Revista Rua

2019-11-19T10:11:30+00:00 Cultura, Fotografia

Filipa Leite Rosa: ” É preciso estar sempre atento e pronto a disparar, mas a fotografia de rua é muito mais do que isso”

©Filipa Leite Rosa
Nuno Sampaio
Nuno Sampaio18 Novembro, 2019
Filipa Leite Rosa: ” É preciso estar sempre atento e pronto a disparar, mas a fotografia de rua é muito mais do que isso”

A fotografia de rua é um ato de perseverança de paciência, onde estar no sítio certo à hora certa pode tornar este desafio ainda mais difícil. As tuas fotografias espelham todos estes elementos?

Penso que a fotografia de rua é precisamente um misto desses dois aspetos. É preciso estar sempre atento e pronto a disparar, mas a fotografia de rua é muito mais do que isso. Na verdade não me considero uma fotógrafa de rua mas sim uma aprendiz. Os meus maiores desafios neste momento passam por ultrapassar o meu desconforto em me sentir observada quando estou a fotografar e ultrapassar o medo de incomodar ou ofender os sujeitos das minhas fotografias. Fiz fotografias em que a minha paciência foi essencial, mas a maioria são o resultado de uma procura mais ou menos caótica de algo interessante e uma execução pensada – mas em geral apressada –  na esperança de ter conseguido a fotografia sem que o sujeito se tenha apercebido. Com muita prática espero ultrapassar estes desafios e a partir daí poder evoluir na fotografia de rua e encontrar a minha identidade nesta forma de arte.

Documentar o que acontece não descarece de uma narrativa, de uma história ou de uma visão. Passar todo um acontecimento numa fração de segundos para dentro de uma fotografia é o teu maior desafio?

Sim, é um grande desafio. Neste tema a composição é fulcral, pois é possível contar uma história numa fotografia sem que todos os elementos, sujeitos e ações estejam presentes na sua totalidade. Ter a capacidade de selecionar o que incluir e o que não incluir pode fazer toda a diferença. Saber fazer esta seleção e, sobretudo, fazê-la rapidamente, é para mim crucial.

Quando viajas e tudo é uma novidade qual é a tua abordagem?

Quando viajo quero registar tudo como uma verdadeira turista. Mas, por ser fotógrafa, sinto que isso enriquece todas as minhas viagens porque acabo por procurar/encontrar situações interessantes que de outra forma dificilmente encontraria. Sinto que a fotografia mudou profundamente a forma como olho para o mundo –  é quase como ter aprendido a falar outra língua.

Mas para além de fotografar como turista, ultimamente também tenho feito o exercício de fazer um pouco de fotografia de rua em cada viagem. Percebi juntamente com o meu namorado (que também é fotógrafo) que a fotografia de rua é uma atividade a solo e, por isso, tentamos planear sempre uma ou duas horas sozinhos (separados) para esse exercício. Bastou a primeira vez para percebemos que era a abordagem certa para nós.

É mais fácil fotografar quem ou o que não conhecemos?

Penso que por um lado é mais fácil fotografar o que não conhecemos, porque quando tudo é novidade estamos mais atentos, o nosso olhar é atraído por tudo o que poderá ser diferente ou novo e somos um livro em branco pronto para ser preenchido. Quando já conhecemos o sujeito da nossa fotografia o livro já não está em branco e vemos tudo através de um olhar parcial ou viciado pelas nossas próprias experiências.

Por outro lado, fotografar quando já conhecemos o sujeito, também tem muitas vantagens óbvias, por exemplo, se o sujeito for uma ou mais pessoas cujas vidas e histórias conhecemos, torna-se mais fácil perceber o que poderá ser essencial para fazer uma fotografia com significado. No fundo, se o objetivo da nossa fotografia é contar uma história, é imperativo conhecê-la primeiro com mais ou menos detalhe.

O que é que te dá mais prazer fotografar?

Interações humanas é o que me dá mais prazer fotografar. Há micro gestos, olhares, trejeitos, expressões faciais que no dia a dia passam despercebidos, mas capturados numa imagem podem ter um impacto enorme e revelar muito da natureza das relações retratadas.

Qual foi a cidade que mais gostaste de fotografar? Porquê?

Terei de escolher mais do que uma: Florença, porque foi a minha primeira verdadeira experiência a fotografar sozinha com o objetivo de fazer fotografia de rua. Florença é uma cidade apinhada de turistas e esse facto acabou por me ajudar a sentir despercebida e a conseguir fotografar com uma maior proximidade. Foi uma experiência importante para mim.

Escolho também a ilha de São Tomé, Kashan no Irão e quase todos os lugares onde estive em Cuba. Adorei fotografar nestes lugares porque simplesmente são lugares que adorei visitar.

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