Revista Rua

Gracinha Viterbo: o design de interiores como arte suprema

"Um projeto de interiores tem um impacto enorme emocional na vida dos clientes e honro essa enorme responsabilidade em cada projeto que crio, mesmo que o cliente queira algo muito mais corrente e simples", diz-nos Gracinha Viterbo.
Gracinha Viterbo ©D.R.
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira2 Setembro, 2020
Gracinha Viterbo: o design de interiores como arte suprema
"Um projeto de interiores tem um impacto enorme emocional na vida dos clientes e honro essa enorme responsabilidade em cada projeto que crio, mesmo que o cliente queira algo muito mais corrente e simples", diz-nos Gracinha Viterbo.

“Há quem diga que sou um átomo livre, dificilmente me conseguirão encaixar numa categoria ou caixa concreta”. É com esta frase que lhe apresentamos Gracinha Viterbo, uma portuguesa que traz o mundo em cada fôlego – principalmente a terra quente de Angola e a azáfama dos dias de Singapura. Gracinha Viterbo é a designer de interiores responsável pela Viterbo Interior Design, considerado um dos mais importantes ateliers de design e decoração de interiores portugueses. Numa tentativa de desmistificar o design de interiores, muitas vezes apelidado de “arte menor”, Gracinha Viterbo preenche a sua carreira por projetos entusiasmantes e exigentes, bem à sua imagem. Numa entrevista sobre passado e presente, a RUA dá a conhecer um dos mais talentosos rostos da nova geração da Arquitetura e Design de Interiores portuguesa.

 

Em primeiro lugar, gostaríamos de conhecer a Gracinha Viterbo. Como se apresentaria aos nossos leitores?

Nasci em Lisboa, mas cresci e vivi a infância e adolescência toda no Estoril. Fiz a escolaridade toda no liceu Francês Charles Lepierre e em Lisboa também me sinto em casa. Com 18 anos recém festejados, parto para Londres onde tirei vários cursos e onde a minha curiosidade constante me levou a explorar várias faces criativas e frentes estéticas. Formei-me na UAL University of Arts London com curso superior em duas das suas faculdades na Central Saint Martins College of Art and Design e Chelsea College of Art and Design. Durante a universidade aproveitava os verões para me especializar, também em Londres, em áreas que me interessavam e fiz, entre outros, cursos de arte e antiguidades no Victoria and Albert Museum e curso de fotografia também no Central Saint Martins. No final da universidade tirei uma especialização em artes decorativas na Inchbald School of Design, grande escola de artes decorativas. Foi em Londres que comecei a minha carreira no atelier da designer sul africana Kelly Hoppen e voltei para Portugal em meados de 2000 para começar a minha colaboração na Viterbo Interior Design, atelier fundado pela minha mãe já há meio século, um dos mais experientes em arquitetura de interiores e design de interiores em Portugal. Hoje com uma carreira de 20 anos, trabalho lado a lado com o meu marido Miguel Vieira da Rocha, somos partners e lideramos a Viterbo com projetos sobretudo nacionais, mas também internacionais, privados e de hotelaria, parcerias criativas e outros desafios que nos vão parecendo coerentes e interessantes e onde pensamos poder ser uma mais valia ao cliente.

Com a Viterbo trabalhamos não só para Portugal, mas também para o mundo. Tivemos um escritório dez anos em Angola e outro na Ásia desde 2009, onde vivemos de 2013 a 2016, na altura de maior fluxo de projetos naquele lado do planeta. Voltamos para Portugal em 2016 onde o nosso estúdio nunca fechou, e acabou até por crescer, e abrimos a nossa loja Cabinet of Curiosities no Estoril.

Voltamos com uma imensa vontade de redescobrir o nosso próprio país, de continuar a dar uma plataforma às artes portuguesas através dos nossos projetos – como sempre fizemos – e de começar a partilhar mais o nosso know-how e experiência, cada vez mais com quem nos segue e connosco colabora.

