Revista Rua

2019-06-21T11:59:14+01:00 Opinião

Game of Thrones sem spoilers

Humor
João Lobo Monteiro
1 Junho, 2019
Game of Thrones sem spoilers

Antes de mais, queria assinalar que acabei de escrever o título mais internacional na história destes meus dois anos de RUA. Tanto que o meu Word estava a sugerir que tudo o que eu estava a escrever estava errado, porque aquelas palavras não existem em inglês. De certa forma, o Word tem razão, porque a maior parte das coisas que eu escrevo estão erradas, em vários sentidos.

Desta vez, trago polémica e trago também uma carência de afeto e compreensão, se alguém puder fornecer disso: eu não vejo Game of Thrones, nunca vi e senti-me um pouco mais antissocial do que já é costume, porque eu não podia ir ao Facebook à segunda-feira, visto que não tinha assunto, e não podia ver stories no Instagram, porque não percebia nada do que se passava. Felizmente, esses tempos acabaram definitivamente – ou não, nunca se sabe.

Pelo que me é dado a entender, o que Game of Thrones traz à vida das pessoas, eu já retiro de outras fontes. Familiares que se envolvem de forma ardente no ato do amor? Já li n’Os Maias, embora possa dar de barato que em Game of Thrones não há descrições de 20 páginas sobre os cenários, como o Eça de Queiroz fazia. Um anão carismático? Já vi e li os sete amigos da Branca de Neve e vi aquele anão que era atirado ao alvo, no Lobo de Wall Street. Nudez e mais envolvimento ardente de pessoas no ato do amor? Vejo em sites da especialidade. Mortes em série? Prefiro não ver, que eu gosto de dormir bem. Dragões, emoção e reviravoltas revoltantes? Já assisto à Liga Portuguesa com VAR, há dois anos. Já para não falar dos nomes estranhos dos personagens. Essa gaveta, na minha cabeça, já está cheia de nomes de clubes turcos.

“Não foi para isto que se fez o 25 de Abril! E depois ainda sobrava eu e mais quatro ou cinco, que não sabemos quem é a Daenerys, o que é que ela fez com não sei quem e por que é que isso era escandaloso e mudava a vida das pessoas.”

Game of Thrones dá também um contributo importante (não necessariamente de forma positiva) para os tempos em que vivemos. Um contributo que não está à vista de todos, mas é para isso também que eu cá estou, para desembrulhar estas coisas e mostrar-vos a luz. Estamos num mundo em que a liberdade de expressão e os seus limites são constantemente questionados, ainda mais nas redes sociais, porque parece que é preciso pensar duas vezes antes de dizer algo, não se vá ofender alguém. Ora bem, nos primeiros dias de cada semana, o mundo internético dividia-se entre aqueles que davam spoilers impiedosamente e aqueles que tinham de se armar em dona Rosete (se não conhecem, são uma vergonha, mas procurem, é uma personagem da Maria Rueff) e avisavam “não estou a incomodar? Vou dar spoiler, posso?”. Não foi para isto que se fez o 25 de Abril! E depois ainda sobrava eu e mais quatro ou cinco, que não sabemos quem é a Daenerys, o que é que ela fez com não sei quem e por que é que isso era escandaloso e mudava a vida das pessoas.

Tirando isto tudo e outras coisas que não cabem aqui, que o espaço não é infinito, não tenho nada contra Game of Thrones, nem contra as outras 592 séries que existem por aí e que o pessoal acompanha e faz bem em acompanhar, a vida é para ser aproveitada da melhor maneira. Mas depois não venham dizer que sou tolo por ver jogos do Brasileirão, no fim de um domingo em que já vi cinco jogos de outros campeonatos. Pelo menos não tenho de passar um ano à espera que o meu entretenimento recomece, nem passo o tempo a escrever “ai, não acredito, o não sei quem vai voltar a aparecer no Splinters in the Sky!”, nem depois identifico os amigos nos posts de novidades da NiT e da Comunidade Cultura e Arte.

Apesar deste fim rezingão, espero recolher solidariedade junto de quem, como eu, deixa de ter assunto com a restante população enquanto as séries estão no ar. Sou bom moço. Por favor, acolham-me e ajudem-me!

Sobre o autor:
Tenho dois apelidos como os pivôs de telejornal, mas sou o comunicador menos comunicativo que há. Bom moço, sobretudo.

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