Revista Rua

Francisca Van Zeller, o vinho como ice breaker de todos os momentos

“A primeira vez que fiz um blend tinha dez anos. Mas sempre cheirei vinhos com o meu pai desde pequena e era típico provar o vinho com o dedo.”
Francisca Van Zeller | Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira24 Agosto, 2020
Francisca Van Zeller, o vinho como ice breaker de todos os momentos
“A primeira vez que fiz um blend tinha dez anos. Mas sempre cheirei vinhos com o meu pai desde pequena e era típico provar o vinho com o dedo.”

Cresceu entre vinhas, com um apelido que lhe deu um legado de responsabilidade. Jovem, comunicativa e apaixonada pela tradição do Douro e dos vinhos da região, Francisca Van Zeller é um rosto da nova geração vinícola que promete revolucionar a estratégia de comunicação dos vinhos portugueses e impor a qualidade daquilo que nos torna únicos: o costume de um povo e a excelência dos vinhos do Porto. Com a Quinta Vale D. Maria, uma das marcas do grupo Aveleda, como cenário desta entrevista, a RUA conversou com a brand manager e consultora Francisca Van Zeller sobre memórias, sonhos e desafios.

Fotografia ©Nuno Sampaio

A Francisca cresceu no meio de vinhas. As suas memórias de infância estão ligadas a este percurso da produção de vinho? Que memórias guarda desses tempos?

Brinquei muito! Tive a sorte de crescer rodeada de natureza, animais e outras crianças, desde primos a filhos de amigos. As vinhas e o Douro eram o meu campo para fazer casas e descobrir caminhos, fazer explorações ou montar burros. Para mim, isto não era um negócio, essa relação só aconteceu muito mais tarde. A vinha e o campo sempre me trouxeram memórias tão positivas que, de repente, isso ter virado um negócio até me faz, de certa forma, resistir, porque para mim isto tem de ser divertido. A minha vida sempre foi à volta de muita gente e eu adoro isso. Quantas mais pessoas, de diferentes partes do mundo, estiverem à minha volta, melhor! Penso que, no vinho, continuo a poder alimentar esse lado, não só de viajar, mas também de receber as pessoas.

Costuma dizer-se que o vinho liga as pessoas. A Francisca também sente isso?

Sim, completamente! É um ice breaker de conversas. Quando trabalhava no hotel Six Senses Douro Valley, ninguém sabia quem eu era, mas quando eu dizia que produzia vinho isso virava o foco das atenções. Gera muita curiosidade! O vinho é um dos poucos produtos da natureza que consegue envolver tantas histórias e tantas sensações.

O facto de ser do Douro é uma sorte, mas considera que era isto que queria fazer a nível profissional? O que é que estava nos seus planos quando era mais nova?

Eu sempre quis fazer vinho! Quer dizer, a primeira coisa que quis ser foi treinadora de golfinhos (risos) Acho que, como toda a gente, sempre tive uma panóplia de ideias acerca do que queria ser e fazer. Adorava sonhar com essas perspetivas. Mas, concretamente, a primeira vez que fiz um blend, fora da minha zona de conforto, tinha dez anos. Sempre cheirei vinhos com o meu pai desde pequena e era típico provar o vinho com o dedo, mas adorei essa experiência, na altura, e foi quando eu disse: “Eu quero fazer isto para o resto da minha vida!”. Mas o ‘só fazer isto’ não me alimenta essa tal veia da comunicação e esta vontade que eu tenho de estar muito próxima das pessoas.

Quinta Vale D. Maria

“A primeira vez que fiz um blend tinha dez anos. Mas sempre cheirei vinhos com o meu pai desde pequena e era típico provar o vinho com o dedo.”

Procurou, de facto, formação numa outra área. Primeiro, a Francisca tirou História e depois um mestrado em Jornalismo. Essa vertente de aliar a história à comunicação sempre foi muito importante? É interessante, hoje em dia, compilar estes pilares todos da sua formação?

Exatamente. O vinho, enquanto produto, tem de ser bom, como é óbvio, e tem de proporcionar uma experiência agradável a quem o bebe. Depois, a densidade que o vinho tem cresce muito mais consoante a história que está por detrás da sua produção. Acho que, a partir do momento em que percebi que podia estar em contacto com as pessoas e contar uma história que me alegra e se refere às minhas raízes, ao meu país e à minha região, para além de me trazer várias memórias positivas e felizes, senti que estou no sítio certo. Hoje em dia, estou mais longe dessa parte da feitura do produto, mas se trabalhasse apenas na parte de produto, talvez sentisse a falta do resto. Ao ter de optar, prefiro trabalhar a parte da comunicação e promoção. Sou um pouco embaixadora dos vinhos, da região e do nosso país. Gosto imenso de poder passar sensações positivas a alguém que nunca esteve em contacto com Portugal ou com o Douro.

