Revista Rua

2020-11-19T17:42:35+00:00 Opinião

Em matéria de sonhos

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
19 Novembro, 2020
Em matéria de sonhos

Há alguns dias acordei e apetecia-me fugir, não sei bem para onde, mas sonhei que vivia em São Paulo. Como continuava a cobrir a televisão com um naperon, suponho que não viajei inteiro: o tronco ia para o Brasil e uma perna ficava em Almada, por isso, para ir dormir, a perna esquerda tinha de apanhar o cacilheiro e saltar o Atlântico, que é mais estreito do que o Tejo. Mas do que eu tinha vontade era de acordar um dia, vestir um smoking alugado e ir dançar tangos para Buenos Aires, como fez a minha tia há umas décadas. Mas, com o jeito que tenho, deixo o pé esquerdo em Almada para não pisar as senhoras, isto na hipótese de alguma me aceitar como par de dança ao lado das concertinas. Talvez a pessoa queira voar uma última vez, só ela, sozinha, a dormir, longe da tristeza e dos torcionários do dia a dia, que repousam na lembrança, talvez esse voo seja em direção da infância e por isso os olhos fechados e o sorriso enquanto se sonha, por muito minúsculo que este seja. Talvez seja este o motivo dos sonhos, voar para longe durante uns minutos. Uma vez explicaram-me que é totalitário intervir sobre o próprio passado que, por si, é irreversível – ora aí está outra boa razão para sonhar, evitar intervir sobre o que não se altera e ter uma paz breve de nós próprios e das nossas malas. Interessam-me coisas pequeninas, quinquilharias de estante velha, tralha inútil que para mim tem a maior importância, pessoas sozinhas sentadas em frente ao mar,

(aposto que não estão sozinhas)

a porta entreaberta do abrigo em Mártires da Liberdade de onde, ao início da noite, espreitava uma senhora a fumar, abraçada a uma mala de mão pequenina, os andaimes na Praça da República, debaixo dos quais dormiam três, quatro, por vezes cinco pessoas e a chuva a escorrer passeio abaixo. Com sorte, esta noite voo mais baixinho e livro-me de Almada e de São Paulo, fico com os dois pés no Porto, que me assenta bem em matéria de sonhos.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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