Revista Rua

2019-04-11T12:35:28+01:00 Cultura, Música

First breath After Coma – Uma vénia à música

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©Nuno Sampaio

Roberto Caetano (guitarra e voz), João Marques (teclado e voz), Rui Gaspar (baixo e voz), Telmo Soares (guitarra e voz) e Pedro Marques (bateria e voz), são os nomes por detrás, não apenas de uma banda, mas de uma pluralidade artística que transforma tudo em que tocam numa nova definição de estilo na música portuguesa. Fomos recebidos na “Casota”, situada numa pequena localidade no distrito de Leiria, cidade mãe dos First Breath After Coma. Este lugar, onde vivem há sete meses e onde a magia da música renasce, é também a “casa” de outras bandas, de outros músicos e de outras artes.

Nuno Sampaio21 Março, 2019
First breath After Coma – Uma vénia à música
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NU, o vosso mais recente trabalho, não é apenas um discurso musical, mas também uma peça visual, um lugar onde vocês se encontram e, ao mesmo tempo, se mostram. Esta ligação da música com uma interpretação cinéfila é uma forma mais contundente de passar uma mensagem?

Este álbum visual não foi algo pensado de forma a passar uma mensagem de uma forma mais eficaz ou de forma a que as pessoas entendessem a mensagem de uma forma diferente. Isto era algo que estava muito dentro de nós e tínhamos muita curiosidade de criar algo visual e ao mesmo tempo sonora. As imagens não complementam ou acrescentam ao som, mas funcionam como um todo. Um não funciona sem o outro. É um todo, uma peça única.

O filme NU começa com o significado de “Fragilidade”. Na sinopse também é referida a “…fragilidade do ser humano, os seu maiores medos e forças…”. Este é um trabalho que revela também os vossos medos e também as vossas forças enquanto espaço que ocupam no universo musical? Os nossos maiores medos podem ser as nossas maiores forças?

Esses medos, forças, angústias e fragilidades que estão tão expostos tanto na música como no filme, foram as bases para a composição das músicas e também para as filmagens. Acaba por ser um reflexo da maneira como nos sentimos no universo musical. Isto é a nossa vida fazemos isto 24h por 7 dias e acaba por ser uma realidade muito presente; é sempre uma batalha entre nós e esta vontade, este sonho que temos. É um caminho difícil de trilhar e por isso acaba sempre por estar espelhado nos temas das músicas, umas mais que outras. A “Change” é a que provavelmente está ligada a este assunto – a relação connosco ao fazer música, a sala de ensaios, o facto de vivermos juntos estes meses todos.

NU é também uma ode às coisas simples, uma referência a outros tempos, a uma infância reveladora e crua. Para vocês o mundo precisa de se voltar para a simplicidade? É urgente uma mudança?

Na questão sonoro-visual sentimos que há um excesso na quantidade de estímulos e informação. Querem à força toda atrair a atenção das pessoas: uma luta por atenções. É interessante explorar as coisas de uma maneira mais minimal e mais despida. Foi isso que tentamos fazer neste álbum. Em vez de acrescentarmos elementos decidimos retirá-los e despir as músicas e fazer coisas mais simples e mais cruas.

Nos outros álbuns tínhamos músicas mais orquestrais, mais complexas. Neste álbum é tudo mais exposto, expomos mais os instrumentos cada vez que estão a ser tocados.

Sei que foi complicada toda a produção do filme. Podem contar melhor essa história?

Podemos contar uma história. Uma das ideias que tínhamos para um dos capítulos era para ser filmada debaixo de água, num tanque. Durante as filmagens a bolsa estanque da máquina deixou entrar água. Apenas reparamos depois. Tivemos que retirar a máquina e secá-la. O material não ficou danificado, mas tivemos que abortar as filmagens. Entretanto tivemos que pensar noutra ideia porque já não ia ser possível filmar naquele espaço. Dentro da ideia que tínhamos, tentamos improvisar um vídeo nesse local onde estávamos a filmar. Resolvemos filmar numa capela e acabou por ser um dos vídeos que mais gostamos. Acabou por representar ainda melhor a ideia que tínhamos inicialmente, o alívio, o descanso da personagem.

“Heavy” (primeiro single) e “Change” são as músicas que já podemos ouvir. “Heavy” é uma canção de compassos rítmicos que nos causa ansiedade, mas percebemos que é necessária para a liberdade que a música revela: um alívio. “Change” funciona ao contrário, liberta-nos para nos voltar a prender num labirinto de coisas, de objetos. Estes dois primeiros singles são os alicerces para a casa NU?

Cada música é única e funcionam como peças de um puzzle, completam-se. Não há uma que agarre o álbum todo. São duas músicas que fizeram sentido. A “Heavy” por uma função disruptiva, de choque. Queríamos mostrar algo mais bruto. A “Change” por ser uma música que fala destes últimos meses que passámos aqui juntos a viver e a fazer música.

 O projeto “Casota Collective” foi criado com que objetivo? “Casota” é a vossa casa?

Nós já fazíamos os nossos vídeos antes da “Casota” existir. Entretanto fez sentido, depois de alguns de nós acabarmos os estudos e na área audiovisual, começar a fazer vídeos para outras pessoas. Também tínhamos muita curiosidade de gravarmos para outras bandas. Hoje, a Casota, é o nosso sidekick, aquilo que juntamente com a banda nos sustenta.

Há quanto tempo vivem todos juntos e de que maneira isso influencia o trabalho. É mais homogéneo?

Vivemos juntos há sete meses, desde junho do ano passado. À primeira vista parece que estamos sempre juntos, os cinco, enfiados no estúdio, mas acabou por acontecer o contrário. Como estamos a viver na casa junto à sala de ensaio, tínhamos a possibilidade de, a qualquer momento, poder descer as escadas e tocar. Isso fez com, ao invés de combinarmos uma hora para ensaiar, passou a ser algo mais individual. Às vezes estava apenas um ou dois elementos a ensaiar. As músicas tornaram-se mais íntimas do que as dos álbuns anteriores.

©Nuno Sampaio

Realizam todos os videoclipes desde o primeiro álbum. O facto de realizarem todo o trabalho à volta de uma música revela uma união e uma predisposição para uma conceção artística mais estruturada e quase sem intervenientes do exterior. Esta filosofia de estar e de pensar a obra revela-se nas histórias dos vossos trabalhos?

Sim. Felizmente ao longo dos últimos anos capacitamo-nos a nível de conhecimento e também aquisição de novo material e equipamento o que possibilitou fazer os nossos vídeos e gravar as nossas músicas. Sempre tivemos este hábito e, para nós, isto é o que faz sentido: desde a conceção, à ideia, até a tudo estar polido e finalizado somos apenas nós os intervenientes. Não faz sentido para nós haver uma altura em que nos desligamos e que entregamos o nosso trabalho a outra pessoa qualquer que não esteve presente desde o início.  Por um lado, parece um bocado control freak, por outro sabemos que o resultado é sempre mais consistente, mais coeso. No final tudo isto se reflete no resultado final do nosso trabalho.

 Li numa entrevista que ambicionam um dia viver apenas da música e que, para já, ainda não é possível. Pensam que será um caminho longo até o conseguirem? É mais difícil porque estamos em Portugal?

Não é novidade para ninguém que é complicado viver da música em Portugal. Muito devido à nossa localização geográfica e à nossa pequena dimensão. Passa por cada vez mais, de nos adaptar à forma como as coisas funcionam nos dias de hoje. A nossa meta é fazer disto a nossa profissão.

 A banda foi fundada em 2012. Em seis anos lançaram três álbuns de originais, sendo NU o terceiro. Quais foram as mudanças mais significativas dos dois últimos para este?

A nível sonoro no álbum anterior utilizamos mais reverb, mais ambiências, era algo mais preenchido. Neste álbum tentámos fazer tudo mais cru, mais seco, mais nu. A nível concetual todo este álbum é mais íntimo, mais pessoal. Uma das grandes diferenças para os outros álbuns é que antes inspirávamo-nos em coisas exteriores, – filmes, paisagens, viagens ou lugares – neste a inspiração vem de coisas mais interiores, sentimentos. Antes era de fora para dentro e hoje de dentro para fora.

Neste momento vocês são provavelmente a banda mais representada no panorama indie da música portuguesa. Também sei que com este último trabalho a ideia é conquistar um pouco o mercado lá fora. Acham que estão no caminho certo?

Podemos dizer que não é uma ambição nossa, mas sim algo que é natural. Queremos mostrar a nossa música ao maior número de pessoas possível e isso não está definido por fronteiras. Hoje, de uma forma mais barata e rápida, temos acesso a qualquer país da União Europeia. É tão fácil deslocarmos que faz sentido mostrar a nossa música ao maior número de pessoas possível e não apenas ao maior número de pessoas aqui em Portugal. Para este álbum já temos uma tour com 30 datas fora de Portugal.

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