Revista Rua

2018-11-20T11:43:19+00:00 Opinião

Era uma vez…

Uma crónica de Ana Miranda Barbosa
Redação
Redação
5 Setembro, 2018
Era uma vez…

Um menino chamado Rodrigo com sete anos de idade, vive com os seus pais e aos fins de semana tem sempre em sua casa uma pessoa que ele anseia durante a semana, o seu irmão Bernardo, com 14 anos de idade. Rodrigo é um menino carinhoso, sensível, atento, perspicaz, ativo e conversador embora adepto de traquinices. O seu irmão é um adolescente bastante reservado, dotado de uma sensibilidade extrema. Relata algumas histórias dos seus amigos de turma, identificando o seu melhor amigo como sendo alvo de chacota: “o meu amigo é gay, ninguém brinca com ele, só eu”. Acrescenta ainda: “não vou deixar de ser amigo dele e de gostar dele porque ele gosta de rapazes”. Rodrigo esbugalha os olhos e ouve atentamente as histórias do irmão. No final das histórias contadas deste amigo, o Bernardo é parabenizado pelas suas atitudes. Por outro lado, o padrinho de Rodrigo, com 31 anos de idade testemunha com frequência histórias de homens gays, assumindo sempre uma atitude de discriminação e preconceito. Rodrigo ouve atentamente, mas não se manifesta diretamente, a não ser quando vê na televisão dois homens a beijarem-se, ao qual reage: “que nojo mãe, dois homens a beijarem-se, o padrinho diz que tenho que beijar meninas bonitas”. Do lado materno, Rodrigo herdou dois tios e dois primos. O tio mais velho é pai do seu padrinho e quando estão juntos em jantares de família tem por hábito afirmar ao menino “tens que ter sempre muitas namoradas, uma só não chega, não podes ser mariquinhas”. Rodrigo numa das vezes questionou: “Mãe, o que é ser mariquinhas, como diz o tio?”. O tio que se segue por ordem genealógica, vive em Barcelona e tem uma relação homossexual. O tio de Rodrigo solicita constantemente à mãe do menino para o ir preparando para a possibilidade da chegada de um novo tio e não de uma tia. A mãe do Rodrigo questionava-se imensas vezes qual seria a melhor maneira de preparar o seu menino para a chegada de um novo tio. Noites e noites de conversa com o pai do Rodrigo e a resposta de ambos era sempre “não sei”. Até que a mãe de Rodrigo passa a frequentar uma formação em Igualdade de Género, onde o tema da dimensão familiar e social é colocado pela formadora para investigação. Pertencente a esta dimensão, salta aos olhos e ao coração o tema Homosexualidade e Homoparentalidade. A mãe pensou que seria a oportunidade para conseguir amenizar a angústia do seu irmão e a dita preparação do seu menino para a escolha do seu tio – que curiosamente, segundo o menino, é o seu preferido. “O tio Francisco é o meu preferido, mãe. Amo muito o meu tio, ele brinca comigo e no verão atiramo-nos de roupa os dois à piscina”.

Rodrigo com os olhos muito arregalados retoma: “O tio tem namorado ou namorada?”. A mãe respondeu, mais uma vez : “O tio tem namorado”, e acrescenta: “Tudo bem para ti, filho?”

Certo dia, num sábado à noite, Rodrigo e a sua mãe encontravam-se os dois em casa e decidiram jogar às damas, quando a mãe lhe dá a conhecer que, em setembro, iriam a Barcelona visitar o tio preferido e iriam a PortAventura, um parque de diversões. Rodrigo pula de alegria, salta para o colo da mãe e dá-lhe beijos por todo o rosto. A mãe dá a conhecer ao menino que nessa visita iriam ficar na casa nova do tio. Rodrigo retorquiu: “o tio mudou de casa, mãe? A casa do tio é grande? O tio vive sozinho? Quem vive com o tio? O tio vai connosco ao parque de diversões?” A Mãe pede ao menino para se acalmar e promete responder-lhe a uma pergunta de cada vez. “Sim, o tio mudou de casa; a casa do tio é um apartamento com um quarto; o tio não vive sozinho; o tio vive com o seu namorado e, sim, o tio vai connosco ao parque de diversões”.  Rodrigo com os olhos muito arregalados retoma: “O tio tem namorado ou namorada?”. A mãe respondeu, mais uma vez : “O tio tem namorado”, e acrescenta: “Tudo bem para ti, filho?”. O menino simplesmente responde: “Sim mãe, para mim tudo bem, amo muito o meu tio e não me importo que ele tenha um namorado. Com os outros homens importo-me porque não gosto deles, mas com o tio tudo bem”. O menino vivaz continua: “Como se chama o namorado do tio? O que é que ele vai ser meu? Eles vão ter filhos? Se tiverem filhos o que é que eles são meus?”. A mãe respondeu novamente a cada uma das questões do petiz, acabando por abraçar o seu pequeno grande menino e disse-lhe: “Obrigada!”.

Depois de se abraçarem, a mãe do Rodrigo estava a chorar. O menino preocupado questiona: “Mãe, por que é estas a chorar?” A mãe respondeu: “Estou a chorar de alegria!”. Por fim, o menino testemunha: “Não sabia que as pessoas choravam de alegria”!

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