Revista Rua

2019-01-03T10:33:01+00:00 Opinião

Esmiuçando as greves

Humor
João Lobo Monteiro
João Lobo Monteiro
3 Janeiro, 2019
Esmiuçando as greves

Quando foram regulamentadas as uniões de freguesias, surgiu-me uma ideia que, como praticamente todas as que eu tenho, seria vencedora, até por se ligar ao futebol: criar uma localidade chamada Facto e, depois, constituir o clube União de Facto. Eu sei que não devia começar o texto assim de rompante, mas isto vai fazer sentido, eventualmente.

Acontece que, com a vaga de greves que houve em dezembro, surgiu-me outra ideia parecida: chamar Lisa da Conceição a uma possível futura filha que eu venha a ter, com o intuito de lhe dizer, quando ela estivesse a fazer asneiras, “Para, Lisa São!”. Tipo, paralisação, greve… é isso. Mas não vai acontecer, muito provavelmente. Pelo menos a parte de se chamar Lisa São.

Pronto, vou então dissecar as greves que aconteceram no fim do ano. Não uma a uma, porque, até eu escrever este texto, tinha havido greves de estivadores, guardas prisionais, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica, juízes, funcionários judiciais, bombeiros, funcionários da CP e, claro, dos meus queridos professores, que tenho aqui dois em casa. Vou dissecar no geral, mas tocando nos pontos essenciais, como é meu apanágio. Acho que nunca tinha usado a palavra apanágio nas minhas crónicas. Mais um objetivo alcançado.

Ainda nos gritos de ordem, uma tendência mais recente que tenho vindo a verificar é a transposição de cânticos de claques para as manifestações. Por exemplo, ouvi estivadores a cantarem “o estivador voltou, o estivador voltou”. Mas voltou de onde?

Começo pelo facto de terem sido precisamente no fim do ano. Ainda por cima, num ano em que o 24, 25 e 31 de dezembro e o 1 de janeiro (já em 2019) calham em segundas e terças-feiras. Assim, engatam-se as greves com os dois fins-de-semana alargados e já não se dá a desculpa “ah, não sei se vai ser possível tratarmos disso, porque, sabe como é, metem-se os feriados e tal”.

As greves têm sempre duas formas de manifestação típicas: os cartazes e os gritos de ordem, que dizem sempre o mesmo. Dá impressão é que as pessoas só cantam quando as câmeras de TV estão ligadas, isto a julgar pela descoordenação que os manifestantes apresentam num simples “[inserir profissão], unidos, jamais serão vencidos” ou “[inserir nome de ministro/a], escuta, os [inserir profissão] estão em luta”. Pior ainda é quando tentam meter palavras de ordem em métricas impossíveis. Isso, só o Vasco Palmeirim e o Tiago Bettencourt é que conseguem fazer com sucesso, não se metam por caminhos apertados.

Ainda nos gritos de ordem, uma tendência mais recente que tenho vindo a verificar é a transposição de cânticos de claques para as manifestações. Por exemplo, ouvi estivadores a cantarem “o estivador voltou, o estivador voltou”. Mas voltou de onde? Não sei. Os campeões, pelo menos alguns, sei de onde voltam; os estivadores, em princípio, voltam dos portos, mas eles lá saberão se faz sentido cantarem isso. Até porque não me meto com pessoas com aquele cabedal.

Finalizando este capítulo dos cânticos, tenho de destacar o que os técnicos de diagnóstico e terapêutica inventaram para a ministra da Saúde: “Marta Temido, queremos o prometido. Carreira, salário, há muito está esquecido”. Mais do que a falta de concordância na segunda frase, destaco a sorte de a ministra não se chamar Marta Ramalho, senão corria o risco de a mandarem sei lá, para o trabalho.

Em jeito de conclusão, deixo uma sugestão para os únicos grevistas que não saíram à rua, que foram os juízes. Pensem em passar a protestar ostentando os vossos belos trajes e, melhor ainda, colocando aquelas cabeleiras brancas e encaracoladas, tipo Luís XIV. Apoio muito isso!

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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