Revista Rua

2021-04-01T14:24:36+01:00 Cultura, Outras Artes

Eva Lé, a cerâmica como “arte maior”

Com um atelier em Lisboa, Eva Lé é uma artista que se inspira nos detalhes da cerâmica chinesa e cria peças através da técnica da roda de oleiro.
Fotografias ©D.R.
Redação29 Março, 2021
Eva Lé, a cerâmica como “arte maior”
Com um atelier em Lisboa, Eva Lé é uma artista que se inspira nos detalhes da cerâmica chinesa e cria peças através da técnica da roda de oleiro.

Quando olhamos para o trabalho de Eva Lé, vemos que os elementos naturalistas e florais se expressam como um estímulo para que mergulhemos na descoberta de um talento que nos dá uma nova versão de uma tradição tão ancestral: a cerâmica. Com um atelier em Lisboa, Eva Lé é uma artista que se inspira nos detalhes da cerâmica chinesa e cria peças através da técnica da roda de oleiro. Nesta entrevista, partimos à descoberta do trabalho de Eva Lé.

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer melhor a Eva. Naturalidade, formação, hobbies…?

Nasci em Lisboa, sou formada pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e nos meus tempos livres adoro ver cinema, ler e estar com os meus amigos.

A Eva começou por estudar Design de Comunicação na Faculdade de Belas-Artes. No entanto, esse não foi um percurso que a convenceu, correto? O que a fez mudar de ideias?

Procurei candidatar-me a Design de Comunicação por influência do percurso profissional que o meu pai fez nessa área, apoiei-me no que vi desde pequena e abracei esse novo desafio. O primeiro ano correu muito bem, era um ano muito experimental em que para além do design permitiu-me explorar outros campos, como por exemplo a ilustração, pintura… No segundo ano do curso, esse lado experimental foi substituído por cadeiras meramente académicas. O que para amantes de design era perfeito. Foi nesse momento, encurralada na teoria de design, que senti a minha identidade a ir por água abaixo, não havia nada onde me pudesse expressar e me dar gosto estar na faculdade. Felizmente, coincidiu com uma mudança curricular na faculdade em que os alunos poderiam escolher disciplinas de outras áreas para completar o curso. Foi a minha salvação, literalmente. Decidi atirar-me fora de pé. Mais fora de pé do que passar de um teclado e de um ecrã, para barro e algo tridimensional seria o desafio ideal para me pôr à prova e desviar-me do estudo e vida de designer. Sentia-me limitada pelas normas do design, o barro salvou-me e veio-me dar forma de novo. Ao contrário da máxima “forma/função”, cada vez mais eu me revia na máxima forma/inspiração.

Como surge esta paixão pelas cerâmicas? O que mais a cativa nesta área de produção em barro?

Não foi uma paixão à primeira vista, mas começou a surgir assim que comecei a perceber o que tinha em mãos. A paixão começou após os primeiros meses com o toque e conhecimento com este material puro, uma combinação perfeita dos quatro elementos do universo: Terra, Ar, Fogo e Água. Todos eles são usados no processo de cerâmica. Só por ter este privilégio nas mãos e poder dar-lhe a forma que a minha sensibilidade, inspiração e reflexo do que me rodeia é a terapia diária e a visão de uma vida cheia de amor incondicional entre mim e o meu barro.

A olaria é, para si, uma forma de expressão?

A olaria é uma das técnicas mais utilizadas na arte cerâmica, apesar de não ter começado pelo uso da roda de oleiro. Assim que aprendi a dominar essa técnica tornou-se numa ferramenta essencial para eu desenvolver muitas das peças que hoje apresento.

A Eva rumou a Paris, onde estagiou num atelier de cerâmica. Pode falar-nos dessa experiência? O que aprendeu nessa fase?

Paris representou para mim a certeza do caminho que queria seguir, por duas razões principais: pela cidade, onde os artistas são verdadeiramente valorizados e respeitados, e pela experiência de ter estado a viver num estúdio que partilhava com um fotógrafo francês, onde todo aquele espaço e ambiente respiravam arte, nomeadamente, a expressão plástica que estava presente por todo o lado.

Durante o período em que estive em Paris, enquanto estudava design e escultura na École Nacionale Supérieure des Arts Décoratifs, estava ao mesmo tempo a estagiar num atelier de cerâmica. Essa experiência trouxe-me ensinamentos que trago muito para os dias de hoje na gestão do atelier que tenho em Lisboa. Fazia um pouco de tudo desde as preparações de vidrados à reciclagem e preparação de barro, e muitas vezes ajudava a ceramista responsável do atelier a adiantar encomendas da autoria dela. Em troca de tudo isto podia usar o atelier para fazer as minhas próprias peças. Era o acordo perfeito para mim. Fui uma autêntica “esponja”, pois absorvi tudo! Paris ficou para sempre comigo e irei, certamente, voltar ao lugar onde as certezas apareceram-me à frente.

Paris, por si só, é um poço de inspiração a seu ver?

Não é novidade nenhuma que, se há cidade que inspira qualquer pessoa que queira seguir uma profissão artística, é Paris! Paris é a cidade perfeita. Pela sua história, cultura, pelos espaços e museus dedicados à arte, como já referi anteriormente, pelo apoio aos artistas. Indo de um museu avassalador como Louvre, passando pelos artistas em Monmarte e pelas margens do Sena, onde se respira arte e cultura. No que diz respeito à cerâmica, fiquei surpreendida com a qualidade dos ateliers de pequena ou maior dimensão dedicados a esta área.

Olhando para as suas peças, percebemos facilmente que existe uma visão escultural naturalista. A natureza é algo que a inspira?

Não há nada mais puro e belo que as formas da natureza. A cerâmica permite-me representar aquilo em que me revejo, ou seja, permite-me desenvolver peças, com formas inspiradas na natureza com a minha influência nelas próprias.

De que forma nos descreveria o seu trabalho e as suas coleções nesta fase?

Neste momento, a minha mais recente coleção continua a beber inspiração nos elementos naturais, na cultura oriental com a junção da técnica da roda de oleiro com a técnica escultural. Esta coleção é essencialmente marcada por peças de loiça e decoração.

A Eva tem o seu atelier sediado em Lisboa, nomeadamente no LX Factory, correto? É esse o seu refúgio? E acaba por desenvolver alguns workshops nesse atelier, certo? Pode falar-nos um pouco desta dinâmica de workshops?  

Assim que comecei a trabalhar em atelier comecei a desenvolver pequenos workshops de grupo destinados a pessoas curiosas em relação à cerâmica.

Todos os meses são lançados workshops de três horas onde cada pessoa faz uma pequena peça após uma introdução básica à técnica destinada, mediante o workshop escolhido. Tem uma componente teórica onde explicamos muito brevemente conceitos básicos da cerâmica, assim como uma pequena demonstração. Após a introdução, mãos à obra! Cada aluno é auxiliado durante o processo de construção da peça. Todos os workshops incluem materiais e cozeduras. Para quem quiser aprofundar ainda mais o seu conhecimento em cerâmica, disponibilizo também workshops de cinco dias para um maior desenvolvimento de peças e aumento de conhecimento, assim como aulas privadas e personalizadas. Todas as aulas e informações estão disponíveis no meu site assim como no instagram.

Em termos futuros, que anseios tem a Eva? O que gostaria de explorar mais nas suas coleções? Ou que sonhos tem em termos artísticos?

Quero fazer conjuntos de loiça conceptual para restaurante com assinatura. A médio prazo quero desenvolver a minha atividade para outras áreas, restaurantes por exemplo e continuar com a possibilidade de fazer workshops, pois adoro ensinar esta arte. Quero ajudar a elevar a cerâmica a uma arte “maior” pois acredito que, ao contrário de um quadro a óleo, que por muito belo que possa ser só se pode olhar e não se deve tocar, numa peca de cerâmica temos o privilégio de pegar, tocar e sentir. A longo prazo quero continuar a expandir os meus conhecimentos, produzir peças de cerâmica cada vez mais surpreendentes e fazer do meu atelier um espaço para partilha de conhecimento com outros ceramistas. Apesar de adorar Lisboa, acredito que a minha vida vai passar por cidades como Paris e países como o Japão.

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