Revista Rua

2019-07-17T12:18:05+00:00 Histórias, Negócios

Filipa Belo, o rosto da Portugal Manual

“Acredito que a procura de produtos feitos à mão, muito mais que uma tendência, é um estilo de vida!”
Musgo, marca presente na Portugal Manual
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira17 Julho, 2019
Filipa Belo, o rosto da Portugal Manual
“Acredito que a procura de produtos feitos à mão, muito mais que uma tendência, é um estilo de vida!”

Contrariando a morte há muito anunciada dos trabalhos manuais e da tradição artesã portuguesa, Filipa Belo criou, em novembro passado, uma plataforma que junta o trabalho dos novos artesãos portugueses: a Portugal Manual. Unindo a tradição com a cultura contemporânea, este projeto coloca em evidência o talento nacional para a serigrafia e ilustração, a moda, o design, a joalharia, o trabalho em madeira, a tecelagem… Fomos conhecer melhor as dinâmicas da Portugal Manual e, para isso, nada melhor do que dar a palavra à Filipa Belo.

Filipa Belo

Vamos começar por pedir-lhe uma apresentação do projeto Portugal Manual. Podemos ler no site: “Fazemos a ligação entre uma rede de artesãos portugueses contemporâneos e o Mundo, com a missão de criar um ecossistema de negócios e transmissão de saberes apoiada numa lógica de consumo sustentável”, mas, nas suas palavras, quais são os principais propósitos deste projeto?

A Portugal Manual é uma rede de promoção dos novos artesãos portugueses. Procuramos fazê-lo com base em três pilares: o pilar cultural, onde promovemos e reposicionamos o novo artesanato português fora de Portugal, através da exposição O artesanato em transformação; o pilar comercial, possibilitando a estas marcas estarem presentes em feiras internacionais, o que de forma individual seria difícil; e ainda o pilar do Turismo Criativo, investindo na promoção de experiências em Portugal através de workshops que promovem o aprender a fazer, distribuídos um pouco por todo o país.

Fale-nos um pouco de si. Como é que a Filipa Belo se tornou o rosto da Portugal Manual? Como é que tudo começou?

Sou uma entusiasta do empreendedorismo, do consumo sustentável e da economia de partilha. Com a maternidade, comecei a ter grandes preocupações acerca do mundo que queria deixar para os meus filhos e rapidamente isso se tornou um lema de vida. A procura por produtos biológicos, sustentáveis, longe das produções em série, fez-me pesquisar muito e descobrir um movimento que se estava a implantar em Portugal com bastante força já em 2012. Em 2016, organizei a primeira edição do Organii ECO MARKET, em Lisboa.  No evento, conheci alguns dos artesãos que integrariam, dois anos mais tarde, outro projeto.

Em agosto de 2017, eu e o meu marido viemos para o Brasil por questões profissionais e essa mudança de vida proporcionou-me tempo para estruturar o que queria fazer na certeza de que seria com os novos artesãos portugueses. Conhecer as histórias e desafios que os artesãos enfrentavam diariamente fez-me ter uma vontade imensa de promover esses projetos que são de pessoas para pessoas. Com a minha vinda para o Brasil, trouxe todos no coração e comecei a pensar numa maneira de promover esses trabalhos que, por questões de logística e\ou financeiras, não conseguem ir tão além. Estudei e pesquisei muito sobre esse encontro do design com o artesanato. Dessa paixão e procura nasceu a Portugal Manual.

Clique nas imagens para ler as legendas.

O que mais a apaixona no mundo do artesanato português? É a graciosidade do trabalho manual, a atenção e detalhe visível nas peças…?

Enquanto mera observadora, que é o que sou, o que me apaixona é ver de que forma estes novos projetos apostam na promoção da tradição e do artesanato português através do design que introduziram nas suas produções artesanais, dando origem a peças únicas. Fascina-me a arte do saber-fazer dos novos artesãos, que aliam a tradição manual à imaginação, reinventando conceitos com um olhar contemporâneo, criativo e cosmopolita.

“Sou uma entusiasta do empreendedorismo, do consumo sustentável e da economia de partilha”

A sua principal missão com o projeto Portugal Manual é dar a conhecer o talento português? Considera pertinente, nesta fase tão tecnológica, realçarmos a “portugalidade”, a “criatividade artesã” do nosso país?

O meu primeiro objetivo, enquanto fundadora e curadora da Portugal Manual é contar as histórias destes novos artesãos que ousam voltar ao manual. Tenho observado, ao longo dos últimos anos, que quando se compra uma peça de artesanato, compra-se a história que vem com ela. Cada vez mais o cliente procura uma economia de afeto, conceito desenvolvido pelo criativo brasileiro Jackson Araújo, onde muito mais que uma peça o comprador procura algo que esteja em sintonia com a sua individualidade. Acho que essa dimensão do afeto, da história, de nos querermos ligar a algo, conduz-nos até ao artesanato.

