Revista Rua

2020-08-27T15:58:23+00:00 Negócios

Fábrica de Santo António: 127 anos de tradição no Funchal

Entrar nesta loja é entrar num mundo de doces, biscoitos, rebuçados, cada vez em maior e melhor variedade e num típico aroma a canela.
Fotografia ©Gregório Cunha
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva27 Agosto, 2020
Fábrica de Santo António: 127 anos de tradição no Funchal
Entrar nesta loja é entrar num mundo de doces, biscoitos, rebuçados, cada vez em maior e melhor variedade e num típico aroma a canela.

É impossível passar pelo Funchal, mesmo com tempo limitado, e não reparar na já mítica Fábrica de Santo António, situada numa esquina entre a rua 31 de Janeiro e a Travessa do Forno. Localizada num edifício antigo, mas recuperado caracteristicamente, indistinto à passagem do tempo, entrar nesta loja é entrar num mundo de doces, biscoitos, rebuçados, cada vez em maior e melhor variedade e num típico aroma a canela. Dizer que nunca lá entrámos resulta num acontecimento sem par em que as atenciosas colaboradoras nos irão proporcionar o momento de experimentação de cada bolachinha (tudo em conformidade com as novas regras de higiene e segurança) até estarmos tão confusos com aromas e sabores, que iremos acabar por escolher trazer connosco quase todas as que nos são permitidas no avião.

A Revista RUA teve a oportunidade de, além experimentar tais iguarias, falar com Bruno Vieira, atual administrador da Fábrica de Santo António, que nos contou um pouco da história de uma das casas mais antigas do Arquipélago da Madeira.

©D.R.

Como surgiu a Fábrica e como tem sido a sua evolução?

A Fábrica foi fundada por Francisco Roque Gomes da Silva em 1893 e surge na Madeira como a primeira fábrica de bolachas e biscoitos. As primeiras comercializações dos produtos eram feitas em grandes latas, de folha-de-flandres, que levavam um rótulo bastante colorido conforme o sabor. Com o passar do tempo essas latas deixaram de ser permitidas e começou-se então a comercializar noutro tipo de embalagens de meio quilo ou 250 gramas, que hoje em dia são as que se encontram em vários estabelecimentos. Em 2018, pela altura da celebração dos 125 anos, decidimos lançar uma edição comemorativa a Lata de Santo António (em três edições) que foi um sucesso para o público. Reavivámos assim o elemento icónico, que é a lata dos biscoitos, que é também a nossa bandeira e imagem principal.

Ao longo dos últimos dois anos, a Fábrica tem estado a remodelar a sua “cara” muito com esta base tornando os produtos mais uniformes em termos de visual, mantendo a tradição, mas com uma perspetiva também moderna.

Quais os produtos mais procurados?

Além das típicas bolachas, temos broas tradicionais, o tradicional rebuçado de Funcho, um dos produtos regionais mais antigos, remetendo ao Funcho existente na região quando da sua descoberta pelos Portugueses, e que levou ao nome do Município e cidade – e que é uma referência na doçaria tradicional. Nas últimas décadas alargou-se o espetro com rebuçados de gengibre, mel de cana, mel de abelhas, frutos como maracujá, tangerina, mango, banana. Temos também as compotas de frutos da região, a marmelada que é bastante procurada, e agora também as broas especiais, que é uma nova gama de produtos de qualidade superior e que fomos lançando nos últimos anos estando no encontro da necessidade dos clientes que nos procuram. Amêndoa, avelã, chocolate, aveia, são alguns dos elementos mais recentes e com maior crescimento nos tempos mais recentes.

Criámos agora também um pack imitando a caixinha de latão antiga, onde incluímos um bolo de mel, podendo o cliente escolher quais os dois saquinhos de biscoitos/broas que querem adicionar. Isto vem do facto de permitirmos a quem nos visita experimentar os produtos e aí ter a possibilidade de escolha sem ser enganado.

Bruno Vieira ©D.R.

E a Fábrica é aqui localizada, mesmo no centro do Funchal?

Sim, realmente encontra-se neste edifício desde o início, muito bem centralizado e localizado, e é uma das últimas fábricas a estarem dentro da cidade, sendo a única atualmente a operar no sul do Funchal. O peculiar é que em determinadas alturas do dia, geralmente quando saem as fornadas, acabamos por perfumar as ruas e esse é um elemento característico e identificativo. Acabamos por fazer parte da cidade viva e os habitantes ou quem passa já sabe a que horas são feitas as novas bolachas e biscoitos. Não será por acaso que esta rua se chama Travessa do Forno, é algo que achamos que faz parte de nós.

