Revista Rua

2018-08-09T12:59:44+00:00 Cultura, Música

“Sinto a minha música mais ansiosa do que propriamente relaxante”

Filho da Mãe é um projeto de Rui Carvalho, que recentemente apresentou o novo trabalho "Água-Má".
© Joana Rita | Shootsounds
Emanuel Roriz
Emanuel Roriz31 Julho, 2018
“Sinto a minha música mais ansiosa do que propriamente relaxante”
Filho da Mãe é um projeto de Rui Carvalho, que recentemente apresentou o novo trabalho "Água-Má".

Água-Má, o novo trabalho de Filho da Mãe, correu pelo Palco Cunha do Festival Rodellus na tarde de sábado do dia 21 de julho. Rui Carvalho abraçou os presentes com a intensidade dos momentos e espaços criados com a sua guitarra e após a descarga de emoções perdemo-nos em conversa sobre o percurso do músico.

O que é já sabias sobre o Rodellus?

Fiquei a conhecer o festival através de pessoas que já tinham cá trabalhado, mais do que tocado. Alguns técnicos de som por exemplo. E a ideia era a de que este é um sítio fixe para tocar.

Já estiveste presente em festivais de maior e menor dimensão. Que tipo de experiência ao vivo procuras mais?

Isso foi mudando ao longo dos tempos. O meu ambiente quando comecei a tocar era um ambiente preenchido por pessoas, quente, era o ambiente típico de clube. Quando comecei a tocar frequentemente foi numa banda de rock/hardcore, os If Lucy Fell, que precisava de um tipo de ambiente característico e eu gostava das salas pequenas. Também chegámos a tocar em festivais grandes, mas eu gostava mais das salas pequenas. Depois comecei a mudar um bocado porque o ambiente de festival também é muito bom. Gritas alguma coisa para o microfone e toda a gente responde aos berros, há sempre coisas caricatas a acontecer. Normalmente, em festival, o som também é muito bom. Vale muito a pena por isso. Mas quando comecei a tocar sozinho tudo isso mudou radicalmente, porque é uma experiência muito diferente tocar a solo. Dependendo do disco que se tem no momento ou da energia com que se quer tocar. Pode-se perder um pouco mais num ambiente deste género, ao ar livre em que não sei se as pessoas estão comigo, do que num ambiente de teatro. Como o próprio nome diz, em espetáculos em teatro é um ambiente mais teatral, é um ambiente mais repressivo, mas no bom sentido. As pessoas estão mais fechadas e eu consigo perceber melhor a dinâmica do momento. Tenho gostado muito de tocar em teatro porque sinto que consigo dominar emocionalmente o espetáculo do início ao fim. Mas não gosto só de teatros, gosto de tocar ao vivo, mas depende do formato. Por exemplo, o Mergulho, o disco anterior, é feito para teatros. Este novo disco já pode ter outra dimensão. Mesmo assim, comecei as apresentações no teatro Maria Matos e o concerto foi muito bonito e por mais gente que tenha é sempre mais intimista. É diferente de teres muita ou pouca gente ao ar livre. Gosto muito de tocar ao ar livre, fechar os olhos enquanto toco, sentir o vento na cara. Embora considere isso um momento mais egoísta. No teatro sinto mais as pessoas. Mas não há uma coisa que eu prefira à outra.

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É incrível como a música 100% instrumental consegue dizer tanto, por vezes até mais do que uma música com letra e uma história, concordas?

Eu concordo, mas sou um gajo suspeito. Eu gosto de música instrumental e também a faço. Também ouço muitas coisas com voz, mas a música instrumental pode-me tocar tanto como a música cantada. O importante é fazeres bem. Tem muito a ver com a entrega. Tu consegues pôr voz e muita alma numa sequência de acordes, ou num riff, e sentir tanto aquilo como se estivessem três pessoas a cantar. Não creio que essa seja a opinião da maioria das pessoas e respeito isso. Mas a ideia é pôr e entregar a música como se estivesse alguém a cantar. Em Portugal há muita ligação à voz, o Fado, a alma.

E quando surge o comentário “mas então ninguém canta”?

Pois, eu já ouvi isso muitas vezes… “e então o gajo não canta?” Isto no meio do concerto. Alguém sempre à espera que eu cante e isso era a pior coisa que podia acontecer a qualquer pessoa, era eu começar a cantar (risos). Eu percebo e gosto de músicas com voz, mas a música instrumental tem outro lado que é difícil de explicar. Quando tens a ausência de outros elementos e de outros instrumentos tu tentas criá-los com a guitarra, mesmo que seja quase impossível, mas isso é que é bom. Ouço música instrumental desde muito miúdo, portanto estou acostumado a esse nível.

O que te inspirou a seguir esta orientação musical?