E contar essas histórias ao mundo é reposicionar o mercado do feito à mão em Portugal no estrangeiro, mostrando que o novo artesanato português está perfeitamente alinhado com a fase que o país atravessa, tendo recebido mais uma vez o World Travel Awards de Melhor Destino da Europa e do Mundo, mostrando que os novos artesãos valorizam o passado e que dessa forma projetam o futuro. Recuperam técnicas, algumas delas já obsoletas, revitalizando oficinas que estavam em risco de fechar, dando origem a uma nova era de colaborações entre designers e artesãos.

O artesanato contemporâneo português vive momentos de glória? Qual é a sua visão sobre os novos projetos que têm surgido, muito sustentáveis e com design apelativo?

Acho que ainda não podemos falar em momentos de glória, mas sim de momentos de redescoberta.

Sobre as iniciativas destes novos artesãos, podemos observar que são marcadas por uma forte vertente de inovação e de empreendedorismo de pessoas espalhadas pelo país de norte a sul e ilhas. Podemos assistir ao regresso a algumas práticas, que pela industrialização estavam esquecidas. Há outros cuidados técnicos que não eram tidos em conta, basta olharmos para o cuidado que as marcas já têm com a experiência do consumidor, desde que compra até que recebe a peça em sua casa. Coisas simples como a forma de embalar os produtos para chegarem intactos ao destino através da reutilização de materiais. Outro procedimento adotado recentemente é incluir nas peças etiquetas que, além de explicarem o produto, vêm com a cara de quem o faz. Hoje o cliente procura saber tudo sobre a origem da peça, de onde vem o material, quem fez…

Os novos designers/artesãos aliam a tradição manual à imaginação, reinventando conceitos com um olhar contemporâneo, criativo e cosmopolita.

A plataforma reúne, atualmente, marcas e artesãos de várias áreas. Pode esclarecer-nos sobre o número de artesãos presentes e as principais áreas de negócio representadas?

Neste momento, a plataforma conta com cerca de 60 marcas que se dividem nas seguintes categorias: serigrafia & ilustração, moda, casa & design, joalharia e infantil. Dentro destas categorias encontramos: cerâmica, trabalho em madeira, tecelagem, trabalho em pele e joalharia.

Sabemos que pode ser difícil escolher, mas em termos pessoais, quais são os projetos/marcas que os portugueses (e não só) têm mesmo de conhecer?

É uma pergunta difícil porque considero que devem conhecer todos. Ainda assim posso destacar alguns: na área da sustentabilidade, saliento o trabalho da Maria Descalça, pela nova vida que dá aos sacos de plástico, transformando-os em elegantes bolsas. Na área do renovar da tradição, a À Capucha, a Bisarro e a TASA. E, na inovação, a SUGO com os tapetes de cortiça. Por fim, na área social, a Avó Veio Trabalhar.

Tem um “gostinho especial” por algumas peças? Que destaques nos daria?

Vou concentrar-me nas peças que têm integrado as exposições e algumas têm um valor especial para mim, por terem sido feitas especialmente para a Portugal Manual: o colar de parede da Diana Cunha, Oficina 166 (com chita de alcobaça) e os bonecos das Fulana Beltrana Sicrana que foram pensados para a exposição O artesanato em transformação, o António Variações, Fernando Pessoa, Amália Rodrigues e Florbela Espanca.

“Neste momento, a plataforma conta com cerca de 60 marcas que se dividem nas seguintes categorias: serigrafia & ilustração, moda, casa & design, joalharia e infantil”

O projeto está, de alguma maneira, de braço dado com o empreendedorismo e até com o turismo, levando em exposição algumas marcas. Um exemplo foi a exposição Portugal Manual: o artesanato em transformação, no Rio de Janeiro, no início de junho. Pode contar-nos melhor os detalhes desta exposição? E pode explicar-nos também de que forma é que o artesanato pode ser um produto turístico?

Depois do lançamento da exposição em Brasília e S. Paulo, e reconhecendo o trabalho de divulgação dos novos artesãos portugueses, o Turismo de Portugal, convidou-nos a levar a exposição O artesanato em transformação à segunda edição do evento Portugal 360.

Além da exposição foram promovidas Experiências Portugal Manual , através de oficinas manuais, em articulação com a FICA, num programa que permitiu dar a conhecer a arte de saber fazer, através do resgate dos ofícios tradicionais – programas que também desenvolvemos em Portugal apostando na promoção de Portugal como destino de Turismo Criativo. Apostamos na divulgação da cultura portuguesa pelas mãos dos novos artesãos e pela transmissão dos saberes. Acreditamos que é nas oficinas e nos ateliers que se sente o pulsar renovado da criação. 

A Portugal Manual tem inclusive parcerias interessantes com associações importantes do nosso país, como é o caso da AORP e da APPICAPS. Considera relevante existir este apoio?

Sendo a Portugal Manual um projeto que pauta pela promoção de um país através do novo artesanato, é da máxima importância a existência deste tipo de parcerias. Acreditamos que é no coletivo que está a força e Portugal é um país pequeno, por isso é urgente que os vários agentes culturais e associações se unam. Com caminhos distintos, mas com propósitos comuns que são transversais às várias áreas, sejam elas de cariz cultural ou económico.

 

A divulgação de novos projetos, principalmente aqueles que se distingam pela originalidade, sustentabilidade, inspiração tradicional, etc., continuará a ser o objetivo central da Portugal Manual? Que anseios tem a nível de crescimento?

A Portugal Manual posiciona-se como um facilitador para estas marcas. Além da plataforma, que é uma pequena parte do nosso trabalho, o nosso foco é oferecer um espaço de impulso para estes projetos. As marcas associadas à nossa plataforma, depois de serem aceites, têm acesso a vários tipos de serviço: promoção das marcas nas nossas redes sociais, prospeção de feiras e eventos, contactos comerciais com interessados nas marcas, o que tem acontecido a nível nacional e internacional (resultado das exposições), acesso a serviços negociados para um coletivo (design, fotografia, comunicação…).

Apesar de ser um projeto muito recente (completamos um ano em novembro), temos sido muito bem-recebidos pelo público em Portugal e no estrangeiro, sendo que isso não tem deixado muito tempo para o trabalho de back office, que é muito importante em fase de lançamento e consolidação de projeto. Assim, o segundo semestre será focado na implementação de uma série de planos que temos para o futuro próximo, assim como colocar em andamento uma série de parcerias que consideramos fundamentais para o projeto.

“Acreditamos que é no coletivo que está a força e Portugal é um país pequeno, por isso é urgente que os vários agentes culturais e associações se unam”

Para além das informações disponíveis no site, a Portugal Manual vai dinamizando vários workshops, correto? Pode falar-nos dos workshops agendados para os próximos meses de verão?

As experiências Portugal Manual estão disponíveis durante todo o ano. Apesar disso, temos recebido alguns convites para promoção das mesmas em eventos nacionais. Destaque para a participação da Portugal Manual, como promotor de oficinas que promovem o saber fazer, nos seguintes eventos:

Feira Feita, 14 – 15 Setembro de 2019, Sábado e Domingo: 10h – 19h
Um evento que junta a comunidade criativa local providenciando a oportunidade ao visitante de comprar diretamente ao produtor/maker, mas acima de tudo ficar a conhecer diversos estúdios e oficinas onde pode ir fazer por si mesmo dentro da cidade de Lisboa. Promovido pela FICA – Oficina Criativa em colaboração com a Câmara Municipal de Lisboa. 

Rhi-Think, 14 – 15 Setembro de 2019
Estaremos a promover um workshop com a Maria Descalça, A Avó Veio Trabalhar, a Maria Pratas e o projeto TASA.

Portugal Manual na Maria Granel, datas ainda por fechar, mas será em outubro de 2019.

Greenfest, 17 a 20 de outubro
Promoveremos experiências Portugal Manual durante o evento.

Para além de possíveis workshops, que tipo de experiências costumam organizar? Há já agenda/ideias em carteira?

Neste momento estamos a trabalhar nos itinerários Portugal Manual por várias zonas do país que pretendemos divulgar no início de 2020.

A Filipa, de um ponto de vista geral, sente-se feliz com o progresso da Portugal Manual? O balanço é positivo?

Neste momento, sinto que a Portugal Manual, em menos de um ano de vida, se tornou muito maior que eu e, por vezes, isso dá-me aquele frio na barriga e alguns receios, mas esse é o meu motor de arranque, a vontade de superação, por mim e pelas pessoas que represento.

Os desafios têm sido muitos e foram meses de aprendizagem diária. Mas, no meio de todo este processo, não posso deixar de falar das pessoas que fazem isto tudo ser possível, que apesar de não aparecerem são peça fundamental para que a Portugal Manual exista. O balanço é muito positivo na certeza que trabalhamos para a promoção de um país pelas mãos do artesanato. E que bonito é o caminho que se avizinha!

“Acredito que a procura de produtos feitos à mão, muito mais que uma tendência, é um estilo de vida!”

E em termos de desafios para o futuro? Qual é a visão da Filipa para o futuro do artesanato contemporâneo português?

Ao contrário dos discursos de há uns anos, que previam o desaparecimento do trabalho artesanal, assistimos a um crescimento do interesse pelo produto feito manualmente na sociedade contemporânea. Porque ele tem um cariz sustentável, temática em crescimento nos últimos anos, e também uma aura de pertença.

Contrariando os movimentos criados pelo fast fashion, há um nicho que procura por produtos com alma. Questionando menos o preço e questionando mais a história. Novas gerações de compradores, que nasceram numa era plenamente digital e que, por essa falta de identidade e sentimento de pertença, exigem produtos diferenciados e que tenham um sentido cultural acrescido. Acredito que a procura de produtos feitos à mão, muito mais que uma tendência, é um estilo de vida!

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