Revista Rua

2021-02-15T11:23:25+00:00 Opinião

Excerto de algo assim

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
15 Fevereiro, 2021
Excerto de algo assim

Mais ninguém ouve o mar hoje, apenas tu, apenas tu o escutas, vaga após vaga após vaga e o ruído preenche-te os olhos de lágrimas que desconheces por serem antigas, mas são tuas, mais ninguém as ouve também, se não fechares os olhos com força irás perdê-las numa espiral de paraísos perdidos, mais ninguém ouve o mar hoje a não ser tu, o mar fecha-se em ondas de janeiro em que a água se dilui no céu ou o céu dissolve-se na última onda, lá no fundo onde só existes tu em criança, de olhos fechados também à espera da onda última ou da voz que é onda também e essa, Bernardo, essa não chora, chama-te baixinho com as andorinhas e os pardais e os sinos do Marquês a acenarem que sim com a cabeça do campanário, pensa sempre que se outras vozes te chamarem para dentro do que estranhas, são apenas as partidas que a carência nos prega, se acordares de um sonho e não te encontrares na casa escura faz força com as pálpebras e não acordes, o sonho só acaba para aqueles que dele acordam, não custa nada, não há medo, medo de quê, conheces o sonho como conheces a casa escura, é a tua vida esticada em pliés de bailarina, com pés em bico a sapatear lembranças pelo estrado fora com os olhos postos para longe, talvez para o parapeito e no fundo, no fundo mais fundo que alcanças, a caravela enorme que recorta o crepúsculo numa imensidão angulosa, aí o anel negro não te estreita a vista, aí não imaginas que a tua mãe chore num cantinho da cama, aí não imaginas que o teu pai observe com indiferença, encostado ao armário a titubear disparates, ou seja, a soluçar com as mãos eu não te sei ajudar eu não te sei ajudar eu não te sei ajudar, os vivos não te mordem, Bernardo, o que te morde é o passado mais diluído que te crava os dentes em passos moles de caracol, e à noite, de facto, penso que se repara mais nos mistérios da vida, quem somos, de onde vimos, porque é que pensamos, do nada, em memórias antigas e ficamos felizes e essa felicidade se mostra em lágrimas? não é tudo uma contradição lindíssima, por vezes?

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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