Esse papel de embaixadora do Douro acarreta uma grande responsabilidade, certo?

(risos) Acho que o vinho permite que as pessoas tenham sensações positivas, sensações que lhes acrescente algo na vida, logo num primeiro contacto. Dou imenso valor a isso.

Agora sinto a responsabilidade da gestão da marca, porque estamos a fazer um rebranding da Quinta Vale D. Maria. Estou preocupada com a forma como o packaging e a imagem vão refletir os nossos valores, sem descurar a mensagem e a comunicação. Penso que, na vida, temos de poder proporcionar alegrias! Há pessoas que têm como função a saúde ou a educação… eu acho que tenho a função de prazer, de passar boas sensações e de alegrar! (risos)

Ter crescido no meio dos Douro Boys trouxe valor ao seu trabalho?

Eu tenho a sorte de me terem educado sobre vinhos e ter convivido com os grandes produtores da região. O facto de ter crescido no meio dos Douro Boys e de ter o meu pai [Cristiano Van Zeller] como um exemplo de grande produtor de vinho (e muito conhecedor), fez-me ouvir histórias durante a vida toda, fez-me pôr a mão na massa e fazer, efetivamente, vinho. Agora, sinto-me perfeitamente segura para formar, não uma opinião, mas perspetivas do mundo e da vida.  Portugal tem muito para oferecer nesse sentido, assim como o Douro, por si só.

Fotografia ©Nuno Sampaio

E falar de vinho é como falar de alguém de quem se gosta muito?

Confesso que o Vinho do Porto é o meu ponto fraco ou a minha paixão. Se há produto que eu queria ver a voltar a renascer na nossa geração é o Vinho do Porto. Acho que é um marco tão grande da região, da cidade do Porto e também de Portugal e, para mim, seria um gosto tremendo voltar a ver as pessoas a consumir algo que eu sei que é maravilhoso e único.

Quais são então os próximos desafios?

O desafio passa por uma estratégia, ou seja, temos de ter coragem de tomar um caminho, que, às vezes, não é a distribuição por si só. Temos de ser muito focados, temos de perceber quem são os nossos targets. Claro que o turismo tem vindo a ajudar e é um canal de venda que não era o nosso, mas que passou a ser um canal gigantesco do qual nós beneficiamos.

Acho que cada uma das regiões tem de saber perfeitamente qual é a sua identidade e qual é a sua capacidade de fazer uma oferta. Por exemplo, os vinhos verdes têm uma capacidade múltipla e penso que seria interessante potenciar o seu reconhecimento, começando a oferecer outros tipos de gamas de produtos para mostrar que a região tem a capacidade de fazer grandes vinhos brancos, com capacidade de envelhecimento, ao mesmo tempo que se produz aqueles vinhos de agrado, frescos, alegres e mais fáceis de entender. O Douro tem de entender que a sua capacidade de produção é de produções mais pequenas, maior detalhe, mais de nicho, que obrigam a uma maior comunicação e menos massificação. Cada região tem de perceber qual é o seu potencial e que canais deve optar. Nunca devemos ir pelo preço. No caso do Douro, que é a região da qual eu sei falar melhor, temos de trabalhar pelo fator de diferenciação, qualidade e de raridade. É impossível nós produzirmos vinhos, como existem no Douro, noutras regiões no mundo. Penso que a nossa estratégia de comunicação tem de seguir o caminho da raridade do Douro, daquilo que é ‘fora da caixa’, pela descoberta ou pela curiosidade. E, depois, obviamente, assente na história inegável que nós temos, com tradição, com famílias antigas, com edifícios, com quintas lindíssimas e com magníficas paisagens. Essa deveria ser a estratégia do Douro e da comunicação dos vinhos da região, aliada à gastronomia e ao turismo.

“O facto de ter crescido no meio dos Douro Boys e de ter o meu pai como um exemplo de grande produtor de vinho (e muito conhecedor), fez-me ouvir histórias durante a vida toda, fez-me pôr a mão na massa.”

Quase como oferecer um pack completo?

Todas as regiões podem oferecer um pack completo, mas aquilo que nos torna únicos tem a ver com esta rusticidade e a tradição. Quando me perguntam: “Que legitimidade tens tu para fazer um vinho com tantas castas?” Eu tenho a legitimidade de 400 anos de produção, de as castas pertencerem aqui e de eu não querer quebrar o meu perfil só para ir de encontro ao que é mais fácil.

Convidamos a Francisca a olhar à sua volta, aqui na Quinta Vale D. Maria. Que significado tem tudo isto para si?

Para mim, embora isto seja um vale mais fechado e apertado, significa uma abertura para o mundo. Vejo sempre o vinho como uma porta para o mundo e, fazendo agora parte da Aveleda, essa ideia foi ainda mais solidificada. Essa nossa capacidade de levar o vinho além-fronteiras permitiu criar pontes com outras culturas, com outras gastronomias e isso é, sem dúvida, uma das componentes que me atrai. Eu gosto de olhar para as vinhas, ver os vindimadores e estar aqui com vocês, jornalistas… ao passo que daqui a pouco sou capaz de comunicar com um grupo de investidores! Eu gosto desta transversalidade do produto e de ser um contacto real. Não gosto de viver em bolhas, nesse sentido.

Falando também da sua paixão pelo Douro, a Francisca está envolvida em vários projetos. Gostávamos de perguntar: qual é o próximo passo?

Agora tenho um desafio incrível, que me foi proposto pela Aveleda, que tem a ver com a comunicação institucional da empresa, que está a passar por novas apostas e eu adoro esse tipo de desafio. O facto de comunicar uma empresa que tem valores familiares, que tem aquela propriedade belíssima, que se preocupa com o vinho e com quem o trabalha, motiva-me imenso! No que diz respeito à Quinta Vale D. Maria, eu acho que os alicerces estão criados e agora é deixar florescer. Quero ver a Quinta Vale D. Maria a chegar às melhores castas de vinhos do mundo, ter o prestígio e o reconhecimento que eu acho que os nossos vinhos merecem, não só por serem nossos, mas como a marca do Douro merece e isso, talvez, seja uma parte mais de maturação. Posso dizer então que tenho três projetos: o primeiro envolve afinar algumas agulhas a nível de comunicação institucional; o segundo tem a ver com o (re)lançamento de vinhos com idade, com amadurecimento, na Bairrada; e o terceiro engloba criar mais mancha de comunicação, interações e associações no Douro. Falo, por exemplo, do trabalho com as D’UVA – Portugal Wine Girls e a associação United Wine Women. Eu gosto imenso de criar sinergias e de cruzar ligações com outras pessoas, do mesmo negócio ou fora dele.

Por fim, posso dizer ainda que tenho um sonho, que está totalmente dependente de mim nesta fase: a criação da primeira associação de vinhos fortificados do mundo. Já tenho os associados, é uma questão de implementar. Acho que os vinhos fortificados, como o Vinho do Porto, o Moscatel de Setúbal ou o Xerez são raros no mundo e o que os forma é um contexto histórico e uma posição geográfica. Acho isso muito bonito porque é um produto que sobrevive anos e anos e que nunca ninguém esquece de onde é que ele veio. São como uma pedra rara! Há sempre razões para o vinho ser como é, mais doce ou mais escuro, e quando as pessoas conhecem a razão, ligam-se mais ao produto.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Confesso que o Vinho do Porto é o meu ponto fraco ou a minha paixão. Se há produto que eu queria ver a voltar a renascer na nossa geração é o Vinho do Porto.”

Então, é como se o vinho falasse por si próprio. O que acha que o Quinta Vale D. Maria Vinha da Francisca 2016, considerado o melhor vinho do ano no concurso Vinhos de Portugal, diria?

Se esse vinho falasse? (risos). Acho que diria: “Bebam-me!”

Se pudéssemos deixar aos nossos leitores um convite para experimentar algum vinho aqui da quinta, esse seria uma escolha?

Sim! Sugeria o vinho Quinta Vale D. Maria Vinha da Francisca 2016 e ainda um vinho muito especial que lançamos recentemente, uma colheira de 1969. É uma raridade de vinho! Claro que eu adoraria dá-lo a provar, mas, literalmente, só temos duas pipas. Acho que é uma experiência inesquecível! Acho que tudo o que mexe com os nossos sentidos é o que nós procuramos na vida. É incrível tudo aquilo que nos consegue acordar e tocar em todas as nossas sensações. O Vinho do Porto, particularmente esse tipo de vinhos mais envelhecidos, têm essa capacidade de nos surpreender. Também sugeria o novo Rufo que, com a colheita de 2017, acho que demos um salto qualitativo brutal.

Uma última pergunta: para a Francisca, um momento perfeito envolve um final de tarde na Quinta Vale D. Maria, um por do sol sobre as vinhas e um copo de vinho? É esse o seu momento perfeito?

(risos) Sim, mas não posso estar sozinha!

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