Revista Rua

2019-05-17T17:34:10+00:00 Opinião

Espelho meu, espelho meu, há alguém melhor do que eu?

Sociedade
Marta Moreira
Marta Moreira
17 Maio, 2019
Espelho meu, espelho meu, há alguém melhor do que eu?

Eu sofro de um mal incontrolável, que causa graves danos à minha sanidade mental. Trata-se duma opressiva dificuldade em reconhecer a autoridade. Outros por aí poderão eventualmente sofrer do mesmo mal: a vocês, tal como a mim, não conseguiram implantar com eficácia aquela obediência cega às hierarquias, ou aquela subserviência tão tipicamente portuguesa. Creio que talvez haja um bug qualquer de programação que faça que de quantos em quantos cidadãos, apareçam uns a quem por lapso lhes instalaram um espírito contestatário ou mesmo bélico, se preferirem. Aliado a uma capacidade de raciocínio e de argumentação minimamente funcionais, este defeito de fabrico pode-se revelar nocivo para a convivência salutar em sociedade. É o que a mim me acontece de cada vez que termina o fim-de-semana.

A vida desde cedo nos prepara para lidar com figuras de autoridade que despertam repúdio em vez de respeito. Quantos de nós têm histórias de infância e adolescência em que num trabalho de grupo alguém assume o crédito por ter sido o líder, a força que o impulsionou, e bem vistas as coisas, foi tudo menos isso? Somos desde pequenos treinados para dar mais valor ao que se diz, por oposição ao que se faz. Se recuarmos até esses anos, facilmente nos daremos conta de um leitmotiv comum: sempre que se forma uma equipa de trabalho, nessa equipa há recorrentemente a figura de quem tudo faz para concretizar os objetivos propostos e a figura de quem pouco fazendo (até muitas vezes, sejamos francos, estorvando), acaba por reclamar para si os créditos.

Este comportamento acaba por ser uma constante ao longo de toda a vida académica, embora por vezes sujeito a pequenas alterações de casting: quem foi outrora o oprimido, facilmente se consegue tornar o opressor. Onde o conseguimos observar com mais clareza é na entrada na vida universitária: aqui, todos os iniciantes são doutrinados para a subserviência através de um mecanismo de integração fabuloso a que vulgarmente se chama praxe. E é através da praxe que conseguimos observar de que forma este reformular de condições sociais pode facilmente atingir cada um: enquanto veste umas orelhas de burro e se rebola na lama, um caloiro aguenta estoicamente o “sacrifício”, reafirmando a certeza de que um dia poderá almejar a uma posição no ranking que lhe permita ser ele a ditar as regras. Ou num sentido mais lato, o oprimido aguenta a opressão agarrando-se à vontade de um dia se tornar o opressor.

Irrita-me visceralmente que não haja mais pessoas com defeito de fabrico, capazes de inquirir e confrontar estes seres (tão) superiores, quando visivelmente estes não sabem a quantas andam e prejudicam assim as organizações que possuem/dirigem.

Quando finalmente chegamos à idade adulta sem “porquês” e entramos no mercado de trabalho, todos estes comportamentos adquiridos se revestem duma suprema utilidade: quem é o grande empresário que rejeita mão de obra barata, desesperada para ter uma oportunidade de mostrar o seu valor, que não se queixa perante nada que lhe seja infligido e ainda se mostra cegamente obediente, mesmo que as ordens sejam para prejudicar deliberadamente alguém? Infelizmente, conheço poucos. E é precisamente esta a pergunta que hoje tanto me incomoda: porque nos continuamos a subjugar a um poder(zinho) que por norma não nos merece respeito? Continuamos, dia após dia, a deixar que pessoas com menos competência nos comandem as ações, enquanto lhes legitimamos todas as atitudes por (nos) serem superiores. Quantos de nós têm líderes de equipa, patrões no fundo, que nem sequer conhecem o seu próprio negócio? Que se apoiam no trabalho árduo e abnegado de “colaboradores” a quem tratam com desprezo, mas sem os quais não são capazes de o orientar? Quantos de nós temos de lidar diariamente com pessoas visivelmente menos capazes e menos dotadas, mas que se pensam meritórias de um tratamento especial por todos os demais?

Assim, irrita-me visceralmente que não haja mais pessoas com defeito de fabrico, capazes de inquirir e confrontar estes seres (tão) superiores, quando visivelmente estes não sabem a quantas andam e prejudicam assim as organizações que possuem/dirigem. Atenção, não convém criar ilusões: o cenário em que nos levantamos numa reunião denunciando o esquema por detrás das palavras bonitas que acabam de ser ditas, só acaba bem em Hollywood, e mesmo assim, só no final dos filmes. Na vida real, quem o faz está genuinamente a entregar o corpo às balas, sacrificando a sua própria reputação (e muitas vezes, a posição que ocupa na organização), em prol do bem comum, numas vezes, ou tentando travar e reverter a extinção dos valores que nos fazem humanos, noutras. Porque havia alguém de o fazer então, o que é que se lucra com isso? Creio ser esta a pergunta essencial, a que trava pessoas tão capazes e inteligentes. A resposta, embora provavelmente não seja satisfatória e até seja simplista, não deixa de ser evidente: porque se ninguém o fizer, continuaremos a perpetuar o ciclo da injustiça, do medo e da opressão.

Sobre a autora:
Professora do Ensino Artístico Especializado e sindicalista de feitio. É digamos que uma espécie de artista, que toca, canta e escreve (mas que ainda não dança). Autora do blog Pimenta na Língua, é uma esganiçada de pavio curto, activista de causas perdidas. Pessimista por defeito e inconformada por vocação.

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