Revista Rua

2019-07-10T22:49:58+00:00 Negócios

Fernando Coelho: “Às vezes, as pessoas esquecem-se que um bom projeto de arquitetura faz um bom negócio”

Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira1 Julho, 2019
Fernando Coelho: “Às vezes, as pessoas esquecem-se que um bom projeto de arquitetura faz um bom negócio”

Queria ser aviador, mas esse sonho, apesar de tão presente, deu lugar a uma paixão inesperada: a arquitetura. Hoje, Fernando Coelho é um dos mais reputados arquitetos do nosso país, com um portefólio repleto de projetos destacados pelo seu desenho arrojado e conceito apelativo. Falamos do Cella Bar, nos Açores, do Monverde Wine Experience Hotel, em Amarante, ou de Mato, uma galeria de arte em Cucujães.  Fomos conhecer a FCC Arquitetura, em Felgueiras, numa conversa que nos levou à análise da arquitetura portuguesa da atualidade.

Esta entrevista é parte integrante da Revista RUA#31, de janeiro de 2019. 

Fotografia ©Nuno Sampaio

Já conta com uma longa carreira, mas propomos voltar ao início. Porquê a Arquitetura?

Eu sempre tive a mania do “voar” e, portanto, queria ser piloto/aviador. No entanto, no final do meu 12º ano, não havia grandes cursos de piloto como hoje existem e tinha de ir para a Força Aérea, em Lisboa. Mas, como já tinha namorada, não queria ir (risos). Aliás, foi a minha namorada, atual esposa, que sugeriu a Arquitetura, uma vez que sempre achou piada aos meus desenhos. Acabei por seguir esse rumo muito por causa dela. Eu achava muita piada aos edifícios, mas nunca foi uma coisa que eu me interessasse. Entrei no curso para experimentar e, no primeiro ano, apaixonei-me por isto! Comecei a estudar e trabalhar ao mesmo tempo, o que me deu bagagem. Criei então o meu atelier no início de 2003, contando, pouco tempo depois, com o apoio da minha colega Ana Loureiro, que neste momento é sócia também. O meu primeiro trabalho foi de cariz religioso, um pequeno oratório de “Nossa Senhora”, algo muito comum há uns anos e visível à beira das estradas. Esse projeto que eu fiz não teve nada a ver com aquilo que era tradicional e, por isso, fui depois convidado a fazer um projeto para a casa de um padre e, mais tarde, uma importante igreja aqui no concelho de Felgueiras, a Igreja de Lagares, um projeto que só está a ficar pronto agora – depois de quase 15 anos. Tivemos a sorte ou o mérito de ganhar esse concurso. A partir daí, foi uma coisa atrás de outra. É evidente que a FCC Arquitetura hoje tem uma estrutura que não tinha antigamente. Hoje já somos cinco pessoas e temos projetos a nível nacional e ilhas.

Faz então um balanço positivo deste percurso?

Sim! Apesar de, como eu digo, nós termos começado numa época muito má: a nível de imobiliário e de obra foi o pior tempo. Mas sobrevivemos e também amadurecemos, o que, na nossa área, é muito importante. Ganhamos experiência a nível de processo burocrático, de relação com o cliente e de obra, porque só o tempo e a experiência no acompanhamento de obra nos fazem perceber como é que as coisas se fazem verdadeiramente.

“É sempre importante relembrar que a arquitetura cria espaços para as pessoas estarem, para que se sintam bem. O povo português só há relativamente pouco tempo se apercebeu disso”

Considera que o ramo da Arquitetura é cada vez mais desafiante por essas questões que enumera?

Acho que a Arquitetura tem várias vertentes. Em termos de programa pode aparecer de tudo. Nós, na FCC Arquitetura, já fizemos igrejas, casas mortuárias, cemitérios, moradias, hotéis, restaurantes… O maior desafio é perceber como as coisas funcionam e como devem ser construídas. Um hotel, por exemplo: quando o utilizador comum vai a um hotel não se apercebe do que está por detrás daquele edifício. Toda a parte que não se vê é uma estrutura tão grande e tão complexa que é preciso estudá-la. E nós, arquitetos, temos de desenhar esse espaço de forma a que tudo flua o melhor possível. Temos essa responsabilidade. Acima de tudo temos de criar sensações nas pessoas, mas também temos de ter atenção à parte funcional para quem lá trabalha. Porque, no fundo, um hotel é um negócio e tem que dar lucro! É tão simples como isso.

Depois, em relação a toda a parte processual, nós temos um país pequeníssimo, mas todas as Câmaras Municipais funcionam de maneira diferente, todos os processos são de forma diferente, é uma coisa extremamente complexa e demorada para o cliente e para nós. Cada vez se fala mais nisso e se tenta modificar as coisas, mas até hoje nada. Temos de lidar com isso! A nível de processo de obra, nós arquitetos temos de perceber um bocadinho de tudo para conseguir depois ligar as equipas todas e coordená-las – equipas de carpintaria, pichelaria, enfim, podemos ter 50 ou 100 pessoas a trabalhar numa obra.