Mãe de quatro, interesso-me por tudo relacionado à criatividade: artes, design, ciência, self-care, saúde, educação, música e motivação. Tenho um espírito nómada, daí ter viajado tanto na minha vida, o que também contribui para um conhecimento interessante de culturas e inspirações para os meus projetos. Falo cinco línguas fluentemente, pratico yoga e meditação, gosto sobretudo de estar com a minha família. Há quem diga que sou um átomo livre, dificilmente me conseguirão encaixar numa categoria ou caixa concreta. Gosto de desafiar quem me rodeia, amigos e clientes a ver-se fora de contexto, e de criar histórias e identidades para vidas reais através dos meus projetos. Acordo mais cedo do que a maior parte das pessoas, o meu dia muitas vezes começa as 4h30/5h da manhã. Tenho muita energia, gosto de celebrar a vida e de praticar gratidão diariamente.

Algo a inspirou a seguir este rumo do design? Que influências pode dizer que teve?

Cresci neste mundo e nesta indústria. A minha mãe levava-me a pedreiras e antiquários em vez de parques para brincar – e eu gostava! Foi muito natural seguir este caminho porque cresci dentro dele. O desafio foi, depois, encontrar a minha própria identidade dentro dele e foi um caminho que me deu muito prazer traçar, e de perceber que o meu talento reside na versatilidade de estilos e compreensão dos espaços. Encontrar a minha identidade passa por ajudar os outros a sentir-se em sintonia com a sua. Obviamente uma influência forte foi a minha mãe, uma mulher guerreira e grande profissional no seu tempo que abriu caminho em Portugal para muito do que é esta indústria e profissão hoje. Mas outra grande parte veio de mim, duma curiosidade insaciável de descobrir, aprender não só com as ferramentas que me eram dadas à minha volta, ao ganhar uma bolsa para ir para a universidade, uma das melhores no mundo do design… desafiar-me constantemente de modo a não seguir a maré, mas a continuar a traçar novos caminhos para esta indústria em Portugal e levando comigo grandes mestres artesãos, artistas e materiais portugueses, acreditando desde cedo que o nosso país é especial e único quanto à mestria e qualidade de tantas coisas ligadas ao que faço. Depois, com o tempo, a garra, a curiosidade e a vontade levou-me a assinar projetos em Portugal e fora e, com cada cultura nova, cliente novo, fui acrescentando a experiência e know-how, que fazem hoje da Viterbo Interior Design um dos ateliers de Design de Interiores mais profissionalizados em Portugal e de muitos outros países onde trabalhamos.

O período passado em Londres influenciou imenso a sua carreira, correto? Pode contar-nos como foi essa experiência?

Sim, sair para onde quer que seja só pode influenciar a nossa carreira e tanto Londres como Singapura foram duas plataformas de peso que me elevaram enquanto profissional e humana em duas fases muito diferentes da minha vida pessoal e profissional.

Londres concretamente foi sair do ninho, foi ser desconstruída, virada de dentro para fora na Universidade de modo a encontrar um processo criativo que ainda hoje faz parte do meu dia a dia. Foi a descoberta da independência, responsabilidade, de perceber a importância de darmos muito de nós naquilo que acreditamos. Foi liberdade criativa. Foi descobrir pessoas que me inspiravam e a quem eu inspirava, juntar-me a pessoas que me desafiavam a ser mais e a explorar mais profundamente tantos conceitos importantes para quem é criativo e faz disso a sua vida profissional.

“Obviamente uma influência forte foi a minha mãe, uma mulher guerreira e grande profissional no seu tempo que abriu caminho em Portugal para muito do que é esta indústria e profissão hoje”

Podemos assumir que a Gracinha é uma amante das artes, nas suas mais diversas valências: fotografia, mobiliário, etc. Considera que todo esse conhecimento que a Gracinha procurou ao longo do tempo a enriqueceu enquanto profissional?

Sem dúvida. Aquele velho do Restelo que pensa que ser criativo é ter uma série de valências que se metem em categorias concretas está muito longe da realidade do que uma mente criativa é capaz e de como se pode regenerar a criatividade continuamente. O lema da minha universidade era “you can find inspiration in everything and if you can’t? Look again”. Quando há curiosidade e respeito pelas artes começamos rapidamente a perceber que está tudo interligado e que umas não vivem sem as outras – pelo contrário, umas alimentam as outras continuamente.

