociedade/Política Internacional
Marta Moreira
Marta Moreira
22 Fevereiro, 2019
Eles saíram do armário.

Começamos 2019 num registo assustador. Eles saíram do armário: o ódio, o autoritarismo e o fascismo. Eu sou pessimista por natureza e o que venho assistindo assusta-me e preocupa-me.

Ao longo dos últimos três anos, é só escandaloso. Importa-me colocar a tónica em dois acontecimentos recentes: em primeiro lugar, a tomada de posse de Bolsonaro como Presidente do Brasil. “Como é que se elege um fascista?”, anda o mundo inteiro a perguntar. A receita é doentiamente simples: em sociedades completamente devastadas por profundas crises económicas e sociais, basta convencer as pessoas de que aqueles que melhor as representam não são aqueles que sabem mais que elas, mas sim os que pensam como elas. Quanto mais boçal, desordeiro e desbocado for o candidato, melhor, que as pessoas sentem-se cada vez mais legitimadas na sua própria boçalidade e grosseirice. São esses, os que pensam como nós, os que melhor compreendem os nossos problemas e que por isso os irão resolver. Isso de que os problemas da comunidade enquanto colectivo nem sempre são os problemas individuais de cada um (sujeitos vezes demais aos preconceitos singulares que rapidamente se têm transformado em colectivos) já não interessa nada.

Assistimos também a um fenómeno curioso: as tantas vozes que tão alto clamavam o indecoroso preconceito e incapacidade de partilhar dos valores duma sociedade democrática de Bolsonaro, agora parecem ser cada vez menos e berrar cada vez mais baixinho. Já repararam que Bolsonaro é hoje muito menos fascista do que era há uns meses? Não é novo, já o assistimos com Trump: é fácil maquilhar a realidade com números fora de contexto e falseados, se lhes juntarmos uns quantos soundbites apetecíveis. Temos o nosso próprio Presidente da República a legitimar a sua governação, dado que foi um dos únicos dois líderes europeus a comparecer na cerimónia! As declarações são esclarecedoras, bem como aquilo que nelas não consta; o facto de o filho de Marcelo Rebelo de Sousa ser presidente da Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio do Brasil não terá provavelmente nada a ver com o assunto.

Assistimos também a um fenómeno curioso: as tantas vozes que tão alto clamavam o indecoroso preconceito e incapacidade de partilhar dos valores duma sociedade democrática de Bolsonaro, agora parecem ser cada vez menos e berrar cada vez mais baixinho. Já repararam que Bolsonaro é hoje muito menos fascista do que era há uns meses? Não é novo, já o assistimos com Trump…

Em segundo lugar, a mais recente aparição pública de Mário Machado na televisão generalista. O personagem, quero acreditar que desconhecido da maioria dos meus leitores, é o fundador da “Portugal Hammerskins” (uma organização de extrema-direita de ideologia neo-nazi), ex-dirigente da Frente Nacional (um grupo neo-nazi, que surge a partir de dissidências do PNR), líder da Nova Ordem Social (uma organização desta vez política). Ah, e para além disto é um criminoso com um currículo invejável: já esteve preso várias vezes, cumprindo inclusivamente a maior pena em prisão de alta segurança desde o 25 de Abril, por crimes como sequestro, tortura, coação agravada, posse ilegal de arma, ofensa à integridade física, discriminação racial e envolvimento no assassinato de Alcindo Monteiro. Nada mal para um grunho, não?

Actualmente está em liberdade, portanto talvez fosse mais politicamente correcto da minha parte referir-me ao dito como ex-criminoso. Não foi ao acaso: ao contrário do que as vozes defensoras quer do grunho, quer do infeliz momento televisivo (porque não, nunca lhe poderemos chamar momento jornalístico – para isso, teria de ter sido conduzido por um jornalista e teria de existir real contraditório), eu recuso-me a separar as ideias das acções. São muitos a tentar fazê-lo, realçando que a liberdade de expressão é um direito que assiste a todos e a todas as ideologias, e para isso escolhem branquear o cadastro criminal do dito. Ora, as duas coisas estão longe de ser indissociáveis: o passado criminoso de Mário Machado existe precisamente por causa dos ideais que defende, e é precisamente isso que muita gente anda a querer mascarar.

Todos nós temos pessoas destas ao lado. Estão na família, nas relações sociais, no trabalho. São aquele superior hierárquico que não tem pejo em apelidar-se de Deus perante os demais, por isso certamente mandatado para ordenar (e são sempre tão católicos!)

O fascismo mata. Não é a história do fascismo, não são os exemplos da sua concretização práctica, é a própria ideologia, que na sua génese, defende a discriminação, a violência e o ódio. Um fascista nunca será mais que um grunho, melhor ou pior disfarçado. E se há coisa que 2018 nos revelou, é que havia demasiados fascistas enclausurados no armário. Eles revelam-se em muitas pequenas coisas, menos óbvias que as que já enumerei, porém: o choradinho pelos efeitos nefastos aumentos do salário mínimo, a persistência nos horários de trabalho desumanos, as relações laborais que se deterioram, por exemplo.

Todos nós temos pessoas destas ao lado. Estão na família, nas relações sociais, no trabalho. São aquele superior hierárquico que não tem pejo em apelidar-se de Deus perante os demais, por isso certamente mandatado para ordenar (e são sempre tão católicos!); aquele chefe que considera o  salário de um trabalhador como um privilégio; aquele tio machista (mas que depois se vai a ver e não é só isso) que acha que a mulher pertence à cozinha; aquele amigo que se julga muito superior aos restantes comuns mortais, não melhor, mas mais válido (que são coisas muito diferentes). São esses os piores fascistas, os que estão tão fundo dentro do armário, que nem sequer se reconhecem como tal e tentam a todo o custo convencer os demais (e a si próprios, naturalmente) de que o combatem. Na hora da verdade, são os primeiros a cavalgar a crista da onda.

Como se combate isto, então? Para ganhar o jogo, é preciso jogá-lo, e isso implica correr o risco de ser corrompido. Aqueles que ainda conservam princípios éticos e morais mostram-se cada vez mais renitentes em fazê-lo. Como se racionaliza o impensável, como se argumenta com quem procura determinantemente a boçalidade? Como disse, sou pessimista por natureza. Assim, tal só me parece possível duma forma: povoando o mundo com mais pessoas boas , decentes. Venham daí mais bebés (mas filhos de gente boa, por favor); perdoem-me, que isto é só o instinto maternal a começar a dar sinal.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre a autora:
Professora do Ensino Artístico Especializado e sindicalista de feitio. É digamos que uma espécie de artista, que toca, canta e escreve (mas que ainda não dança). Autora do blog Pimenta na Língua, é uma esganiçada de pavio curto, activista de causas perdidas. Pessimista por defeito e inconformada por vocação.

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