Revista Rua

2019-05-17T17:24:30+00:00 Opinião

Este “New Normal” não é para mim

Música
José Manuel Gomes
José Manuel Gomes
17 Maio, 2019
Este “New Normal” não é para mim

Na música, tal como na moda e noutros tipo de expressão artística, há uma tendência, uma onda que leva a música a ser feita e preparada para cumprir com o trendy. É difícil explicar de onde vem ou quem decide o que é a tendência na música, mas existe sempre algo/alguém que dita o que é cool ouvir.

Nada de anormal, é assim que tudo funciona: a máquina tem de ser alimentada e puxar a que as pessoas tenham interesse em consumir. Sobretudo nos tempos que correm é complicado manter o interesse das pessoas durante longos períodos na mesma coisa. É preciso inovar, mostrar o “novo”, trazer de volta coisas que já não se usam há umas décadas, reinventar, reciclar conceitos ou simplesmente regressar com géneros de música que passam agora a ser consumidos por outros tipos de público.

Aqui toca-se num ponto fulcral de como compreender a influência que as tendências – de quem as cria – pode ditar em nós. O lugar ou o momento em que é mais fácil “plantar” a ideia nas nossas cabeças e no que consumirmos é, sem dúvida, nos festivais de música. Estes certames, como sabem, são cada vez mais filtrados e específicos para os mais variados públicos e nos chamados festivais de verão, se olharmos numa escala macro, vemos que grande parte deles é vocacionado para o público que gosta de música “alternativa”. Para mim é cada vez mais difícil entender o que é gostar de música “alternativa”. Talvez seja tudo o que não passa na Comercial 60 vezes por hora. Ainda assim, se olharmos bem para o panorama é fácil de perceber que o público que consome estes festivais é realmente quem consome música por gosto; ou seja, níveis de gosto à parte, é quem vai à procura do que se ouve e não quem está num rádio a receber o que lhe dão, de forma passiva.

Há outros festivais que ditam a tendência além do Coachella e, olhando para uma realidade mais próxima, o NOS Primavera Sound é o maior exemplo disso mesmo. (…) O mote para este ano é o New Normal. Claramente um statement de como querem ser pioneiros a ditar o que é “normal” estar num festival de música alternativa. Até aqui tudo muito bem, para mim já o eram. Porém, quando se mete um nome como J Balvin como headliner ou Rosalia a coisa descamba.

Ora, uma das tendências que se notava há uns anos e que agora já é quase “normal” é a entrada do hip-hop nos festivais indie. Diria que o festival de música que numa escala global melhor consegue ditar a tendência é o Coachella. Foram os primeiros a misturar hip-hop com o indie e a eletrónica e, com isso, o hip-hop tornou-se indie. Uma nova comunidade passou a incluir este género musical no que é recorrente ouvir no dia a dia e a própria indústria do hip-hop apercebeu-se disso e, ao fazê-lo, adaptou-se e sofreu um processo de metamorfose. Desta metamorfose apareceu toda esta nova vaga ligada ao hip-hop de nomes como Kendrick Lamar, Tyler, the Creator, Vince Staples, entre outros. Por último, estes acabaram por influenciar também os próprios artistas mais ligados ao (rock) indie. A tendência, ao ser ditada, agita e baralha o jogo todo. A indústria transforma-se e criam-se novos públicos e isso impede que a música se torne numa forma de arte com os dias contados.

Há outros festivais que ditam a tendência além do Coachella e, olhando para uma realidade mais próxima, o NOS Primavera Sound é o maior exemplo disso mesmo. Conhecido por se virar para o público alternativo, este festival que está em Portugal desde 2012, é um harém da música para quem procura ouvir coisas novas, fora da caixa quadrada da rádio, ou nomes consagrados dentro do cânone do indie. Também aqui o hip-hop foi entrando nos line-ups até se tornar “normal”. Até aqui tudo muito bem… só que neste ano de 2019 aconteceu o que pensei que nunca fosse ser possível: o NOS Primavera Sound, com o intuito de criar a tendência – ou antes de a acompanhar – conseguiu ter um line-up francamente fraco e mais do que isso, na minha modesta opinião – sobranceiro. Já vos explico…

O mote para este ano é o New Normal. Claramente um statement de como querem ser pioneiros a ditar o que é “normal” estar num festival de música alternativa. Até aqui tudo muito bem, para mim já o eram. Porém, quando se mete um nome como J Balvin como headliner ou Rosalia a coisa descamba; e não é pouco. Vejamos, J Balvin um dos cabeças-de-cartaz do MEO Sudoeste do ano passado vai, no espaço dum ano, ter o mesmo destaque num dos festivais de eleição de música alternativa da Europa? Se me dissessem há um ano que ele ia, sequer, entrar, eu nunca acreditaria, quanto mais ser um dos nomes gordos dos cartazes… não consigo entender. Quer dizer, consigo, mas nunca pensei que caíssem nessa: na América esse estilo de música chamado reggaeton passou a ser consumido como se não houvesse amanhã ao ponto de furar as camadas que separam o mainstream do alternativo. Os poucos artistas de origem latina que ainda não tinham aderido a esse género da “gasolina” passaram esse darkside e o que aconteceu foi um escalar do estilo mais ouvido numa Lagars ao domingo à tarde para os mais conceituados festivais de música do mundo. Uma coisa vos garanto: este não é, nem nunca será, o meu New Normal.

Eu respeito gostos e quem goste disto e doutras coisas mais pecaminosas para os meus ouvidos, mas cada macaco no seu galho… certo?

Eu respeito gostos e quem goste disto e doutras coisas mais pecaminosas para os meus ouvidos, mas cada macaco no seu galho… certo? Bem, outra coisa que me causou e ainda causa alguma comichão no céu da boca é o endeusamento da Rosalia, cantora super da moda de Espanha, que a Pitchfork resolveu colocar num pedestal e como tal, toda a gente passou a dizer que é a melhor coisa que apareceu nos últimos anos porque canta muito bem e mistura o Flamenco com outras coisas e tal… Não ponho dúvidas que cante bem e que até seja inovadora na abordagem que faz do Flamenco, mas está a um danoninho de também fazer parte das playlist da Lagars num qualquer domingo à tarde; nada contra, só não é para mim.

Coincidência ou não, esta nova joia da música espanhola lançou há semanas um single com J Balvin e que tem tudo o que há de menos bom na vida. Ainda assim, a Pitchfork, essa página que valida o que é cool e que não é cool ouvir no seio da malta do alternativo, considerou o tema fantástico e tal… não compreendo, talvez nem queira compreender. Talvez tivesse que nascer de novo.

O New Normal, definitivamente, não é para mim.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

Partilhar Artigo: