Revista Rua

2019-11-29T18:21:49+00:00 Cultura, Música, Personalidades

Expensive Soul: “Este concerto é a celebração destes 20 anos”

“Valorizem o que é português, porque se não valorizarmos aquilo que é português a cultura perde-se e um país sem cultura vale zero”
Fotografia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto20 Novembro, 2019
Expensive Soul: “Este concerto é a celebração destes 20 anos”
“Valorizem o que é português, porque se não valorizarmos aquilo que é português a cultura perde-se e um país sem cultura vale zero”

Quando, em 1999, cantavam “Leça da Palmeira, terra mais bonita de Portugal”, mal saberiam que esses versos se tornariam num hino da cultura portuguesa. Depois de 20 anos, os Expensive Soul presenteiam-nos com um repertório de temas – em português – que nos diz que O Amor É Mágico e que Amar é Que é Preciso. Lançaram-se nos discos em 2004, com um álbum intitulado por B.I., o qual viria a ser editado de forma independente, depois de ser recusado por várias editoras. O mesmo aconteceu com os seguintes projetos discográficos, até chegarmos ao harmonioso Arte das Musas, o quinto disco da banda, que chega com dez singles especiais.

Sentámo-nos à conversa com Demo e New Max, dias antes do maior concerto da carreira dos Expensive Soul, que sobem ao grande palco do Altice Arena, em Lisboa, já no próximo dia 23 de novembro, para um concerto único. Falámos de passado e de presente, numa altura de afirmação e celebração do melhor da música portuguesa.

São 20 anos de música portuguesa. Como é que descrevem estas duas décadas que passaram?

(risos) New Max: Passaram muito rápido, parece que começou ontem. Mas estamos melhores que nunca, mais felizes com o que estamos a fazer, com a nossa música, com as pessoas que gostam de nos ouvir e temos chegado cada vez a mais gente. Este concerto é a celebração destes 20 anos, dos cinco discos e é um culminar de um ano inteiro de preparação para este concerto. Estamos ansiosos que isso aconteça.

Ao longo do vosso repertório, ouvimos uma diversidade de estilos musicais, alguns temas mais de reggie, outros que vão mais ao rock… há uma fusão de influências que tornam a vossa música muito própria. Como é que definem a vossa influência musical, em particular neste álbum?

Demo: Eu acho que todos eles têm uma certa influência. O primeiro disco era o culminar daquilo que estávamos a ouvir na altura, que era mais hip hop e R&B. A partir do terceiro começou a ficar mais definido o estilo que queríamos seguir. Acho que cada vez mais os Expensive Soul têm uma sonoridade muito própria e este disco é o melhor dos outros quatro e tem um pouco de todos eles. É o nosso melhor disco.

“As nossas músicas falam muito de amor, porque é essa a energia que vivemos e as pessoas identificam-se com isso”

É impossível não falarmos de alguns dos singles que, não só vos caracterizam, como marcam a cultura pop portuguesa. É o caso do single O Amor é Mágico, que teve um sucesso estrondoso e que vos valeu um Globo de Ouro em 2011. Quando lançaram este tema estavam à espera da repercussão que teve? O que é que tem de tão especial?

New Max: Não estávamos à espera de nada, as coisas foram acontecendo. Realmente demos um salto no terceiro disco quando saiu O Amor É Mágico e acho que foi uma música que chegou a toda a gente. Não estávamos à espera, quando começamos, de 20 anos depois estarmos aqui, portanto as coisas foram acontecendo devagar e ainda bem que assim foi. Estamos mais coesos do que nunca.

Demo: Só por curiosidade, quando mostramos essa música às editoras fomos recusados. É por isso que ela é especial e não estávamos nada à espera do sucesso que teve.

O mesmo aconteceu com vários projetos discográficos, nomeadamente no lançamento do vosso primeiro álbum, B.I.. Também este último álbum foi editado de forma independente. Que importância é que isto acabou por ter no sucesso da vossa música? Quais são os prós e contras da edição independente no ramo da música?

New Max: É mais difícil, porque as portas não estão abertas. Temos de as abrir, temos de lutar muito e nós sentimos muitas vezes essas barreiras por não estarmos com uma editora. Mas, por outro lado, é muito mais satisfatório, porque os masters são nossos, podemos dizer que ‘sim’ ou que ‘não’. Acho que é muito mais saudável para uma banda estar independente.

Demo: Em termos artísticos, tu és dono da tua arte.

Mas também já chegaram a um patamar que vos permite essa segurança, correto?

New Max: Claro, isso é verdade. Foi uma construção. Para quem está a lançar um primeiro disco agora, vai sentir as mesmas dificuldades que nós sentimos no início.

Demo: É um caminho, que cabe a cada um escolher se prefere correr pelo mais fácil ou, se calhar, o mais difícil. Às vezes, na música portuguesa, não há tempo para isso, mas também posso dizer que, nestes 20 anos já vi muitas bandas a terem um boom e da mesma forma desapareceram.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Esta enorme celebração de duas décadas de carreira chega com o lançamento de um novo disco: A Arte das Musas. Podem contar-nos, primeiramente, a origem do nome do álbum?

(risos) New Max: Não tem grande história, na verdade. Comprei uma revista da National Geographic, uma edição esporádica, intitulada de A Harmonia é Numérica. Estava a ler a primeira página e tinha a definição de música, que vinha da arte das musas. Eu sublinhei aquilo, fechei e escrevi no telefone, porque era um nome muito forte. Quando sugeri ao Demo ele adorou, por ser muito sonante e por ter tudo a ver. É o sinónimo de música e fazia todo o sentido para este álbum, porque ele não é só música. A capa do disco tem umas pinturas do João Paramés e fomos a várias vertentes da arte.

Demo: Encaixou na perfeição. E nós, os Expensive Soul, as nossas músicas falam muito de amor, porque é essa a energia que vivemos e as pessoas identificam-se com isso. Quando ele me disse, nem mexemos mais. (risos)

Este é um disco mais curto, conta apenas com dez temas, mas com mais maturidade. O que é que representa este álbum? É um reflexo dos 20 anos que passaram?

Demo: Este disco foi pensado para ter apenas dez temas, por termos sempre o problema de ser cada vez mais difícil tocar ao vivo as músicas todas. Sempre tivemos a dificuldade em certas músicas, nas quais trabalhamos muito para elas, nunca as conseguimos tocar. São dez singles. Dez temas que podemos tocar e é o que vai acontecer neste concerto, vamos poder tocá-las todas.

Em todos os álbuns há sempre um tema que fica na cabeça de todos. Temos o “Eu Não Sei” (no primeiro disco), “13 mulheres” (no segundo), o “Amor é Mágico” (em Utopia) e depois “Que Saudade” (em Sonhador). Há sempre um single que se destaca e que fica inevitavelmente na cabeça. Qual consideram que será o tema especial deste disco?

Demo e New Max: o “Amar É Que É Preciso”.

“Acima de tudo, nós não andamos aqui pelo dinheiro, mas sim pela arte. Tudo é inspiração e, no final de contas, é isso que importa. O dinheiro não é o mais importante. É a arte”

Este disco conta com uma colaboração do artista brasileiro Vitor Kley, que está a ter um grande sucesso em Portugal. O que é suscitou o interesse em colaborar com este artista para criar o tema “Só P’ra Te Ver”?

Demo: Eu li numa entrevista em que ele disse que, se algum dia colaborasse com uma banda portuguesa, gostaria que fosse com os Expensive Soul. Ficamos muito lisonjeados e mandámos-lhe uma mensagem pelas redes sociais a agradecer. Quando estávamos em estúdio com o último tema, o Max disse-me: “se calhar, a participação do Vitor, o timbre dele, o jeito dele na música… tem tudo a ver”. Mandamos-lhe o tema a perguntar se faria sentido… e resultou!

As celebrações já começaram, deram um concerto em Leça da Palmeira, um outro no início do mês, em Guimarães, e agora preparam-se para dar um grande espetáculo no Altice Arena já no dia 23. O que é que podemos esperar?

New Max: Já fizemos alguns concertos especiais ao longo da carreira e todos eles, de certa forma, marcaram as pessoas. A componente principal neste concerto é o facto de não ser apenas um concerto, estará dividido em vários atos e à medida que as coisas forem acontecendo vão-se juntando músicos à banda. Começa de uma forma e termina de outra. As pessoas vão assistir a uma coisa que vai estar a crescer e terão sensações diferentes. Não serão apenas os 13 músicos, como é habitual. É algo totalmente diferente e vai chegar a uma altura em que seremos cerca de 50 músicos em palco, o que vai ser muito bom.

Demo: É um marco muito importante, porque é, provavelmente, o maior concerto que demos, com uma produção nossa. São 20 anos. Contamos pelos dedos das mãos o número de projetos que duraram tanto tempo. É um concerto único. Por outro lado, é muito interessante por ser um concerto completamente diferente de tudo o que já fizemos até hoje, desde os arranjos ao alinhamento. É um desafio muito grande para nós.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Trazer muitas vozes para palco é já um hábito comum. Em 2012 deram um grande concerto, em Guimarães, com a direção do maestro Rui Massena e um coro constituído por habitantes vimaranenses, assim como a Orquestra. O concerto ficou gravado como Symphonic Experience. De que forma relembram este concerto?