Foi saber tocar guitarra. Toco guitarra desde muito novo, mas não fazia intenção nenhuma de fazer disto vida. Tudo acabou por acontecer quase por acidente e loucura. Saber até onde é que se pode levar uma guitarra é excitante, por um lado, e frustrante, por outro. Tem os dois lados. E vou andando a bater com a cabeça sempre de um lado e do outro (risos). Tocar guitarra sozinho é muito bom pois há coisas que fazes ao vivo que não consegues fazer como banda. Se podes ter outra liberdade, por outro lado também estás mais preso. A pressão é maior… pressão entre aspas, porque é libertador! E descobres coisas musicais em ti que, de outra forma, nunca terias descoberto. Isso aconteceu-me neste novo disco Água-Má. Com banda ficas mais no teu cantinho de conforto e resguardas-te, enquanto desta forma não tens hipótese. São duas coisas completamente diferentes e se estivesse muito tempo a tocar com banda ia sentir falta de tocar sozinho. Neste momento sinto falta de tocar com banda (risos).

De momento estás só com este projeto?

Sim, mas há sempre planos de tocar com outras pessoas e isso vai acontecendo. Há sempre planos e tocar com outras pessoas é muito bom.

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Como veiculas a transfusão de sentimento de uma ideia para a música em si?

Às vezes tudo surge a partir de uma imagem, sim. Uma coisa boa de se fazer é compor em residência artística. Ires para um sítio bonito, onde não tens de ir buscar o puto à escola. Antes dizia isto a brincar e agora digo isto a sério porque tenho mesmo de o ir buscar, mas funciona bem como metáfora. Em residência não tens nada para fazer. Não tens que atender o telefone, não tens de estar a pensar na fila da segurança social. E estás a olhar para um sítio bonito e há coisas que te vêm à cabeça que se calhar te inspiram de alguma maneira. Muitas das vezes, o processo criativo é uma coisa nada romântica e nada poética. É só algo que acontece de repente e olha… gosto disto, é essencialmente intuitivo para mim. Exceto quando começas a embirrar contigo próprio. É aí que começa a ficar sério. É quando começas a embirrar. Já fizeste tantas vezes a mesma coisa, aquilo até pode ser uma boa música, mas sentes que já fizeste aquilo alguma vez e começas a embirrar e a procurar outra ideia qualquer. Este processo de escavação pode ser duro por vezes. Aqui talvez tenha um bocado mais de trabalho e seja tudo mais cerebral, mas os melhores momentos são os intuitivos, quando não pensas no processo.

Consideras que a tua música tem uma geografia associada, ou algum espaço? Tens uma sonoridade com muita identidade…

O meu problema é a ausência da geografia, ou ter várias geografias misturadas. Acho que é mais isso. Eu era péssimo a geografia quando era puto, por alguma razão. Lembro-me de a minha mãe me ter ajudado a passar num teste de geografia, ninguém chumbava a geografia, só eu é que chumbava a geografia! (risos). Mas sinto recorrentemente nas coisas que faço algo muito africano, mas também há um Norte da América reconhecível, ligações ao deserto. Por outro lado, o mar a mim inspira-me, portanto é tudo muito misturado e eu gosto dessa confusão geográfica. Isso faz sentido em Portugal. Eu sendo de Lisboa ainda mais faz sentido. Agora por causa do turismo. Nós não somos mesmo só de um sítio. Temos ligações ao Norte de África, mas também à Europa Central por motivos mais recentes. Temos a componente ibérica que é forte. E na nossa música é engraçado, não só na minha, mas também na de outras bandas que absorvem esta diversidade. Hoje em dia ouves música com raiz africana em quase todas as bandas… uma ginga que nos assenta bem e faz-nos falta. Nós temos isso tudo e eu encaro a geografia dessa forma. Não me interessa muito onde estou. Posso estar aqui, mas de repente sentir que estou noutro lugar qualquer. Eu gravei o Água-Má na Madeira e esse lugar obviamente que me influenciou, mas o disco não é tropical por isso. Gosto destas misturas bizarras como se não houvesse distância entre um sítio e outro.

O novo disco Água-Má, o que representa no teu percurso discográfico? Em relação a trabalhos anteriores, o que enumeras como pontos comuns e pontos que distam do que tens feito?

Se me fizesses essa pergunta todos os dias ia sempre dar-te uma resposta diferente. Eu acho que tem qualquer coisa a ver com os anteriores. A certa altura isso é algo de que eu fiz questão. Há uma ponte. Talvez menos evidente entre o primeiro e o segundo disco, mas entre o segundo, o terceiro e o quarto é algo que se nota. Eu costumo falar sobre o Tormenta, que é um disco que fiz com um baterista chamado Ricardo Martins, e também esse trabalho faz parte do processo. Há sempre algo que une. Se me perguntares exatamente o quê, nem considero interessante responder a isso porque a resposta acaba por ficar burra. Acho que tenho vindo a explorar um pouco mais os silêncios e os momentos sem nada. Algo que fiz talvez em demasia no Mergulho e que no Água-Má tentei contrariar um bocado. Há sempre alguma componente que aproxima os meus trabalhos, mais do que algo que os distingue. E gosto disso, não sinto que tenha de fazer um corte de um disco para o outro.

