Revista Rua

2020-05-11T11:59:08+00:00 Cultura, Fotografia

Fotografia em tempo de emergência

Projeto fotográfico relata a vivência num lar residencial sénior, em Lisboa, em pleno estado de emergência.
©Miguel Furtado Martins
Redação
Redação11 Maio, 2020
Fotografia em tempo de emergência
Projeto fotográfico relata a vivência num lar residencial sénior, em Lisboa, em pleno estado de emergência.

Por Miguel Furtado Martins e Maria Rosa Gonçalves-Ferreira/Fotografia: Miguel Furtado Martins

De repente, o mundo ficou de pernas para o ar. Apesar da ameaça, há muito latente, de um vírus conhecido, designado internacionalmente por Corona Vírus, ninguém parecia, ou melhor, ninguém estava preparado para enfrentar uma tal ameaça à escala global, e todos tiveram de aprender a defender-se da doença resultante, capaz de afetar todos os seres humanos por contágio de proporções pandémicas, sendo de  maior gravidade para os mais idosos que, como tal carregam patologias que os tornam naturalmente mais frágeis e indefesos.

Miguel Furtado Martins, de 29 anos, atualmente psicólogo da Associação para Serviços de Apoio Social (ASAS), é também fotógrafo de rua. Com dois projetos em andamento, titulados Efemeridade – Percursos do Quotidiano e Regresso às Origens – Aproximação da fotografia à pintura, viu-se, também ele, obrigado a mudar o seu dia a dia, suspender o que tinha em preparação e virar a sua objetiva para esta nova realidade, que trouxe o medo ao mundo e o fez parar.

Confinado entre a casa e o local de trabalho, mas sentindo uma sempre crescente vontade de fotografar, foi com a maior naturalidade que decidiu dar corpo a um novo projeto, Fotografia em Tempo de Emergência, com o objetivo de relatar, através de fotografias a preto e branco, a vida vivida, em pleno Estado de Emergência, no lar para a idade sénior, que integra a Associação onde trabalha, e onde residem  63 pessoas, cuja média de idade ronda os 90 anos.

Sendo os mais idosos um grupo de maior risco comprovado, por serem os que, naturalmente, têm maiores debilidades de toda a ordem, o isolamento, como defesa da vida, foi-lhes imposto durante um longo período de tempo. Com a interdição das visitas dos familiares, amigos e voluntários, e privados das diversas atividades ocupacionais e recreativas, a suscetibilidade, a preocupação consigo próprios e com os seus, a incerteza e a solidão potenciam situações de zanga, angústia e medo. Os técnicos, e os restantes trabalhadores da casa, esforçam-se por manter o bem-estar físico e psicológico dos residentes, as rotinas são respeitadas, dentro das novas regras, minimizando sentimentos negativos através da proximidade possível, do diálogo constante e da disponibilidade para escutar. Os encontros com os familiares, e outras pessoas significativas, passam a ser por videochamadas e, não rara as vezes, através das janelas, assim garantindo a distância de segurança. Mas as expressões não enganam, as faces, onde os sorrisos escasseiam, revelam a falta que lhes faz a presença física dos entes queridos, embora o recurso aos novos meios de comunicação contribuam para apaziguar a angústia e alimentar a esperança de um breve retorno à normalidade. O jardim interior, espaço precioso, ainda mais nestes tempos de confinamento, sempre muito cuidado, e oportunamente desinfetado pelos serviços especializados da Câmara da cidade, é o refúgio preferido por muitos, que ali acorrem para se sentirem mais livres, apanhar sol e colocar em dia as suas leituras.

As pausas, para cumprimento das recomendações de higiene, são constantes, o distanciamento rigoroso é assegurado e, a toda a hora, explica-se, com redobrada atenção aos mais ansiosos, a razão de tantas alterações. Os trabalhadores, de todas as valências, desdobram-se em cuidados, não poupando nos gestos de carinho, nem nos sorrisos que têm de substituir os abraços e beijos de que tanta falta sentem.

Sem cabeleireiro, são as chefias que assumem a responsabilidade dos cuidados estéticos, não negligenciando a importância do aspeto, porque, afinal, a autoestima é ponto essencial para o equilíbrio, seja qual for a idade.

A verdade é que nada está igual ao que era, e muito do que, no passado, se recomendava como boas práticas para um envelhecimento ativo, é, nas circunstâncias atuais, sério fator de risco. Certo, certo é que temos de aprender e ensinar como viver com esta nova realidade, pelo menos até que a ciência vença o vírus, que veio contaminar os nossos dias e suspender as nossas vidas.

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