Revista Rua

Filipa Sáragga, a beleza no expoente máximo da cor

A artista plástica natural de Lisboa está em entrevista na RUA.
Detalhes da nova coleção de Filipa Sáragga | Fotografia ©Noa Noa
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira14 Julho, 2020
Filipa Sáragga, a beleza no expoente máximo da cor
A artista plástica natural de Lisboa está em entrevista na RUA.

Se tivéssemos que encontrar uma palavra para descrever a artista plástica Filipa Sáragga seria, sem dúvida, “cor”. A beleza no expoente máximo da cor. Com a pintura como método para viver os seus dias e acalmar o seu espírito, Filipa Sáragga é natural de Lisboa, mas vive no admirável mundo da arte, onde as possibilidades são infinitas. “Durante muitos anos resolvi-me através da pintura. Era como se aquilo que eu não pudesse contar, apenas as minhas cores gritavam. E a cor resolveu-me tantos problemas, sem que ninguém entendesse”, conta-nos. Numa entrevista que antecipa a nova coleção de obras de Filipa Sáragga, a RUA conta a história de uma mulher cuja arte é capaz de “matar os pesadelos”.

Filipa Sáragga ©Noa Noa

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer melhor a Filipa Sáragga. Pode começar por falar-nos um pouco de si? Naturalidade, idade, formação, hobbies, etc. 

Tenho 36 anos, nasci em Lisboa e sou formada em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.

Gosto de ler, dançar, cozinhar, contemplar a natureza (que talvez seja hoje uma das minhas maiores fontes de inspiração). Gosto de escrever, tenho três livros editados e um deles, A Princesa Azul e a Felicidade Escondida, está incluído no Plano Nacional de Leitura. Este livro foi apresentado pelo nosso atual Presidente da República.

Em termos de desporto, monto a cavalo, que era algo que sempre gostei desde pequena, mas que só há uns tempos me tenho vindo a dedicar mais à séria.

A Filipa é, para além de muitas coisas, uma reconhecida artista plástica. Gostávamos que nos falasse do início do seu percurso. Como é que tudo começou?

Uma vez, numa entrevista em que a minha mãe estava presente, perguntaram-me com que idade comecei a pintar. Eu respondi “Quando comecei a brincar às bonecas”, mas a minha mãe retorquiu imediatamente: “Não, Filipa, isso não é verdade. Nunca brincaste às bonecas, só pintavas!” Portanto, a necessidade plástica nasceu comigo e está em mim. Nunca tive dúvidas daquilo que queria fazer. E penso que isso é uma grande bênção!

Foi aos 15 anos, quando comecei a ter aulas intensas com o mestre Luís Guimarães, que fui aperfeiçoando aquilo que já tinha aprendido. Passava verões inteiros com o mestre. Toda a minha adolescência despendi de idas à praia e programas característicos da adolescência para pintar. Pintava muitas horas. Durante muitos anos acordei sempre às cinco da manhã para pintar. Os amigos dos meus pais olhavam para mim com uma certa estranheza (risos).

Fotografia ©Noa Noa

A pintura como expoente máximo da beleza da arte. Considera-se uma artista no sentido nato da palavra? Na sua opinião, o que faz de si uma verdadeira artista?

Não me considero. Acho que nenhum artista se considera artista. Nem sei se isso não será pretensioso. Sei que quanto mais estudo, mais leio e mais trabalho, mais percebo que tenho tanto para fazer. Agora que a arte está em mim, isso não tenho dúvida! Se eu não criar (pintar, desenhar, escrever ou até mesmo cozinhar), enlouqueço. Preciso de estar constantemente a questionar-me e a superar-me.

A beleza das cores e a sua harmonia podem facilmente servir como descrição, à primeira vista, das suas obras. Concorda?

Concordo. A cor é o meu forte. É aquilo que domino com mais facilidade.

Os elementos infantis destacam-se em algumas das suas obras. Que mensagem pretende passar ao incluir os personagens do imaginário infantil nas suas telas?

Incluí elementos infantis numa coleção específica, que tinha um propósito muito específico. E, claro, também o faço com frequência para ilustrar os meus livros, pois eles são também dirigidos a crianças.

Essa coleção, que expus em 2019, chamava-se That’s All Folks e foi uma coleção que teve uma história engraçada. Era uma coleção de arte sacra, algo até “pesado”, os fundos daquelas obras tinham-me demorado mais de dois anos a ser feitos. Não sei quantas horas perdi naqueles trabalhos. Até que um dia um cão bebé dos meus pais ficou trancado na garagem onde eu pintava na altura e, como as telas são de linho, ele roeu e comeu metade dos trabalhos.

Passei dias a chorar! Era muito trabalho no lixo. E meti as telas de lado. Até que um dia (anos mais tarde) voltei a pegar nelas, cortei tudo o que estava rasgado e decidi dar um cunho divertido a um trabalho tão sério. Foi aí que viajei pelo imaginário infantil, que sempre fez parte de mim e que dei continuação ao trabalho “perdido”.

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Teve um feedback positivo dessa exposição?

Muito. Recebi centenas de pedidos de pessoas que queriam adquirir as obras. A Time Out deu-me um apoio fora de série e a própria Disney deu-me os parabéns pelas obras e chegou a publicar no site uma das minhas pinturas.

A ligação à infância está muito presente na sua vida. A Filipa é, inclusive, escritora. Pode falar-nos um pouco do livro A Princesa Azul e a Felicidade Escondida? O que a levou a escrever este livro? 

Um dia ia a caminho de Alcácer do Sal, onde os meus pais hoje em dia praticamente vivem. Ia a pensar em todas as crianças que, de alguma forma, são diferentes. Que não encaixam “no dito normal” e que, por algum motivo, as histórias em que as princesas lindas casam sempre com príncipes igualmente lindos não estão ao seu alcance.

Nesse dia, decidi criar uma princesa diferente, azul, que descobre que o azul é a cor mais bonita do mundo, por ser a cor do céu e a cor do mar e se torna numa grande influência para todo o reino, pois através dela todos descobrem que a felicidade vem de dentro. E que todos podemos ser tudo aquilo que sonhamos!

“Nesta quarentena revi toda a minha vida e, numa espécie de flash, encontrei-me. Foi nesse encontro que a minha alma e as telas também se encontram.”

Hoje em dia, a Filipa mantém-se ligada a projetos de cariz solidário, principalmente relacionados com a infância. Correto? Pode falar-nos um pouco dessa vertente na sua vida? 

A vertente social está ligada a mim e em mim. Neste momento, não tenho nenhum projeto próprio de cariz social, nem quero ter. Vou fazendo sempre que posso. Idas às escolas, prisões, hospitais, entre outros. É algo que me preenche e que me dá sentido à vida. Também me ajuda a relativizar aquilo que não interessa e a valorizar o essencial.

Voltando às obras de arte, gostaríamos de saber qual é a sensação de ter uma obra sua num programa de televisão (risos). Cristina Ferreira rendeu-se ao seu talento, não foi? Este reconhecimento tem impulsionado o trabalho da Filipa? 

A sensação é boa porque é sempre bom saber que os outros gostam do nosso trabalho. A Cristina já me apoiou bastante e disse-me que gostava muito do meu trabalho. Sou-lhe grata por isso.

Neste 2020, com todos os constrangimentos causados pela pandemia, como está o processo criativo da Filipa? 

A pandemia mudou tudo e todos. Acredito que, na História da humanidade, irá existir o antes e o depois da pandemia. As prioridades mudaram. As pessoas mudaram. E quem não mudou deveria ter mudado. Pois o sofrimento de tantas famílias não poderá passar alheio aos demais.

Nesta quarentena revi toda a minha vida e, numa espécie de flash, encontrei-me. Foi nesse encontro que a minha alma e as telas também se encontram.

Está a trabalhar numa nova coleção, correto? O que podemos saber já sobre os novos trabalhos? 

Estou neste momento a criar aquela que acredito ser a coleção mais introspetiva de toda a minha vida. Infelizmente, ainda não posso adiantar muito sobre ela – embora vos vá facultar imagens exclusivas com detalhes das obras (risos). É uma coleção que conta sonhos, escreve histórias e retrata a vida. Uma coleção feliz, esperançosa, com imagens fortes envoltas em fundos e corpos leves. Porque os sonhos são leves.

Houve dias da quarentena em que pintei 15 horas seguidas e, para não perder as forças, ia metendo umas bolachas e fruta à boca. Deitei fora muitos desenhos, foi uma criação muito difícil, que exigiu muito estudo e muito de mim, não só a nível físico como também psicológico. Foram meses até concluir o primeiro trabalho que definia toda a linha da coleção.

“Uma vez, a Paula Rego disse-me: “Filipa, você tem a sorte de ser como eu. Através das suas pinturas poderá tocar naquilo que mais gosta e poderá também matar os seus pesadelos”.”

No seu Instagram, escreveu: “Estou a meio da coleção que mais exigiu de mim até hoje, sobretudo a nível pessoal! Uma coleção forte, com cores leves (que representa esta fase da minha vida) e cheia de conteúdo”. Considera que esta fase da sua vida exige que olhe para a sua arte de uma maneira diferente? Pode justificar-nos esta declaração?

Considero. A arte como todos sabemos é um processo catártico. Uma vez, a Paula Rego disse-me: “Filipa, você tem a sorte de ser como eu. Através das suas pinturas poderá tocar naquilo que mais gosta e poderá também matar os seus pesadelos”.

Durante muitos anos resolvi-me através da pintura. Era como se aquilo que eu não pudesse contar, apenas as minhas cores gritavam. E a cor resolveu-me tantos problemas, sem que ninguém entendesse. Criei telas e telas cheias de tudo e cheias de nada, com medo do julgamento dos outros, com medo de mim própria. Onde apenas através da cor me manifestava. Esta quarentena tirou-me os medos, levou-me as vergonhas e trouxe-me os sonhos. Nela pinto aquilo que vejo, aquilo que sinto e aquilo que perspetivo.

A Filipa é, como dizemos no Norte, uma mulher com bichinhos-carpinteiros, ou seja, está sempre envolvida em novos projetos, novas aventuras. Por isso, é impossível não perguntarmos que surpresas tem na manga para os próximos tempos. Há mais novidades a caminho?

Talvez um novo livro.

 Para terminarmos, gostaríamos de perguntar à Filipa quem são as suas influências no momento em que se refugia no seu atelier. Quem é que a inspira, seja de que modo for? Pintores, músicos, escritores, etc. 

Deus. Os meus pais. Antoine S Exupéry, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Almada Negreiros, Malhoa, Picasso, Frida, Amália, Ana Moura.

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