E depois a relação com o cliente?

Eu costumo dizer que há três coisas muito importantes na Arquitetura: em primeiro lugar, o sítio. É muito importante o sítio onde vamos construir seja o que for. Costuma dizer-se até que o sítio faz a arquitetura; depois, o cliente; e, no fim, o empreiteiro. Se estas três coisas não estiverem bem interligadas, não resulta! E lidamos sempre com uma coisa complicada – o dinheiro. Desde uma casa pequenina até um hotel que custe dez milhões de euros, a escala é sempre a mesma, porque a exigência do cliente é sempre a mesma. Estamos sempre a lidar com o esforço do trabalho das pessoas e é sempre muito dinheiro no espectro do cliente. Por isso, tem de haver uma relação de confiança.

 

Começou, como nos contava, com um projeto nada convencional…

Sim, não era nada convencional porque na altura o tradicional era fazer aquela casinha em vidro, comprar a Nossa Senhora de Fátima e… já estava! Eu fiz um espelho de água e coloquei uma escultura de Paulo Neves com três toneladas em mármore. Na altura, havia muita gente que olhava para o projeto e não se revia na imagem. Hoje em dia, já não é assim e toda a gente gosta muito. Essas sensações ou insinuações que tentamos fazer ao público, para mostrar que há mais para além do tradicional, são importantes, a meu ver.

Então, de certa forma, um arquiteto é um artista?

É uma pergunta difícil (risos). Porque há uma parte da nossa profissão que é muito técnica, apesar de um escultor ou pintor também ter muita técnica. Eu acho que para chegar à fase de dizer “eu sou um artista” é necessário passar muitos patamares. É necessário que as pessoas venham ter connosco porque gostam do nosso tipo de trabalho, identificam-se com o nosso tipo de arquitetura, porque temos uma linguagem própria, tudo isso… Para mim, o Souto de Moura ou Siza Vieira são artistas. Eu ainda não me considero artista. Ainda sou um técnico. Não sei se tenho capacidade para lá chegar, mas trabalho para isso (risos).

É impossível não falarmos de três projetos que, a nosso ver, são ex-libris do seu trabalho. Começamos pelo Cella Bar, no Pico (Açores), um projeto premiado como Building of the year em 2016. Este foi um projeto arrojado e que espelha bem a sua filosofia como arquiteto?

É evidente que este foi um projeto importante, até porque foi um projeto que eu não tinha consciência que teria a repercussão que teve. O Cella Bar realmente foi um projeto que correu o mundo. Saiu em todas as publicações, desde Coreia do Sul até ao Brasil. Foi um projeto que me deu muito gozo fazer e, pessoalmente, fiquei apaixonado por aquela ilha e pelas pessoas. Hoje em dia sou um defensor acérrimo dos Açores e sempre que posso recomendo a visita. Não foi fácil fazer uma obra daquelas nos Açores, muito menos no Pico. A construção lá não tem nada a ver com o continente. É muito difícil fazer chegar lá todas as matérias-primas, eles não estão habituados a fazer uma obra com aquela complexidade… mas conseguiu-se. E correu muito bem!

Foi bom receber o prémio, como é evidente. Isso deu à FCC Arquitetura um bocadinho mais de exposição, não só a nível nacional como a nível internacional, permitindo que tenhamos hoje outro tipo de projetos e clientes. Muitos deles vieram por causa do Cella Bar.

Passamos para o projeto do Monverde Hotel, na Quinta da Lixa. Qual foi aqui o ponto de partida?

Por acaso foi algo engraçado porque esses dois projetos – Cella Bar e Monverde – estiveram em desenvolvimento quase ao mesmo tempo, apesar de o Monverde ter começado mais cedo. Foram quase oito anos desde que começamos o primeiro desenho até acabar a obra. Foi um projeto muito importante para nós porque, foi o nosso primeiro grande hotel e não tínhamos experiências num hotel tão grande, que não é um edifício só e, por isso, toda a parte funcional é mais difícil e mais complexa. Na altura, quando o dono da obra nos propôs o projeto, aquilo não era para ser um hotel. Seria uma casa para amigos ou potenciais clientes que visitassem a Quinta da Lixa. E foi assim que eu comecei. O problema foi que, ao desenhar, achei que aquilo realmente era bonito demais e bom demais para ser apenas uma casa para amigos. No fundo, levei o cliente a acreditar naquilo que eu acreditava. O problema é que uma casa de amigos custa uma coisa, um hotel custa outra! (risos) Depois tínhamos ainda outro problema: o próprio Turismo de Portugal não acreditava no projeto, porque a Lixa não era propriamente um sítio turístico. Mas conseguimos, com um conceito muito forte para o local, convencer o dono da obra a estar connosco neste desafio. Conseguimos fazer o que lá está e hoje em dia o Monverde é um case study do Turismo de Portugal. Também ganhamos alguns prémios com o edifício: foi considerado um dos melhores hotéis de enoturismo a nível mundial. Correu muito bem! Neste momento estamos a ampliar o hotel, o que é um ótimo sinal.

