Revista Rua

2019-12-03T14:56:12+00:00 Cultura, Outras Artes

Francisco José Viegas tem um novo romance: A luz de Pequim

O escritor Francisco José Viegas apresentou o seu novo livro, chamado "A Luz de Pequim".
©El Corte Inglés
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva3 Dezembro, 2019
Francisco José Viegas tem um novo romance: A luz de Pequim
O escritor Francisco José Viegas apresentou o seu novo livro, chamado "A Luz de Pequim".

Foi rodeado de amigos e muitos leitores que Francisco José Viegas apresentou o seu mais recente romance A Luz de Pequim, editado pela Porto Editora, no passado dia 19 de novembro no El Corte Inglés, em Lisboa.

Começando pelas palavras proferidas por Manuel Alberto Valente, figura incontornável do meio literário, tendo passado pelas Edições Asa e tendo sido o “homem do leme” da extinta Dom Quixote, e terminando nos agradecimentos do próprio autor, após a intervenção de João Tordo, a verdade é que este evento acabou por revelar muito do livro em celebração, nomeadamente da sua personagem principal, o eterno inspetor Jaime Ramos.

©El Corte Inglés

O cenário é já o habitual que Francisco nos apresenta, um Porto ainda tradicional, mas que ao fim de 20 anos (os mesmos que Jaime Ramos entrou nas vidas dos leitores nacionais e na vida de Francisco José Viegas), vai começando a mudar para algo mais novo, mais moderno e, claramente, estranho e atípico às suas personagens. E são estas que tornam a história tão mais especial. Desde Ramiro, passando por Freixo, Emília e Avelino Marques, entre tantas outras, continua no entanto a ser a história de vida de Ramos que nos prende até à última página. João Tordo, durante os “20 minutos contabilizados” pelo próprio, como várias vezes mencionou, fez uma incrível mas breve descrição de cada uma delas, deixando contudo no ar a dúvida sobre o desfecho do nosso protagonista: “Desta vez o Francisco escreveu um romance disfarçado de romance policial. Das aventuras do Ramos, li cinco dos nove romances, sendo este um livro extremamente complexo, uma vez que lida com a decadência da personagem, declínio esse assumido pela própria e muito devido também à visão dos que o rodeiam e de outras personagens que aparecem quase como vilões e inquisidores ao seu trabalho na polícia, bem como pela descrição visceral com que é descrito o quotidiano e os crimes. Contudo, o que Francisco propõe é também uma visão metafísica da experiência humana e, nesta história, temos a oportunidade de revisitar alguns dos casos resolvidos – melhor ou pior – pelo Ramos, que chegado a este ponto, em que se vê a ser colocado de parte naquilo que ele faz de melhor, ser investigador, também pensa que já nada tem a perder – estamos a falar de um homem que terá 60 e poucos anos, o que é simplesmente ridículo. É claramente uma denúncia do politicamente correto feita pelo Ramos e indiretamente pela voz do Francisco. Mas acima de tudo, o que torna este livro enternecedor é realmente a forma como o Ramos assume que o seu tempo já terá passado e que pode ser substituído por outros que nem sequer serão polícias”. Como exemplo, temos a descrição que Jaime Ramos faz de si próprio quando Avelino Marques, que aparece na trama com o propósito de apenas e só auditar (negativamente) o seu trabalho, lhe diz que o que ele fez no passado e a forma não estão corretos: “Resta-me falhar, falhar melhor, falhar de novo”. Contudo, é possível que, para os leitores, além desta visão sobre as personagens, as descrições de como, por exemplo, Freixo, amigo de Ramos há muitas décadas, combateu a PIDE, sendo possivelmente uma das fases mais dolorosas do livro, o mais belo seja mesmo as descrições pelas paisagens do Porto, a descrição detalhada das ruas e das suas tipicidades e, eventualmente, a chegada a Pequim, que acaba por ser mais um destino fugaz, tal como Manaus também já o foi noutro caso anterior, sendo apenas um dos muitos exemplos. Tordo alerta também para a forma como o romance termina, deixando a ideia de que é um final que precisará de ser definido no futuro. Jaime Ramos claramente não irá desaparecer e é Francisco José Viegas quem o afirma: “Este livro é um livro de falhanços, de um tempo atual e desigual, onde a personagem poderia ser “afastada” ou, como se diz, “retirada” do seu espaço vital, mas que antes disso, então, decide fazer estragos como se fosse “um sacaninha” contra o sistema estabelecido”.

Fazendo nossas as palavras de Manuel Valente, Francisco José Viegas é possivelmente “o escritor português mais importante da atualidade, que assumiu o género do “policial” e que como tal é marginalizado pela classe intelectual, levando a um afastamento do autor em relação à leitura nacional. É também o escritor que apresenta uma escrita elegante e que ao mesmo tempo retrata como poucos o Portugal atual, merecendo mais leitores, uma maior e melhor análise à sua obra e crítica construtiva, porque simplesmente parece nem existir”.

O que resta após esta leitura? Desejar que o próximo livro esteja para breve, porque será sempre preciso alguém como Ramos para nos chamar à atenção para as falhas que a sociedade tem e que muitas vezes fecha os olhos e aprova, para o que está errado e podre num sistema e num estado social que nos torna a todos culpados, cúmplices ou vítimas.

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