Com um percurso interessante, a Gracinha rapidamente se envolveu com a identidade Viterbo. Que identidade é essa? Qual é a sua visão?

Rapidamente é como quem diz (risos) Foi um processo longo e complexo, todas as empresas familiares têm um caminho concreto de passagem de pasta entre gerações. A minha relação com a identidade Viterbo nasceu muito antes de eu sequer ir trabalhar na Viterbo há vinte anos. Havia uma admiração primeiro de filha para mãe, um fascínio pelo mundo estético sem ainda sequer perceber o processo criativo, a gestão dos projetos nem o negócio por detrás da empresa. Em criança despertou-me a magia que era o mundo Viterbo e os milagres de transformação que via acontecerem. A minha relação com a Viterbo vem desde a infância e adolescência por a minha mãe me levar para todo o lado e eu crescer entre antiquários e feiras de Arte e Design, com contrastes que iam do cheiro a amoníaco nos gabinetes dos desenhadores técnicos e o perfume nas casas nas suas finalizações, idas aos carpinteiros e estofadores entre tijolos e pó e materiais fabulosos. Mais tarde, depois da universidade e da passagem por Londres – e depois duma experiência profissional independente -, quando voltei tive a oportunidade já com outra maturidade de começar como assistente de projeto na Viterbo, com uma mentora genial que era a minha mãe. Naquela altura queria entregar-me exatamente ao meu lugar e entendia naquela empresa tão profissionalizada que sabia pouco de gestão de projeto, mas que trazia comigo uma grande mais valia com o processo criativo que tinha desenvolvido em Londres. Foram anos muito interessantes em que fui crescendo organicamente na Viterbo e onde gostava de agarrar todas as oportunidades, onde tive oportunidade de estar muito perto não só da equipa de projeto, mas também de todos os artesãos que connosco colaboravam – e isso era o que eu mais gostava. Naquela altura não queria ser mais do que aprendiz… para aprender com as cabeças mais extraordinárias que envolviam a Viterbo. Dei tempo ao tempo. Meio brisa meio furacão, porque fui ganhando responsabilidades e experiências de dentro para fora, com vontade, com conteúdo e intenção. Percebia e respeitava a posição privilegiada que tinha de estar tão perto duma profissional de mão cheia, de quem aprendi muito e quem exigiu mais de mim do que todos os que estavam na equipa Viterbo.

Tive responsabilidades muito grandes, muito nova. E também nova fiquei a frente da empresa com o meu marido Miguel, que liderava todo o lado de gestão e direção da empresa, quando a minha mãe decidiu reformar-se. Veio tudo a seu tempo. Mesmo nova sentia-me completamente preparada para aquele momento e, a partir daí, a visão e trabalho construído numa vida de dedicação da minha mãe à Viterbo e aos seus clientes, passou para nós que não quebrámos com nada do legado passado, mas sim fortalecemos e alargamos com as competências e ferramentas que tínhamos construído no caminho traçado até ali. Acredito na arte dos interiores na sua máxima profissionalização. O projeto pode ser lindo, mas se não vem lado a lado com um profissionalismo e serviço exímio não serve. O cliente que vem ter comigo quer um serviço profissionalizado, uma equipa com experiência e um know how superior e quer qualidade. Criatividade não me falta, tenho uma vasta experiência em vários estilos e no meu caminho colecionei também uma vasta experiência “no terreno”, tecnicamente on site tenho know how para resolver desafios complexos e ser uma mais valia para os projetos para onde sou contratada. E assim formo a minha equipa a ter também essa versatilidade criativa e técnica para podermos adaptar-nos ao cliente e em cada projeto escrever uma história diferente. Essa é a visão que eu e o meu marido Miguel completámos desde que nos foi passada a liderança da Viterbo. Criatividade. Profissionalismo. Qualidade. E extraordinary care aos nossos clientes.

