Revista Rua

2020-07-14T17:28:42+00:00 Opinião

Entre o certo e o incerto…

Crónica
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
14 Julho, 2020
Entre o certo e o incerto…

Entre o certo e o incerto, a generalidade das pessoas tende a escolher o primeiro. Porque é garantia, porque não surpreende. Mas isto vale para o plano teórico. Em bom rigor, a surpresa cria amiúde uma agradável sensação que se torna dona da razão. Recordo as feiras populares, onde as rifas que saltam para as mãos das pessoas – em troca de umas peças cunhadas, claro está – as habilitam a fazer uma escolha inquietante entre o prémio atribuído ou o “prémio surpresa”.

Esta selecção divide os mais conservadores e descrentes dos ambiciosos. Ninguém sabe que tipo de prémio poderá ser a “surpresa”, mas grande parte cogita um ganho e arrisca. Se o prémio passa por um simples boné, a troca é imediata. E se o felizardo sai contemplado com uma bicicleta, então a “surpresa” pode ser um carro, quiçá! Tantas vezes não imaginavam – nem eu! – que esta “surpresa” poderia ser um chocolate ou um peluche. A avidez desmesurada pelo ganho eternizada.

Em boa verdade e com os pés firmes em terra, ninguém deve ver numa escolha em plena feira popular uma oportunidade para, subitamente, enriquecer o seu acervo patrimonial. Pelo menos de forma significativa. E é por isso que toda a envolvência tem uma quota chistosa.

Porém, saídos do recinto feiral, constatamos que a vida é hodiernamente feita de escolhas entre o certo e o incerto. Há escolhas que dizem respeito ao indivíduo, com implicações apenas e só na sua esfera pessoal, e outras que têm consequências no seio da sociedade. Naquelas, à responsabilidade de quem escolhe, corresponde o limite das consequências. Nestas, a história é bem diferente.

Vislumbro um rasgo de ambição naqueles que buscam novas experiências, que fogem do conforto já envelhecido e mórbido. Porque as escolhas são apenas suas, e as consequências dos seus actos terão certamente um efeito exterior, mas não mais do que o resultante de um efeito borboleta. Do outro lado, temos as escolhas daqueles que foram escolhidos para escolher, que irão afectar directamente a generalidade das pessoas.

Quando chega o momento de os eleger, todos temos uma pequena influência no desenlace, pelo que acabamos todos também por ser responsáveis. Ouvimos, não raras vezes, que o contributo para a sociedade tem de partir de cada um, sendo que todos temos o dever de cumprir as regras e respeitar o próximo – passando o princípio doutrinal cristão – para facilitarmos o caminho. Em todas as vertentes. E mal de quem disso tem de ser lembrado!

Outrossim, temos a escolha entre o certo e o incerto como transversal a todas estas decisões. Numa feira popular, a escolha não terá uma grande influência na nossa vida. Mas noutros campos, trocarmos o que temos por garantido por algo que pode cercear as nossas escolhas futuras, é um exercício perturbador.

E é aqui que todos, na esteira do dever geral supra citado, devemos repensar e perceber por que razão é este assunto debatido. Entre o certo e o incerto, a generalidade das pessoas tende a escolher o primeiro. Mas quando a certeza desagua no cansaço, no bloqueio, na prática reiterada de favorecimentos, esquemas e solidificação de um sistema viciado, então o problema já se levanta.

Voltemos à feira popular. Temos uma montra de prémios composta por bicicletas, electrodomésticos e outros artigos úteis e valiosos. A rifa tem um valor simbólico que pode perfeitamente ser ultra compensado. Trocar? Não me parece. O prémio é bom e garantido. Mas essas montras existem apenas nos filmes. Por cá, só vejo montras compostas por cacarecos. A solução passa pela busca do prémio “surpresa”? Diria que não. Uma montra destas não pode ter grandes prémios, ainda que escondidos. Já nem tenho vontade de comprar a rifa! E é assim o desinteresse pela escolha eternizado.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

Partilhar Artigo: