Revista Rua

2020-02-05T19:25:51+00:00 Cultura, Dança, Radar

GUIdance arranca amanhã…mas nós já fomos espreitar

O GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea arranca já amanhã, em Guimarães.
Esplendor e Dismorfia ©Nuno Sampaio
Maria Inês Neto
Maria Inês Neto5 Fevereiro, 2020
GUIdance arranca amanhã…mas nós já fomos espreitar
O GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea arranca já amanhã, em Guimarães.

Em véspera do arranque da 10ª. edição do GUIdance – Festival Internacional de Dança Contemporânea, a Revista RUA acompanhou os ensaios de duas das criações mais aguardadas da programação.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Na Black Box da Fábrica Asa, deixamo-nos contaminar pelo movimento de corpos que coabitam numa realidade muito concreta, propondo uma reflexão acerca da crise habitacional e da arte da desobediência e insurreição. Dias Contados terá estreia absoluta no dia 15 de fevereiro, no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), destacando uma nova criação da bailarina e coreógrafa, Elizabete Francisca. Numa peça que reúne uma composição cénica que desafia qualquer tentativa de classificação, o som é um elemento muito forte, criado a partir da agitação sonora de um centro urbano, dos ruídos de obras, de conversas e movimentos. Cada elemento autónomo aqui exposto – dança, texto, música, luz, entre outros – é, por si só, um elemento criativo gerado por artistas. A proposta artística da coreógrafa, natural de Lisboa, escapa à categorização – situando-se algures entre a dança, a fotografia, a instalação visual e sonora – partindo do real para o documental: é a partir das cidades contemporâneas em profunda transformação, que revelam a precaridade do suporte à vida humana, que é pensada toda a obra. O convite para dar vida a este projeto que contempla a programação surge numa altura em que a própria artista se depara com a problemática da crise da habitação. Segundo Elizabete Francisca: “A peça parte da abordagem da problematização do que é a crise habitacional nas grandes cidades e de como é que isso, não tanto em termos sociais, mas nas relações entre as pessoas que geram comunidade, influencia e modifica”, continuando: “É uma mensagem de resistência e de dizer que as coisas têm e ser alteradas. É um ponto de perspetiva perante um determinado assunto”.

Já no Centro Cultural Vila Flor (CCVF), o palco do pequeno auditório recebeu Vera Mantero, a coreógrafa em destaque nesta edição do GUIdance que se apresentará em dois momentos nesta programação. O primeiro será já no dia 7 de fevereiro, numa estreia nacional da sua recente peça Esplendor e Dismorfia, num encontro com o construtor cénico e sonoro Jonathan Uliel Saldanha. Os dois artistas apresentam uma obra criada e interpretada por ambos, na qual se propõem a explorar as práticas da “monstrificação”, uma ideia de Jonathan, que sugeriu ficcionar nesta peça a posição de dois corpos que terão sido invadidos por um fungo que os transforma. Pelas palavras da coreógrafa: “Esta peça é um objeto particularmente enigmático. É um exemplo de um trabalho de outra esfera, para estar num outro lugar mental”. Para Jonathan Uliel Saldanha: “Estamos aqui ‘entalados’ entre dois objetos quase popularizantes, um talvez mais próximo de um redesenho do mundo a partir de uma geologia contida em servidores e a outra é uma espécie de um poder brutal do corpo humano, como uma antítese ou uma híper presença do tempo real”.

Num momento de celebração de um festival que, ao longo de dez anos, se tem vindo a afirmar como potenciador de valorização do melhor da dança contemporânea e do reconhecimento dos artistas nacionais, o diretor artístico do GUIdance, Rui Torrinha, conta-nos que: “Esta programação traz, sobretudo, algo que é jubilatório de um percurso que é importante para os artistas, o público, a cidade, a região e o país e é sobretudo importante porque se afirma como um palco de inverno e uma possibilidade de esses mesmos artistas terem recursos para poderem demonstrar o seu talento. É uma celebração das artes e das matérias do corpo, que é cada vez mais importante salientar num tempo de desmaterialização. O corpo presente é extremamente importante”, continuando: “Para nós é um grande privilégio reunir em Guimarães todas estas visões e linguagens e, sobretudo, sentir que a cidade, a região e o país – e até a nível internacional – correspondem de uma forma inequívoca”.

Rui Torrinha ©Nuno Sampaio

Como já acontece com os diversos eventos promovidos pel’A Oficina, este festival é uma oportunidade de os artistas nacionais verem os seus projetos reconhecidos, assim como, segundo Rui Torrinha: “Mostrar o talento dos coreógrafos portugueses e trazer a Guimarães um pouco do mundo”. O diretor artístico frisou, ainda, a questão de o GUIdance acompanhar também um olhar de um público cada vez mais crítico, interessado, curioso e envolvido na programação.

Com algumas sessões já esgotadas, a edição do GUIdance deste ano arranca já no dia 6 de fevereiro com a coreógrafa Tânia Carvalho, em Onironauta, numa programação que contempla 11 espetáculos, quatro em estreia nacional e dois em estreia absoluta, que ao longo dos dez dias se propõem a homenagear o melhor da dança contemporânea portuguesa, na cidade que anualmente a celebra a rigor. O programa não se esgota apenas nos espetáculos, surgindo, paralelamente à programação dos eventos, uma série de masterclasses, residências artísticas ou debates, numa série de possibilidades que o festival coloca a quem se interessa pela dança contemporânea e a criação nacional. Os bilhetes para os espetáculos estão disponíveis nas bilheteiras do CCVF, Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), Casa da Memória de Guimarães (CDMG) e Loja Oficina, bem como no site do CCVF.

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