Falando agora do icónico projeto Mato, em Cucujães. Já é um trabalho de 2012. Como foi traçar um projeto para um artista (Paulo Neves)? É mais fácil trabalhar para alguém que conhecemos bem ou isso não traz qualquer tipo de influência no resultado final?

É ainda uma responsabilidade maior. Eu e o Paulo começamos com aquela “Nossa Senhora” e, na altura, por volta de 2002, quando me propuseram esse projeto, pensei logo em incluir uma escultura, mas só conhecia alguns escultores com renome – e eu não tinha budget para os conseguir. Numa conversa com um amigo, ele sugeriu-me o Paulo Neves, apesar de ele ser também um nome conhecido, e ajudou-me a contactá-lo. Encontrei-me com ele no atelier dele. Acho que a empatia – e hoje com certeza posso afirmar isso – foi mútua. Hoje, o Paulo Neves é um dos meus melhores amigos. Ele aceitou o desafio porque realmente o budget que eu tinha não servia para lhe pagar a peça (risos). A partir daí, já fiz imensas coisas com o Paulo, porque acho que a arquitetura se coaduna muito bem com a escultura. Quando ele me falou em construir uma galeria que servisse para exposições, foi um grande desafio para mim… porque o Paulo é muito bom! Era uma responsabilidade muito grande fazer um edifício que fosse para exposição. Aquilo que nós fizemos, na altura, foi inspirarmo-nos na obra dele e tentar daí criar um edifício. Acho que o resultado foi bom, muitos artistas têm exposto as suas obras na galeria e acho que o Paulo está muito contente com o edifício, principalmente isso!

Atualmente, que projetos tem em mãos?

Temos vários projetos ainda em execução, coisas particulares e outras a nível de hotelaria, principalmente nos Açores, onde temos projetos já em várias ilhas, como São Miguel, Pico, Terceira e Faial. Nos planos está a restruturação de um hotel, a criação de cinco hotéis de raiz e, ainda, vários projetos de moradias ou loteamentos.

“Um projeto que eu nunca tenha feito? Uma ponte! E, como tenho a mania das alturas, era capaz de gostar de desenhar uma ponte (risos)”

Vivemos uma altura em que muito se fala em processos de reabilitação, dando nova vida a edifícios. A arquitetura do futuro tem, a seu ver, a reabilitação como desafio?

Sim, principalmente nas grandes cidades e sobretudo por causa do turismo. Acho que o imobiliário hoje em dia tem que dar graças a Deus ao turismo pelo boom que está a ter. Porque todas as grandes cidades, como Coimbra, Porto ou Lisboa, estão a ser reabilitadas devido ao turismo. Não só para alojamentos locais, como também para pessoas que veem na reconstrução de imóveis um benefício para arrendamento. A verdade é que o turismo traz os investidores. Quando andava na universidade, a Rua das Flores, no Porto, era uma rua em que ninguém lá entrava e, neste momento, é uma das ruas mais movimentadas da cidade do Porto e mais caras em termos de imobiliário também. Se está a ser feita uma boa reconstrução ou não… isso já é outro tema. Há coisas muito bem feitas e há outras muito mal feitas, dependendo dos promotores.

Acho que Portugal tem uma excelente arquitetura, somos reconhecidos a nível internacional, temos excelentes arquitetos, cada vez mais novos – sobretudo porque as escolas são muito boas. A nível de construção ainda temos bons empreiteiros, mão de obra à moda antiga, como eu costumo dizer, que fazem as coisas como os marceneiros faziam, com muita atenção ao detalhe. Há excelentes reconstruções, temos edifícios belíssimos, por isso, acho que, de maneira geral, o balanço é positivo. É bom para as cidades, porque são feitas para as pessoas. É bom para os arquitetos, que têm mais trabalho. É sempre importante relembrar que a arquitetura cria espaços para as pessoas estarem, para que se sintam bem. O povo português só há relativamente pouco tempo se apercebeu disso. Por exemplo, o Cella Bar fez com que muita gente fosse ao Pico visitar o espaço por causa da sua arquitetura. Às vezes, as pessoas esquecem-se que um bom projeto de arquitetura faz um bom negócio.

Já tem vários projetos de prestígio na carreira. Assim de repente, o que lhe falta fazer? Tem planos que ainda não conseguiu pôr em prática?

(risos) É uma coisa engraçada porque às vezes dou por mim a pensar como é que os projetos surgem. De um papel em branco ao projeto final, há coisas que nem dão para explicar. Tudo depende do que nós absorvemos, do que vemos no local, do que falamos com o dono de obra… Um projeto que eu nunca tenha feito? Uma ponte! E, como tenho a mania das alturas, era capaz de gostar de desenhar uma ponte (risos). De resto, gosto muito de fazer moradias, apesar de ser um projeto que dá imenso trabalho e pouco lucro. É gratificante para nós percebemos que realmente a família se sente bem naquele espaço que desenhamos.

Partilhar Artigo: