Revista Rua

2020-03-16T12:47:04+00:00 Opinião

Fique em casa

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
16 Março, 2020
Fique em casa

O Covid-19 expôs a nossa fragilidade enquanto sociedade, enviou-nos para casa tal como um lavagante que se esconde num buraco quando lhe apontamos um foco de luz.

Abastecemo-nos de tudo um pouco para podermos passar uns dias resguardados; ou então não, e acontece-nos como ao Ewan McGregor no Trainspotting!

Há uma lista infindável de livros para ler, filmes para ver, coisas que se vão acumulando e fica sempre para o “próximo fim-de-semana”. Mas agora há tempo para tudo isso, porque só nos basta ficar em casa para combater o vírus.

Basta não interagirmos socialmente. Basta ligarmos apenas ao Whatsapp, ao Facebook e Instagram; aí o vírus é outro.

Há uma série de aplicações para fazer exercício: Treino de Prancha, Barriga Tanquinha e outras mais para quem quer exercitar o físico.

Apanhar sol também é bom; ou ver a chuva a cair e a água a escorrer lentamente pelo vidro. Bucólico. Olho para o terraço e vejo o vaso com a hortelã a ficar cada dia mais verde e volumoso.

Nasci na cidade, a aldeia sempre esteve ali ao lado e o resto do mundo no fim da rua. As coisas que nos lembramos quando estamos em isolamento: quando, miúdo, levava a bicicleta no comboio para Arrifana e descia vezes sem conta aqueles matos, a pensar que um dia fazia aquilo de moto.

Ou como era um exímio caçador, munido de uma fisga, no campo de baixo junto à cerejeira; andavam mais pássaros junto às colmeias mas tinha medo das abelhas; que jeito me dava agora esse Y de madeira com uma borracha atada para espantar as pombas que teimam furar por entre as telhas e acordar-me às seis e meia da manhã.

Tenho na cabeça cheiros, aromas, sabores de infância. Sempre gostei de cozinhar e, na faculdade, o Professor Barbedo de Magalhães, explicou-nos a independência do ser quando se sabe cozinhar, por paradoxal comparação do gráfico da cementação de um aço com o gráfico de um frango a assar. Depois descobri que cozinhar é a certeza de ter sempre companhia à mesa; mesmo quando estamos sozinhos.

Eu gosto de cozinhar. Sinto-me tranquilo, com cariz criador. Gosto de tocar na comida, sentir a textura dos alimentos, ficar com as mãos a cheirar a coentros.

Neste período de isolamento, tenho cozinhado: feijoada é óptimo porque dá para fazer um panelão e congelar para os próximos dias; os estufados também ficam bem aquecidos no dia seguinte e a mãe já disse que matou muitos galos. No congelador, preparado para o que der e vier, há alheiras, bifes, cação, bacalhau, vieiras, lavagante. Na minha cabeça há imaginação; quero fazer umas conservas de legumes e umas tortilhas com guacamole e marisco. Há tempo porque tenho que ficar em casa.

E estava eu a deambular aqui, dando uma de Pipoca Mais Doce ou de José Avillez quando, num hino ao amor, Salvador Sobral e o André Santos entraram pelo telefone a dar um concerto memorável.

Seguiram-se o João Gil, o Pedro Abrunhosa e tantos outros que nos animam a ficar em casa.

Obrigado. Obrigado por haver música. Obrigado por haver compaixão. Obrigado porque nos sentimos mais próximos. Obrigado porque estamos todos juntos.

Vamos ficar em casa.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

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