Revista Rua

2019-04-03T00:38:10+01:00 Cultura, Pintura

Entre as inquietações plástico-poéticas de Gil Maia

Partilhar Artigo:
Helena Mendes Pereira3 Abril, 2019
Entre as inquietações plástico-poéticas de Gil Maia
Partilhar Artigo:

Quero viver só comigo –
Bater à porta do meu coração
Que deve ser, talvez, alma e jazigo
Para acabar de compreender
O que eu aqui não devo dizer, nem digo.

[BOTO, António – Excerto de “Canção” in Poesia. Porto: Assírio & Alvim, 2018. Página 567.]

Acredito que quando a pintura, mesmo na sua abstração e/ou geometria de formas e jeitos, nos invade e memoriza de poetas, estamos perante a sublime essência da Arte. Gil Maia (n.1974) é pintor. Talvez um dos melhores da sua geração. A sua pintura é a metamorfose da inquietação feita cor e transparência. Subtil, de tempo lento (como pede o óleo), sobre a tela Gil Maia constrói e desconstrói o que a insensibilidade não descodifica. Por vezes soturno, mergulhado no atelier, repleto de dúvidas e sentindo a pressão do tempo que passa lá fora, a pincelada textura-se, cria contraste com os planos tons, mágicos azuis que tornam soporíferas as cores quentes a que a paleta por vezes também recorre. Tudo respira no equilíbrio da composição que deixa ler o branco que se acumulou ao suporte, tratado como espaço sagrado da contemplação do mundo. Abstração? Antes um processo de representação da perceção difusa do que vem de dentro para fora. Em Gil Maia, a pintura está toda dentro, no interior do artista, correspondendo a um exercício de busca de respostas, por um lado, e de resolução de desafios plásticos como subterfúgios do que se procura solucionar da vida.

Gil Maia licenciou-se em 2002 em Artes Plásticas – Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Contudo, já expunha, coletivamente, desde 1997 e, em 2001, tem lugar a sua primeira exposição individual. São dezenas as exposições em que participou em Portugal e em países como Espanha,  Itália,  China ou Brasil. Obras suas integram coleções públicas e privadas em Portugal e Espanha e, em termos de prémios e reconhecimentos de mérito, começando com o Prémio Benjamim Salgado, em 2001, e terminando no 1º Prémio de Pintura Abel Manta, em 2013, são cerca de duas dezenas, confirmando a sua coerência plástica e a aceitação e valorização generalizadas do seu trabalho. O seu currículo é impressionante e sintomático do impacto que a sua pintura gera num grupo alargado de privilegiados contempladores, mais ou menos eruditos no que à Arte Contemporânea diz respeito.

É nessa (quase) unanimidade que se evidencia a força, plástica e poética, da sua pintura. Conceitos simples, séries que partem, semanticamente, da construção e desconstrução da realidade, demorados óleos de incansáveis detalhes, transparências e sobreposições de formas, sem que nenhum se perca à vista, ausência de contornos e um jogo de variação lumínica que, mais do que uma ilusão de terceira dimensão, é de forte sugestão poética. A obra de Gil Maia fala por si. Não precisamos de o conhecer para o sabermos de cor através da sua pintura. Abstração? Representação expressiva da profusão interior e do mundo que se observa a correr? Talvez. Nada é conclusivo. Apenas a certeza de que estamos perante um Pintor e um Artista. Quando Gil Maia pinta defende-se e luta, como escreveu Pier Paolo Pasolini na sua poesia.

A isto me reduzi: quando
escrevo poesia é para me defender e lutar (…)

[PASOLINI, Pier Paolo – Excerto de “A realidade” in Poemas. Porto: Assírio &Alvim, 2005. Página 275.]

Com a inesgotável diferença de que Gil Maia não se reduz pintado… Antes: cresce, inscreve-se e torna melhor o nosso quotidiano. Daquele belo que é mesmo capaz de mudar o mundo. Poeticamente inquietante: o seu nome é pintura.

Sobre o autor
Chief Curator da zet gallery, em Braga.

Partilhar Artigo: