Revista Rua

2020-04-08T19:03:28+00:00 Cultura, Fotografia

EverydayCovid: o retrato da pandemia pelo olhar dos fotógrafos portugueses

EverydayCovid reuniu em dois dias mais de 1400 seguidores. Hoje tem mais de 17 mil.
©Rui Oliveira
Nuno Sampaio
Nuno Sampaio8 Abril, 2020
EverydayCovid: o retrato da pandemia pelo olhar dos fotógrafos portugueses
EverydayCovid reuniu em dois dias mais de 1400 seguidores. Hoje tem mais de 17 mil.

EverydayCovid é uma página do Instagram criada por um conjunto de fotógrafos e fotojornalistas portugueses no contexto da pandemia que vivemos; é a visão deles entre o mundo (o deles) e o de todos nós e, mais do que imagens, são documentos que eternizarão um novo algoritmo humano, um novo presente-futuro. A RUA esteve à conversa com alguns dos responsáveis do projeto para perceber melhor o dia a dia retratado nesta página.

O estado de emergência em que se encontra o mundo é um dos maiores testes à humanidade. Desde um grau global, como a economia mundial, até a algo mais comum, como o dia a dia de cada um de nós. A vossa página é um diário visual do dia a dia dos portugueses durante este estado. Foi criada com que intuito? Qual é a história por detrás desta página?

Gonçalo Borges Dias – O EverydayCovid, na sua génese, não é diretamente um diário de quarentena dos portugueses, não se caracteriza por um retrato da sociedade em momentos de isolamento social dos mesmos. Nasce, sim, com o propósito de mostrar aos portugueses como é que um fotojornalista, um fotógrafo documental e todos os outros profissionais na área da fotografia registam e documentam o seu confinamento, a sua rotina, método e prática diária, face ao estado de emergência imposto pelo Estado Português. O conteúdo, para além da elevada qualidade e diversidade de olhares, é também um conjunto de documentos com diversas valências, objetividade e informação. Fazemos bandeira do material que queremos que entre pela casa de todos, tendo homogeneidade no grau de exigência e heterogeneidade nas linguagens, leituras e abordagem fotográfica. Não há muito a dizer sobre a criação da página em si, neste caso correu bem. Foi uma abordagem muito normal ao tema, discuti a ideia com o meu colega Miguel A. Lopes, ele foi conivente com a dinâmica do conceito, associando-se um “grupo” já existente no WhatsApp, que se tornou a nossa redação virtual, onde tudo acontece no processo de entrada de fotografias. Todo esse trabalho começou a ser canalizado para a página de Instagram e, com uma série de alterações e processos de curadoria e edição, chegamos onde estamos hoje, firmes, motivados e orgulhosos.

A sensibilização é algo bastante importante e que deverá provir dos mais diversos meios. Como ferramenta vocês têm a imagem. Acham que conseguem chegar às pessoas de forma a gerar uma correção de comportamentos? Este é também um dos objetivos?

Miguel A. Lopes  – Não temos essa missão, até porque não temos o controlo sobre como as pessoas podem ou não interpretar uma fotografia. Sabíamos, quando criámos o EverydayCovid, que imagens fortíssimas iriam aparecer, acompanhamos as notícias e sabíamos o que vinha aí e felizmente que até agora não tem tido o impacto devastador de Itália ou Espanha. Temos fotojornalistas fechados em casa, mas muitos estão “nas linhas da frente” desta pandemia a registar os mais variados acontecimentos e obviamente imagens de pessoas nas camas de hospital a lutar pela vida, ou imagens de funerais de pessoas que morreram de Covid-19, são fotografias muito fortes e obviamente têm despertado nas pessoas um sentimento de alerta, de que isto é mesmo a sério e pode matar. Outros reveem-se na clausura que algumas fotografias transmitem que todos nós, de alguma maneira, estamos a ser afetados.

Para além da informação e sensibilização, as imagens, umas mais que outras, revelam sub-temas pertinentes como, por exemplo, a união quase “intimista” entre as pessoas. A imagem faz a força?

 Ângelo Lucas – A imagem pode, de facto, fazer a força, no sentido em que muda ou influencia mentalidades, atitudes e comportamentos. Ao ver a vida dos outros como eu, por vezes de forma próxima e até íntima, como os recentes testemunhos visuais do dia a dia em reclusão, de tantos de nós, sinto-me menos só, percebo que os problemas, as alegrias, as soluções, são afinal partilhadas por muitos e isso em si cria um sentimento de união, de pertença a algo maior, ajudando-me eventualmente a ultrapassar um momento menos bom. E isso é força.

Como fotojornalistas devem estar habituados a sair, a revelar as ruas cheias, os acontecimentos, as multidões. Como é sair para fotografar e encontrar as ruas desertas? E, para os que não podem mesmo sair, como é fotografar de dentro para fora?

 Rui Miguel Pedrosa – É estranho e, ao mesmo tempo, desafiante. Creio que tentamos ver pelo lado insólito da ausência do elemento humano. Essas ruas desertas e locais que geralmente tem pessoas também são, por si só, um documento fotográfico alusivo ao que estamos a passar.

Por outro lado, os que estão em casa, pelas diversas razões, acabam por ir fazendo o registo fotográfico da família desta pandemia. Tem sido muito interessante ver como cada um aborda o assunto à sua maneira. Passa a ser a nossa visão sobre este acontecimento. Por vezes, o ato de fotografar num ambiente ou algo que estamos habituados a ver e lidar faz com que procuremos fazer algo diferente. Para muitos de nós este projeto está a ser um desafio que, ao mesmo tempo, nos dá ainda mais motivos para fotografar. De certa forma também nos ajuda a passar o tempo. Temos dito que é terapêutico. Temos a certeza que, para nós, tem sido.

A força das fotografias já sobrevive, por si só, no objetivo do tema, mas não deixa de existir uma coerência estética na seleção. A escolha das fotos acompanha o desenvolvimento dos dias?

 Rui Soares – Isto varia muito. Se, por acaso, no dia houver uma hard news e o fotógrafo quiser partilhar connosco, se calhar escolhemos. No entanto, o princípio não é esse, é mostrar o dia a dia dos fotojornalistas portugueses que quiseram aderir ao projeto. Acho que o que há a referir sobre a escolha das fotos é que o princípio é sempre o mesmo entre os sete editores: a qualidade fotográfica.

Quando tudo terminar, estas fotos podem percorrer o país numa exposição à qual todos poderemos ir, pessoalmente, sem máscaras, sem luvas? 

Gonçalo Delgado – Gostamos de acreditar que sim e faremos todos os possíveis para que isso aconteça. O projeto que criámos não é mais que um documento histórico de uma pandemia, que deverá ser analisado no futuro. Uma exposição é um bom ponto de partida para que se faça história e para que deixemos que a linguagem dos fotojornalistas e fotógrafos portugueses consiga sumarizar um pouco daquilo que foi vivido. Para além dessa exposição acreditamos que possa vir a ser editado um livro que perdure para as gerações vindouras. No fundo, temos sido o olhar das pessoas que têm cumprido o conselho de ficar em casa, para que os seus dias, através da nossa visão, possam ser um pouco mais leves.

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