New Max: Foi especial, porque éramos tão novos e ninguém imagina fazer algo assim com tão poucos anos de carreira. Proporcionou-se na altura, a convite do Rui Massena, e aquilo resultou muito bem, nem nós estávamos à espera. Já nos pediram várias vezes para repetir e nós recusamos, porque foi único e nunca mais vai voltar a ser igual.

Demo: Não se consegue, não há dois concertos iguais. Da mesma forma que este concerto, que vai acontecer no Altice Arena, vai ser único e a memória que as pessoas terão será a mesma que tiveram do Synphonic. Por isso é que estamos a insistir para as pessoas irem. É um concerto para músicos, para quem não percebe nada de música ou para quem gosta de ver a parte gráfica. É algo imperdível e em Portugal há cada vez mais falta deste tipo de eventos e é por isso que temos vindo a batalhar para as pessoas irem, porque faz toda a diferença.

New Max: E ainda para mais no Altice Arena. Já lá tocamos, mas nunca com uma produção nossa. É um sítio que nos proporciona fazer um concerto muito grande e é a maior sala do país.

Continuam a ter a apreciação de quem vos ouve desde o início e conseguem conquistar novos ouvintes, de gerações mais novas. De que forma procuram chegar ao público mais jovem, mantendo, ao mesmo tempo, a conexão com a geração jovem de há 20 anos?

Demo: Não é fácil. Nós também arriscamos em fazer este concerto em Lisboa e muita gente nos pergunta o porquê de não o fazermos no Porto, de onde nós somos. Mas com o tipo de concerto que nós queremos dar só conseguimos naquela sala. Tinha de ser em grande, porque é um investimento enorme, são muitas horas de ensaios…

New Max: E é o sítio mais central, para que possam ir pessoas tanto do Norte como do Sul.

Demo: E isso para nós é muito importante. A música é transversal.

Cantar em português continuará a ser uma prioridade? Que importância tem para vocês lançarem temas em português e não se aventurarem a propor temas internacionais, como acontece com grande parte dos artistas nacionais?

New Max: Sim, porque é a língua que conhecemos melhor e na qual nos expressamos.

Demo: Acima de tudo, nós não andamos aqui pelo dinheiro, mas sim pela arte. Tudo é inspiração e, no final de contas, é isso que importa. O dinheiro não é o mais importante. É a arte. É tu criares e dares algo novo, quer sejas bem ou mal-entendido.

Concordam que é esse o sucesso da vossa banda e o que vos tem permitido continuar juntos, 20 anos depois?

New Max: Eu tenho a certeza que é o amor que temos à camisola. Mesmo quando as coisas correm mal, já nos conhecemos muito bem e sabemos por onde é que temos de ir. Às vezes, fechamos uma porta para abrirmos outra.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Valorizem o que é português, porque se não valorizarmos aquilo que é português a cultura perde-se e um país sem cultura vale zero”

Se pudessem voltar a 1999, o que diriam aos dois rapazes entusiastas que viram o seu trabalho a ser recusado por editoras, sem saberem que 20 anos depois Portugal ainda saberia na ponta da língua os versos da vossa primeira música?

New Max: Diria “estudem, rapazes!” (risos) Se pudéssemos voltar atrás, só poderíamos dar força, porque foram as barreiras que tivemos na altura que nos podiam ter feito terminar e seguir outros caminhos.

Demo: Eu acredito que tudo tem um propósito. Todas essas barreiras tornaram-nos mais fortes e aprendemos com elas. Os Expensive Soul nunca foram uma banda de boom, com discos de platina, porque também nunca fizemos por isso. Nunca fomos uma banda para aparecer. Esta é a nossa missão, sermos um instrumento da música e aquilo que mais queremos é que as pessoas, principalmente os portugueses, reconheçam os artistas nacionais, porque cada vez mais vão perder isso. Valorizem o que é português, porque se não valorizarmos aquilo que é português a cultura perde-se e um país sem cultura vale zero. Todo este caminho que temos tido é porque algo maior fez com que isso acontecesse desta forma. Tivemos imensos obstáculos, não tivemos dinheiro para fazer discos, nem para tocar, e estamos aqui hoje, a ensaiar para um grande concerto no Altice Arena, que é a maior sala de Portugal. Devemos olhar mais para a arte, porque retiramos sempre de lá qualquer coisa que vai influenciar a nossa vida. Tudo tem um propósito e este é o nosso.

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