Revista Rua

2019-12-04T18:34:28+00:00 Opinião

Feliz como as pedras

Crónica
Francisco Santos Godinho
Francisco Santos Godinho
4 Dezembro, 2019
Feliz como as pedras

Havia regressado à casa ancestral depois da morte dos pais e do sumiço dos irmãos, após despacharem os tarecos que sobraram e, para seu espanto, nada mudou apesar de tudo ter mudado, os lugares quentes do sofá agora sem ninguém e, por isso, gélidos, só pesos invisíveis a vincar as almofadas, o caseiro voltou para a aldeia e dele sobrou a tesoura de poda e as jardineiras puídas, inanimadas a um canto do barracão. As heras haviam absorvido o canto da chaminé e não havia já o perdigueiro velho que o perseguia jardim fora por uma nesga de olhos. O quarto de vestir da mãe apenas um tamborete de veludo azul e centenas de brilhos esmorecidos no espelho biselado, ou seja, a vida daquela casa resumida em reflexos sucessivos que aumentavam, um após o outro, com os crepúsculos. Depois do poente, os últimos pássaros no pinhal, as incertezas do mato rasteiro e uma amostra de existência nos carros ocasionais, desaparecendo em viés mais adiante. Acendeu a luz do escritório ainda com medo dos objectos e perguntou-se

– Agora que a casa está vazia, quem a habita?

depois recordou-se do filósofo grego e da felicidade das pedras que não existem, mas antes são e, por instantes, desejou ser pedra, reduzido a um canto do jardim com o resto da gravilha, sem perguntas, sem nada, só estando, sem questionar o porquê de tudo ter sumido, será que o caseiro ainda na aldeia ou será que ele sumido também de vez com o pai e depois esqueceu- se do filósofo grego e do resto dos clássicos afundados nas estantes do escritório, por um instante foi quase pedra e apenas sorriu até as sombras desaparecerem com o primeiro sol.

Sobre o autor
Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto. Autor do livro Sentido dos dias e da página Francisco Santos Godinho. Escritor. Luto contra o tempo de caneta na mão.

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