“O projeto pode ser lindo, mas se não vem lado a lado com um profissionalismo e serviço exímio não serve. O cliente que vem ter comigo quer um serviço profissionalizado, uma equipa com experiência e um know how superior e quer qualidade”

O grande projeto de decoração de hotéis em Angola, no ano de 2008, foi um teste para a Gracinha? Foi um desafio interessante?

Todos os projetos são desafios interessantes seja qual for o tamanho. Há uns anos dei comigo na mesma altura a fazer um apartamento de 70 metros quadrados em Lisboa e uma casa privada de 10.000 m2 em Bangkok (não me enganei nos zeros). Penso que cada projeto nos desafia a sair de nós próprios e a pensar como vivem os outros. Quase como que um estudo antropológico, psicológico entre espaço e vida. Esse projeto foi importante para mim e para a Viterbo porque ganhei esse concurso que foi o maior de sempre em hotelaria em Portugal: 61 hotéis em Angola. E tinha 31 anos. Como em tudo o que é novo, crescemos. Olho para traz e sou grata por várias experiências que tive e que abracei mesmo cedo na minha carreira e essa foi uma delas. Não tenho dúvidas que o meu marido Miguel, que constitui a outra metade da Viterbo desde 2001, foi um motor e fator decisivo muito importante nos grandes passos que demos e nas grandes decisões que tomámos. Um dos talentos e motivações do Miguel além de gerir criativos é exatamente saber criar oportunidades como estas e preparar a empresa a ter versatilidade para saber gerir e responder a grandes desafios como as crises económicas e as nossas idas para Angola e Ásia a partir de Portugal.

Adorei trabalhar em Angola, um país onde aprendi a ver as cores de outra forma e, sem dúvida, me transformou no meu caminho… assim como todos os outros projetos.

Algum tempo depois, a Gracinha foi convidada a desenvolver um projeto em Singapura e daí surgiram várias oportunidades. Trabalhar no ambiente asiático foi algo importante na sua carreira? Como descreve esse período?

Deixei um pouco de mim na Ásia e trouxe um pouco da Ásia comigo.  Vejo a vida em capítulos e a Ásia foi um dos meus preferidos até agora. Sim foi definitivamente muito importante na minha carreira e para a Viterbo. Trabalhar com outro ritmo, noutra língua e linguagem. Regras de jogo diferentes, não só para a cultura asiática, mas também para muitos cidadãos americanos e indianos. Trabalhar para outras culturas e religiões. Um país conhecido pelo cruzamento cultural e onde se conhecem pessoas com tantas histórias de vida diferentes todos os dias.  Foi um período intenso onde de dia trabalhava para a Ásia e de noite começava as reuniões com Portugal às 3 da manhã de lá com o escritório de cá. Importante dizer que foi um intercâmbio interessantíssimo porque o escritório aqui não fechou; ficou a trabalhar remotamente para nós lá. E comigo cresceram também todos os profissionais que colaboravam na Viterbo, muitos tiveram oportunidade de fazer viagens à Ásia, de aprender comigo lá, e isso deu-me muita satisfação. Também os artesãos, artistas, carpinteiros, pedreiros e técnicos com quem eu trabalho aqui vieram comigo e aí foi espetacular ver o cruzar de know how e culturas cada vez que vinham para colaborar em instalações e obras lá. Foi uma altura muito gratificante como criativa e como empresária. Um orgulho poder levar comigo o melhor do que se faz e de quem faz em Portugal. Chegamos a ganhar em 2016, no ano em que voltamos, o prémio de Melhor Studio de Design de Interiores em Singapura, fruto de trabalho intenso, meu e da minha equipa.

No regresso a Portugal, sentiu a necessidade de se adaptar ao mercado português? Foi um “começar de novo” numa tentativa de mostrar valor e implementar o nome Viterbo no território nacional? Foi desafiante? Continua, ainda hoje, a ser desafiante?