Em 2019 foi-nos concedido o título de “Loja com História” pela Câmara do Funchal, uma vez que mantemos o mesmo edifício, com a mesma traça, embora, claro, com os melhoramentos esperados.

O que sentimentos cada vez mais, de ano para ano, é que somos já um ponto de passagem obrigatório a quem visita a cidade. As pessoas já vêm com uma ideia fixa e sabem o que procuram e querem – geralmente o Bolo de Mel, que é muitíssimo procurado e tem muita saída – embora com a interrupção que houve este ano devido à pandemia, o certo é que a loja continua sempre cheia.

Todo o fabrico e confeção, desde os rebuçados aos doces e biscoitos, passam então por aqui? É tudo feito neste edifício?

Nós produzimos tudo aqui. São sistemas de produção antigos, tradicionais e artesanais. De uma forma geral tentamos manter a forma artesanal. A única coisa que mudou foi o embalamento, por uma questão de facilidade. Claro que temos de nos adaptar às novas regras, mas nunca é fácil fazer essa integração, de acordo com as novas exigências ao longo dos anos, uma vez que existe um risco de ao alterar a forma de confeção, podermos retirar alguma qualidade ao produto e isso é algo que não queremos. A nossa aposta é a qualidade e manter os processos tradicionais. O melhor exemplo que posso dar é a forma como são feitos os nossos rebuçados. Tudo de forma artesanal, onde o corte é feito de forma manual, logo, o rebuçado não é regular. Uns são maiores e “gordinhos”, outros mais pequenos, e isso indica que o corte é feito à mão de forma indiferenciada. A questão é que poderíamos ter uma muito maior capacidade de produção se e só se automatizássemos o sistema, e até já fomos contactados nesse sentido, mas a nossa resposta foi sempre negativa, porque é algo que nos difere dos demais. Não queremos entrar nesse caminho.

A Fábrica de Santo António geralmente “exporta” para o continente os seus produtos. Além do território nacional, quais são os outros destinos. Existe procura dos vossos produtos?

As lojas da Vida Portuguesa foram as primeiras a comercializar as latas comemorativas dos 125 anos, embora os nossos produtos se vendam em variadíssimos espaços. Contudo, é verdade que estamos mais centralizados na região de Lisboa e queremos que esse paradigma mude, principalmente nos focarmos para a zona norte e região do Porto. Queremos mesmo desenvolver a zona norte num futuro próximo uma vez que apresenta imenso potencial, uma vez que a nossa marca não está tão bem representada na região.

Estamos igualmente presentes no Reino Unido, tendo representante local. O Reino Unido apresenta-se como um excelente cliente, uma vez que existem imensos imigrantes lusos, muitos madeirenses, e funciona muitíssimo bem o mercado local. É sem dúvida para onde existe maior regularidade e rotação de exportação.

Qual o tipo de cliente que mais vos procura? O cliente nacional ou o internacional?

Não consigo dizer qual será. Para mim é metade/metade. Até porque temos também distribuição nacional e aqui, regional, torna-se mais complicado ter essa noção de quem compra os produtos. A nossa maior perceção atual, principalmente com a questão da pandemia e da restrição de viagens, é que o madeirense que é um cliente muito fiel e revê a Fábrica como algo seu acaba por ser o principal cliente. A outra metade deveu-se às exportações. Claro que depois existem as lojas de turismo, as lojas do aeroporto. Mas claramente que nos últimos anos temos sido bastante procurados pelos continentais, que cada vez valorizam mais – aliás, nós portugueses estamos a valorizar mais os espaços…

Estamos a valorizar o que é nosso.

Sim, os espaços antigos, porque acho que é uma questão de orgulho até do que somos e o que fazemos, o que temos. Infelizmente há muitas empresas com história que só deram valor às suas marcas após estas desaparecerem e, por isso, penso que atualmente também há uma maior sensibilidade para se tentar manter e proteger a tradição. Sente-se essa preocupação de defender o que é tradicional e tem valor.

É exatamente esse o lema da Fábrica de Santo António. A preservação do tradicional face à modernidade que, sendo necessária, não explica tão bem ou recebe tão calorosamente como o que é antigo, o mais simples e familiar.

Numa época em que temos tudo para mostrar a nós mesmos que Portugal (continental e ilhas) é rico e vasto em experiências, este espaço remete uma vez mais para essa questão do nosso património, que se quer vivo e bem preservado.

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