Revista Rua

2019-12-30T15:21:34+00:00 Opinião

Google dixit

Sociedade
João Rebelo Martins
João Rebelo Martins
30 Dezembro, 2019
Google dixit

Há dias foi publicada a lista das palavras mais pesquisadas no Google, durante 2019: Ângelo Rodrigues.

Sim! Quem é? Não sei e, por isso, fui um dos que pesquisou o nome no Google durante 2019. As notícias eram mais do que muitas, como se estivesse em causa algum problema de saúde pública.

Lembro-me de ter colocado o nome no rectângulo da pesquisa e, como resposta, uma série de revistas cor-de-rosa e uma piada sobre o Cláudio Ramos. Fiquei esclarecido.

O segundo nome mais pesquisado foi o Flamengo. A torcida flamenguista que, de repente, se formou em Portugal, unindo a comunicação social, o Presidente da República e o mais anónimo dos portugueses que nunca tirou o passaporte, enraiveceria qualquer emigrante português. Os clubes de sempre dos portugueses foram o Vasco e a Portuguesa dos Desportos; e com eles toda uma série de anedotas que tinham como único intuito “botar pra baixo” o outrora colonizador e senhor das terras e dos escravos e que, passados anos, chegou ao Brasil de mão à frente e outra atrás, mas cheio de esperança de uma vida melhor.

Não digo que os feitos de Jorge Jesus não sejam bons para a autoestima lusa; mas caramba! O que é demais, é moléstia.

Cameron Boyce é o terceiro nome mais pesquisado. Neste momento tenho que fazer uma pausa, para saber quem é. Obituário.

Eduardo Beauté: obituário.

Roberto Leal: obituário.

Luck Perry: obituário.

Emiliano Sala: obituário.

Gabriel Diniz: obituário.

Gugu Liberato: obituário.

Karl Lagerfeld: obituário.

O gosto pela desgraça é grande quando se analisam as pesquisas das pessoas no Google. E é reflexo do offline, em Portugal e no estrangeiro: quantas pessoas abrandam para ver o acidente ou correm para ver o incêndio?

Diogo Freitas do Amaral e José Mário Branco também aparecem na lista dos mais pesquisados. A mim parecem-me nomes óbvios. Ainda lhes juntava Augusto Cid, Ruben de Carvalho, Alexandre Soares dos Santos, Eduardo Nascimento, Domingos Piedade, Carlos Amaral Dias. Pessoas com história e que merecem ser lembrados para as gerações vindouras.

Mas vamos deixar esta coisa dos obituários para o Hugo Van der Ding.

O resto dos nomes mais pesquisados em Portugal são de jogadores de futebol e de Carolina Loureiro. Neste último nome, um sinal de bom gosto; digo eu que só conheço pelo que vejo.

A análise das pesquisas Google, por muito possidónias que pareçam, são, como qualquer dado estatístico, um medidor da sociedade portuguesa que usa o Google como motor de busca. Aquilo que chama à atenção e desperta curiosidade dos internautas.

Mas o “porquê” da busca é que seria realmente para se perceber a sociedade portuguesa e, aí, é necessário cruzar dados.

A quota de voos entre Portugal e Espanha é de 10% do lado espanhol. O que é que tantos portugueses e espanhóis fazem do outro lado da fronteira? Turismo; não só, mas muito. O Museo del Prado é o museu espanhol com maior número de visitantes. Com este fluxo de voos e com a qualidade do museu madrileno, é salutar observar que Museu do Prado seja a quinta maior pesquisa dos internautas portugueses.

A comunidade brasileira em Portugal representa aproximadamente 20% dos estrangeiros a viverem em Portugal. E num site brasileiro de aconselhamento de cidades europeias para viver, Braga aparece nas primeiras posições porque: tem qualidade de vida; tem tranquilidade; tem baixo custo; tem facilidade para encontrar moradia; é perto do Porto.

Daí não ser estranho que uma das maiores pesquisas no Google seja: “o que visitar em Braga” porque, além de tudo isto que Braga pode oferecer aos potenciais moradores, tem uma oferta turística e hoteleira ímpar.

Em altura de eleições, não se pode estranhar pesquisas a saber onde se pode votar; ou em ano de tanta legislação animal, haver pesquisas nesse sentido.

Olhar a listagem das pesquisas Google é um desafio entre o desejo da nossa sociedade perfeita e aquilo que ela realmente é. É uma ferramenta, uma ajuda à percepção daquilo que somos e a posicionarmo-nos no que queremos ser; enquanto comunidade.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor:
Consultor de marketing e comunicação, piloto de automóveis, aventureiro, rendido à vida. Pode encontrar-me no mundo, ou no rebelomartinsaventura.blogspot.com ou ainda em instagram.com/rebelomartins. Seja bem-vindo!

Partilhar Artigo: