Revista Rua

2018-05-03T10:28:15+01:00 Histórias

ENT’ARTES – Vamos dançar?

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Redação2 Maio, 2017
ENT’ARTES – Vamos dançar?
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Professora de dança há cerca de 18 anos, Diana Sá Carneiro e o marido, Pedro Andrade, começaram o projeto da escola de dança Ent’Artes há cerca de seis anos. Desde então, tudo cresceu. Pedro é pianista e o atual diretor da escola, Diana é professora e toda a gestão necessária é feita pelos dois.

São 20h30 e o ensaio é na sala de Real (Braga). A sala está húmida e o ambiente abafado, fruto do trabalho intenso que se realiza, mas ao fundo está João Pedro Freitas, de 11 anos, a ensaiar um solo, ofegante, com a orientação de Patrícia Fiorucci, a mais recente professora da escola, vinda da Venezuela. O grupo está à espera que João acabe para começar o ensaio. A professora chama a atenção de João para alguns pormenores de mãos e a expressão do rosto, mas depressa tudo fica corrigido.

O ensaio incide numa peça sobre a segunda guerra mundial. Foi a peça que o grupo levou para Paris e que voltou a apresentar na final do Youth America Grand Prix (YAGP), em Nova Iorque.  A professora Diana criou a coreografia, que foi sofrendo várias alterações da professora Patrícia com o objetivo de elevar o nível de dificuldade para essa final que levou os alunos da Ent’Artes à cidade norte-americana.

Todos os enganos são imediatamente corrigidos e as repetições nunca são demasiadas. É preciso aperfeiçoar todos os pormenores, todas as expressões corporais e transmitir o sentimento e emoção que a peça exige.

O ambiente entre o grupo de 14 alunos é sempre de entreajuda. Com as novas alterações, cada vez mais exigentes, e os pequenos pormenores da professora, todos estão atentos para se poderem ajudar uns aos outros e explicar o que alguns possam não ter percebido. Perante o nível de dificuldade elevado, o que não falta são sorrisos de alegria e divertimento ao longo de todo o processo. No ensaio há tempo para tudo. Podem rir e brincar com a professora, mas também sabem quando fazer cara séria, arregaçar as mangas e “pôr as mãos na massa”.

Entretanto Margarida Carvalho cai. Todos ficam assustados. Quando levanta a cabeça, Margarida ri e diz “ai o meu cóccix”. Todos riem. A professora brinca um pouco com a aluna, verifica que não há nenhuma lesão e o ensaio continua normalmente.

Depois de ouvirem algumas notas da professora Patrícia, os alunos aplaudem o trabalho realizado e o ensaio acaba.

As competições

“Há várias. Vamos vendo sempre o que é melhor para eles e a decisão parte sempre dos professores. Eles até podem querer ou não. Por vezes, podem não estar preparados ou até não ter idade suficiente, portanto é preciso sempre a orientação dos professores”, conta Pedro. Os pais são também uma parte muito importante. Para além do aluno ter as capacidades físicas e psicológicas ideais, os pais têm de estar disponíveis para tudo. “Temos uma relação muito próxima. Contacto com a maior parte dos pais todos os dias”, revela Diana.

A maior parte dos concursos têm sempre a presença dos diretores das grandes escolas, que os observam, que lhes dão aulas e até mesmo bolsas de estudo. Em novembro, por exemplo, a Ent’Artes foi a Paris, para a semifinal europeia do Youth America Grand Prix (YAGP). O YAGP é uma das maiores e mais prestigiadas competições de dança do mundo. Cumpre uma missão de educação da dança através da atribuição de bolsas de estudos e oportunidades profissionais. Em abril, desde dia 5 até dia 17, o grupo de 14 alunos esteve em Nova Iorque, na final da competição. Lá, disputaram com todos aqueles que foram apurados nas diversas semifinais que foram decorrendo por todo o mundo. A boa notícia? João Pedro Freitas conquistou o terceiro lugar como solista na classe de Pré-Competitiva! O único solista português a subir ao pódio do YAGP.

A essência da Ent’Artes

A Ent’Artes – Escola de Dança foi estabelecendo parcerias ao longo do tempo, primeiro com o Colégio de Nossa Senhora das Graças, depois com a Academia de Dança Apolo (apenas para os seus alunos), com a Casa do Povo de Ribeira do Neiva e também com o Externato Leonardo da Vinci (apenas para os alunos da instituição). Hoje, para além destes locais, a escola de dança tem ainda salas de ensaio no centro da cidade de Braga, outra em Real e mais uma em Chaves. São, no total, cerca de 300 alunos entre os três e os 25 anos e doze professores. É lecionada a Escola Inglesa através da Royal Academy of Dance (RAD), Método Vaganova e Método Cubano. Da equipa de trabalho, fazem parte professores de ballet, dança contemporânea, condicionamento físico, Jazz, pilates, repertório e pas de deux.

Apesar de não existir um único edifício físico, agregando todos os espaços e salas, Diana diz que não se pode esperar pelas “condições ideais”. “Talvez pudéssemos ter uma grande escola, com uma vista maravilhosa para os jardins. Mas se ficar à espera não faço nada. Acima de tudo, o que me deixa mais feliz, e é para mim mais importante, é não deixar passar o potencial de alguns alunos”, conta com orgulho. Ainda assim, Pedro confessa que precisavam de salas com melhores condições, mas que ainda não surgiu oportunidade.