© Joana Rita | Shootsounds

Quais são os planos de promoção ao vivo para o Água-Má? E quanto a edições? Vai ser lançado em mais territórios ou há alguma edição especial disponível?

As próximas apresentações serão no Boom Festival e também no aquecimento para o Andanças.

No Boom é usual terem projetos da natureza do teu?

Não conheço bem o Boom, mas sei que tem várias vertentes. Tem palcos com curadoria da Lovers&Lollypops e já há bandas que eles levam lá há algum tempo. Diversificam bastante a oferta. Vejo a minha música a funcionar lá num certo momento que seja de descompressão. Não que eu veja a minha música como descompressão (risos), eu acho que é mais pressão, mas para quem ouve acredito que a possa entender de forma mais serena.

No Festival Andanças já assisti a um concerto com guitarras, também ele apenas instrumental, e em que convidaram a plateia a descomprimir, fechar os olhos, deitarem-se na sombra e a deixarem-se levar apenas pela música…

Acho que é essa a ideia do meu concerto lá e que vou abraçar com todo o amor. Mas sinto a minha música mais ansiosa do que propriamente relaxante, mas isso sou eu (risos). Vai ser certamente uma experiência brutal e ainda bem que vou tocar nesses dois festivais. Depois disso já temos vários concertos marcados para setembro, outubro, também fora de Portugal, em setembro na França e depois continuamos em 2019… mas eu nunca faço um plano, trabalho com uma editora (Lovers&Lollypops) que também faz planos de uma maneira esquisita (risos). Um gajo põe-se na onda e logo vê onde é que vai parar. Tem sido essencialmente assim. E este novo disco tem isso como premissa… as coisas acabam por acontecer. A pré-produção do Água-Má foi feita num estúdio de topo, o qual eu conheço muito bem, e acabei a gravar o disco onde normalmente não se faz mais do que a pré-produção. Isto sem planear absolutamente nada. Como a minha logística é simples, é fácil de pôr a funcionar. Tenho uma edição em vinil a chegar e vamos fazer algumas coisas engraçadas em volta disso.

Tens saudades do caos elétrico dos tempos dos If Lucy Fell?

Eu tenho saudades do caos e vou-te explicar porquê. O caos não é caos. É calma! Eu sinto saudades do barulho: chegar, colocar o amplificador da guitarra no máximo e dizer “está bom o som, é mesmo isto” (risos). Sinto muitas saudades de fazer isso. É a melhor terapia que existe e não encontrei ainda até hoje melhor maneira que essa para desligar o cérebro. Mas sim, sinto falta. O caos acalma! Mas depende. Quando se ouve barulho a vida toda, a certa altura, começa a ficar tudo muito silencioso. E o que faço hoje é muito mais intenso e enérgico do que aquilo que parece. Sei que o que pode passar para as pessoas não é exatamente aquilo que eu estou a sentir.

Para finalizarmos, e já que um dos motivos desta conversa é o teu disco mais recente, vamos terminar a falar sobre discos. Qual o disco da tua vida?

Eu não tenho um disco da minha vida… não tenho, não consigo! Eu acho que depende da circunstância e do momento. Há um momento muito engraçado quando eu saí de Queluz para vir estudar e morar em Lisboa, num dos melhores momentos da minha vida, quando comecei a viver em Lisboa, a andar de elétrico. Amei aquela cidade que eu julgava que odiava. E amei aquela cidade sempre de Carlos Paredes nos ouvidos. Era um disco qualquer de Carlos Paredes pois eu nem sei qual era ao certo. Eu ouvia-os todos em catadupa. Portanto, dir-te-ei Carlos Paredes. Se me perguntares qual foi o disco que me influenciou recentemente para tocar eu diria Botch. E vais ter de ir à net pesquisar o que é Botch porque ninguém conhece esses tipos! Esta foi a banda que mudou a minha vida e que ainda hoje, quando toco, me influencia. Embora não tenha nada a ver com a minha música. E o disco seria o Anthology Of Dead Ends, que é um EP e que ninguém considera ser o melhor deles. A mim, esse disco partiu-me aos bocadinhos. Tem das melhores malhas de sempre e fez-me ter vontade de tocar guitarra até eu ser velhinho. Talvez esse sim, até porque é o fim dos Botch e eu gosto de coisas negras e tristes.

Qual o primeiro disco que compraste?

Eu já ouvia música há muito tempo, mas não comprava discos. Isto é uma coisa muito idiota para um músico dizer. Quase nenhum músico diz isto. Eu ouvia muita música, mas nem sabia o que ouvia. O momento em que comecei a sentir que pertencia a alguma coisa foi com uma banda chamada Iron Maiden. E o primeiro disco que comprei acho que foi o Piece Of Mind, embora ouvisse também o The Number Of The Beast. Comprei o Piece of Mind em CD numa loja na Costa da Caparica. Trouxe-o para casa feliz da vida, mas sei que foi tardio… já ouvia música há mesmo muito tempo.

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