Foi muito interessante a sensação de voltar para Portugal em 2016. Não senti que estávamos a recomeçar do zero. Senti sim, que Portugal estava um país diferente e gostei de onde aterrei. Um país onde os cidadãos estavam orgulhosos de ser da sua nacionalidade e sobretudo onde se sentia um positivismo, uma criatividade e autenticidade à qual me deu prazer imenso saber pertencer. Basicamente, nós acabamos por ter sempre mais projetos onde pomos a nossa energia e presença. Portanto, ao voltar, calmamente voltaram a crescer o número de projetos em Portugal. Os clientes gostam de sentir que estamos perto dos projetos e assim foi. Hoje trabalhamos de Norte a Sul do país, a equipa cresceu, temos também projetos internacionais na Europa e Ásia, mas não nos vemos a voltar a sair para viver. Portugal é o melhor país de mundo para se viver e trabalhar e temos o know how e estrutura para poder fazer projetos cá e fora. Quando chegamos foi claro que era aqui que íamos ficar.

Desafiante é sempre. Qualquer profissão criativa é desafiante. Penso que os clientes que nos contactam entendem a mais valia que podemos ser na sua vida ou no projeto, mas a nossa profissão é resolver desafios diários e criar. Criar por si só é o desafio mais bonito que se pode ter.  Um projeto pode passar por momentos muito desafiantes, mas levo-os com positivismo porque penso que faz parte do meu papel saber gerir esses momentos e ajudar a ultrapassá-los.

“Criar por si só é o desafio mais bonito que se pode ter”

Olhando para trás, que balanço faz da sua carreira? Há projetos que ocupam um lugar especial na sua memória? Pode falar-nos um pouco deles?

Espero só ir a meio caminho! Celebro 20 anos de carreira este ano, mas olhando para trás, pensando em tudo o que já fiz, tenho um grande sentido de orgulho em mim própria porque sou forte, persistente e corajosa. Sei que isso me levou a fazer muito desde cedo com todos os riscos que várias das minhas decisões tinham. Estou grata pela confiança imensa que tantos clientes depositam em mim e na minha equipa. Grata pelas ligações humanas que a minha profissão me dá oportunidade de desenvolver. É uma satisfação imensa ver como os profissionais com quem colaboro crescem com os desafios que lhes dou, preenche-me de os ver crescer, projeto a projeto.

Se há projetos preferidos? É uma pergunta difícil. Entrego-me a todos com a mesma alma e coração. Há sim projetos que me mostram a verdade de pessoas com quem trabalho, colaboradores, clientes e executantes. Desafiam-me a crescer mais que outros e há, sim, clientes com quem naturalmente ganho mais afinidade e com quem acabo por criar relações profissionais duradouras. Esses continuam para fazer segundos e terceiros projetos pela confiança que se cria entre eles e a Viterbo. Cada projeto é uma identidade nova, uma história por descobrir, uma ligação de espaço, tempo e vida a fazer, não há um igual por isso eu e minha equipa traçamos novos caminhos e escrevemos novas histórias projeto a projeto. Tudo isto num espaço de tempo controlado pelo prazo e briefing do cliente. Não são teorias abstratas. São fruto de muitos anos de experiência. Consigo perceber claramente e rapidamente o que um cliente quer.

Durante a nossa pesquisa, cruzámo-nos com uma descrição muito interessante que gostaríamos de trazer para esta entrevista. A descrição é: “Gracinha Viterbo pretende desmistificar o papel do design de interiores enquanto arte menor, acreditando que este pode ter um impacto emocionalmente positivo na vida das pessoas”. É esta a sua visão? Qual é o papel do design de interiores nesta fase no nosso país, a seu ver?