No entanto, de uma forma ou de outra, o casal consegue dar todas as condições necessárias para os alunos evoluírem. “Nós, em Real, precisávamos de uma segunda sala, ao lado da nossa, para fazer uma aula de condicionamento físico. E a Junta de Freguesia de Real, à qual estamos muito gratos, disponibilizou-nos essa sala”, realça Pedro.

Quando Diana vê alunos com determinado potencial, tenta que o trabalho desenvolvido seja mais direcionado. Para isso, fala com os pais e tenta alargar as horas que o aluno passa na escola para poder ter mais disciplinas e desta forma poder vir a frequentar workshopsmasterclasses e concursos. “O objetivo é que a formação de cada aluno seja sempre a mais completa e adequada possível”, refere.

Para além dos vários sucessos em competições a nível mundial, há outro pormenor que diferencia a Ent’Artes das outras escolas de dança. Aqui, não existe a possibilidade de um aluno ter apenas aulas de Jazz ou de dança contemporânea. O ballet clássico é considerado a base de tudo, portanto, em primeiro lugar, é obrigatório saber dominá-lo. “A partir daí, eles conseguem fazer seja o que for”, conta a professora.

O Processo ‘Sucesso’

Em primeiro lugar, fazem-se as inscrições. Basta aceder à página do Facebook da Ent’Artes e utilizar os contactos que são disponibilizados. A maior parte dos miúdos já vão desde muito pequenos para a escola. Começam por ter uma a duas aulas por semana, as chamadas Baby Class ou preparatória. “Depois, por volta dos oito anos, se nós virmos que o aluno tem qualquer coisa de especial, abordamos os pais e tentamos que passem mais horas na escola”, diz Diana.

Estes alunos trabalham de segunda a sábado e, por vezes, também ao domingo. Mal saem da escola, o destino deles é a sala de dança. Quando há oportunidade, trabalham individualmente com um professor, “mas a regra é sempre: quando estão despachados da escola, vêm para a Ent’Artes para trabalhar”, realça Diana. E, o que é mais normal nestes casos, é os pais pedirem às escolas para estes alunos terem um horário até às quatro ou cinco da tarde, de forma a que possam estar mais livres para se dedicarem à dança. “Este ano, tinha três alunas de competição na EB2,3 de Real. Mandei uma carta a explicar no que as alunas estavam a trabalhar e as datas das competições e pedi para ficarem numa turma da parte da manhã. E a escola acedeu ao pedido. Nós fazemos o que for preciso por cada aluno para lhe dar o melhor”, esclarece a professora de dança.

Com esta carga horária, conseguem ter aulas de ballet clássico três vezes por semana, aulas de Jazz, dança contemporânea, aulas de repertório, condicionamento físico e também pilates, graças ao acordo que a escola tem com a Fisiminho. Claro que estes horários são estabelecidos e desenhados de acordo com cada aluno. Os alunos de competição pagam uma média de 112€ mensais, com aulas de segunda a sábado, três a quatro horas por dia.

Mas, nem todos os alunos querem passar para a competição e veem a dança apenas como uma atividade extracurricular, ou seja, frequentam o curso livre, que tem um custo que ronda os 35€ por mês. Neste caso, têm duas aulas por semana, de 45 ou 60 minutos, de que fazem parte 95% dos alunos da escola. No entanto, a escola tem mensalidades a partir dos 20€, que se dirigem aos alunos entre os três e os quatro anos.

Os alunos da Ent’Artes prestam ainda provas à instituição inglesa anteriormente referida, a RAD. Todos os anos, e em duas épocas, a escola recebe uma examinadora da instituição e avalia os alunos no ballet clássico. Passado umas semanas é atribuída uma nota. Este ano, será a primeira vez em que também vão decorrer provas de Jazz, que serão prestadas também a uma escola inglesa: a International Dance Teachers Association (IDTA).

O que dizem as alunas?

Maria Borges com 14 anos, Diana Faria com 11 e Lara Machado com 13 são três alunas de competição e não trocam a dança por nada.

A Maria Borges começou a dançar muito cedo, com cerca de três anos. Cada vez se apaixonou mais pela dança e o percurso dela tem vindo sempre a melhorar. Mostra-se um pouco insegura em relação a seguir o caminho da dança no futuro, mas confessa que era algo que gostava muito. Conseguiu um terceiro lugar com uma coreografia de grupo, na Figueira da Foz, no Dance World Cup.

A Diana Faria confessa que a dança surgiu com uma simples brincadeira, dizia que queria ir para o ballet para brincar com as amigas. O ‘bichinho’ começou a crescer e, aos seis anos, foi para a Ent’Artes para estar mais perto de casa e para trabalhar mais. Entre vários outros prémios já ganhou um primeiro lugar, em Leiria, como solista de clássico com uma variação do bailado Graduation Ball.

Quando era mais pequena, Lara Machado via imenso bailado na televisão e quis experimentar. Começou noutra escola e, com dez anos, foi para a Ent’Artes. Aqui, começou a trabalhar mais e chegou às competições. Conquistou um primeiro lugar num solo de contemporâneo, no Leiria Dance Competition.

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