Sim, esta não é só a minha visão, é também a minha intenção e missão empresarial. Acredito que o que faço pode ser transformativo na vida dos meus clientes. O processo passa por uma análise da identidade deles e dos seus rituais de vida, de descobrirem de onde vêm, onde estão e para onde querem ir. Eu sou uma ponte, ou até um convite à afirmação de quem são ou até à redescoberta de quem querem ser e através do projeto consigo elevar bem-estar, confiança, positivismo, consigo abrir portas a intenções e fechar portas a momentos que já não se coadunam com quem o cliente é e para onde o cliente quer ir. Um projeto de interiores tem um impacto enorme emocional na vida dos clientes e honro essa enorme responsabilidade em cada projeto que crio, mesmo que o cliente queira algo muito mais corrente e simples. Por detrás, no processo de criação, há esta análise, preocupação e intenção. Não faz sentido eu fazer um projeto só para escolher peças bonitas, a minha responsabilidade vai muito além disso. Desmistificar os interiores como “arte menor” pois muitas pessoas acham que o que fazemos é escolher coisas bonitas, tecidos e cores… o que está completamente errado. O impacto dum projeto de arquitetura de interiores e design de interiores é uma mais valia enorme na vida dum cliente. Não só pelo know how técnico, solução e gestão de desafios de projeto que trazemos, como o dinheiro que fazemos poupar ao cliente pelos erros e más decisões todas evitadas, mas também pela ligação que conseguimos criar entre cliente e espaço. Por mais incrível que pareça, quantas pessoas estão a viver vidas nas quais não se identificam onde não são felizes, onde não sentem ligação a nada nem a ninguém. Muito começa em casa e eu acredito porque desenvolvi estratégias para assegurar que um projeto pode ser um grande fator de bem-estar, de empoderamento interpessoal, de ligação entre pessoas e dessas pessoas com espaço. Daí tornar esta arte não menor, mas essencial na vida das pessoas (seja em casas, locais de trabalho ou hotéis onde as pessoas querem um convite à viagem ou escape).

“Desmistificar os interiores como “arte menor” pois muitas pessoas acham que o que fazemos é escolher coisas bonitas, tecidos e cores… o que está completamente errado”

E de que forma quer estar envolvida a Gracinha neste universo do design de interiores em Portugal? Que anseios/desejos tem para o futuro?

Não penso nisso dessa forma. Escolhi uma profissão desafiante, mas que me faz os olhos brilhar diariamente, com momentos muito complexos e à qual dou tudo o que tenho. Trabalho com a minha equipa para que eles tenham a mesma vontade e atitude, códigos profissionais em que eu acredito. Penso que em Portugal trago uma visão global e internacional puxando pela profissionalização duma profissão vista por muitos como hobby ou uma extensão dum serviço de loja. Primo pela técnica, experiência e qualidade de resposta projeto a projeto e espero o mesmo de todas as pessoas com quem trabalho. Sejam colaboradores ou executantes. Penso também que nestes 20 anos puxei por várias áreas desta indústria e dei-lhes oportunidades e plataforma para trabalharem em projetos interessantes e em terrenos novos. Tenho uma visão americanizada desta indústria porque eles estão realmente muito à frente neste tema, e gosto de partilha. Penso que juntos somos mais fortes, por isso gosto de partilha entre profissionais, em todos os setores da indústria. Espero que cada vez mais em Portugal percebam o interessante e positivo que é para a força de uma indústria haver partilha de experiências e trabalho com esses valores para elevar a minha profissão e os projetos que me são confiados.

A Gracinha faz parte da história deste que é um dos mais importantes ateliers de design e decoração de interiores portugueses. Numa viagem no tempo, o que diria hoje à Gracinha de 14 anos, que atendia os telefones na Viterbo Interior Design?

Boa pergunta! (risos) Punha-me de frente para ela, olhos nos olhos. Punha uma mão em cada ombro e primeiro sorria com orgulho, porque aquela Gracinha pedia para ir trabalhar em vez de ir para a praia com os amigos; aquela Gracinha já era muito de quem eu sou hoje e, por isso, não encaixava sempre onde achava que devia encaixar. Com aquela idade já era muito independente, já queria ir para onde fosse com sede de aprender, nem que fosse atender telefones. Olhava-a olhos nos olhos, ficava ali uns segundos a olhar para ela para lhe dar segurança e confiança naquele momento (se calhar até me viriam lágrimas aos olhos) e depois dizia-lhe “your mountain is waiting, so get on your way” – que é a última frase do livro de crianças sobre a vida do Dr. Seuss, Oh the places you’ll go, um dos meus preferidos para ler aos meus filhos.

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