Revista Rua

Guilherme Duarte: “Vivemos uma época de ouro para o stand-up comedy!”

A tour "Só de passagem" de Guilherme Duarte termina hoje, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Depois, a 20 de julho, o humorista apresenta-se em Barcelona.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira21 Junho, 2019
Guilherme Duarte: “Vivemos uma época de ouro para o stand-up comedy!”
A tour "Só de passagem" de Guilherme Duarte termina hoje, no Teatro Sá da Bandeira, no Porto. Depois, a 20 de julho, o humorista apresenta-se em Barcelona.

É o mestre por detrás do blog Por Falar Noutra Coisa e, da escrita em frente a um computador, saltou para os palcos em registo stand-up comedy. Cruzámo-nos com ele antes de mais um Só de passagem, no Casino da Póvoa, na Póvoa de Varzim para falarmos sobre o humor em Portugal.

Chama-se Guilherme Duarte e é um dos nomes atuais do humor em Portugal. Como tem vivido esta fase de maior reconhecimento mediático?

É bom ser reconhecido, mas ao mesmo tempo é estranho porque sou e continuo a ser um rapaz tímido e reservado. Então, lidar com o reconhecimento, é estranho porque eu não sei dizer mais nada às pessoas do que “obrigado”. Às vezes dou por mim a agradecer 30 vezes os elogios. Mas é óbvio que é uma consequência natural do trabalho. Era impossível eu chegar onde quero chegar sem que as pessoas me reconhecessem. Mas lido bem. É muito raro ser desconfortável. Quando começou a acontecer, no início, tive medo que isso me fizesse não querer ir a certos sítios, mas desde início que decidi que esta visibilidade não podia mudar nada do que eu faço.

Estamos na reta final do espetáculo Só de passagem. Como tem sido esta experiência? Que questões traz para palco? Há improvisação?

Esta é a segunda tour a solo. O primeiro espetáculo era mais sobre mim, sobre as minhas origens, na Buraca, sobre ser informático e ter deixado a área para me dedicar ao humor. Este espetáculo Só de passagem, apesar de eu falar um bocadinho da minha vida, fala mais sobre como é que eu vejo o futuro. É um bocadinho essa a temática que interliga todo o espetáculo, essa ideia de estarmos aqui só de passagem. Então, falo um bocadinho sobre não querer ter filhos e como isso influencia a minha visão de futuro, a minha finitude, já que não vou deixar cá descendência. Depois, trago também histórias passadas, da adolescência e dos 20 anos, em que fazemos mais maluqueiras. A perspetiva da morte e do suicídio, como é que encaramos a morte enquanto sociedade e como é que eu encaro, como é que isso influencia o facto de eu fazer comédia, também é um dos destaques do espetáculo.

Tinha receio que este espetáculo ficasse aquém do primeiro, mas acho que estou satisfeito, não só com a adesão do público como também com o feedback que me têm dado. Esse feedback positivo é o melhor que posso querer, porque significa que estou a evoluir. Tem corrido bem! Em algumas cidades, duplicamos o número de espetadores. Houve datas esgotadas.

Relativamente ao improviso, com o passar do tempo e com a experiência, começo a ter mais à vontade em palco e isso faz com que haja sempre espaço para algum improviso. Contudo, de maneira geral, o que eu digo em palco é, palavra por palavra, aquilo que eu preparei.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Acho que nunca houve tantos comediantes a fazer solos no país inteiro. Só no mês de março, estavam dez ao mesmo tempo!”

Considera que vivemos uma fase em que as pessoas estão predispostas a assistirem a espetáculos de stand-up comedy?

Sim, acho que vivemos uma época de ouro para o stand-up comedy! Acho que nunca houve tantos comediantes a fazer solos no país inteiro. Só no mês de março, estavam dez ao mesmo tempo! Isso é ótimo porque se as pessoas forem ver um e gostarem, estão mais predispostas para depois ir ver outro, mesmo que não conheçam bem o humorista. Ficam com a ideia de que stand-up é giro e têm a vontade de descobrir outros. Acho que isso tem sido ótimo e espero que se mantenha. Acho que fazia muita falta porque o stand-up começou de uma forma um bocadinho enviesada em Portugal: começou na televisão em vez de ter começado nos bares. Foi bom, mas enviesou um bocadinho as coisas. As pessoas iam apenas ver comédia se conhecessem aquela pessoa da televisão. Acho que agora, com esta fornada toda que saiu das redes sociais, as coisas mudaram.

Considera que os seguidores digitais é que impulsionam os espetáculos de stand-up comedy hoje em dia?

Sim, mas temos de ter noção que é sempre residual. Das pessoas que gostam de um post no Facebook, só 1 ou 2% é que está disposta a sair de casa, a comprar bilhete, a ir ver um espetáculo. Mas as publicações que eu faço no Instagram ou no Facebook ajudam, claro! Toda a gente que faz stand-up comedy hoje em dia, à exceção de um ou dois humoristas que são mais conhecidos na televisão, fazem as suas campanhas de venda de bilhetes através das redes sociais. E, para isso, contribui muito o conteúdo que se vai fazendo, muitas vezes sem ganhar dinheiro nenhum, como os vídeos, os posts, etc. que são um investimento na visibilidade, em fazer rir o público nas redes para que, na altura de comprar bilhetes, eles se lembrem de nós. Acho que é uma forma incontornável. Para além de toda a liberdade criativa que a internet nos dá – não há liberdade total porque há sempre alguém que tenta censurar, mas há muita mais liberdade do que nos media tradicionais.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Nas suas redes sociais, nos sketchs que vai partilhando, o Guilherme costuma apostar principalmente em duas temáticas: as questões do dia a dia, como os stresses com a namorada, e depois as questões sociais, com visões sobre o panorama do nosso país e das coisas que aqui se passam. É esse o universo das suas piadas?

Sim, eu gosto de separar. Por exemplo, nas crónicas que faço para o jornal e para a Antena 3, pego mais em atualidade, por norma. O que está a acontecer, as notícias do dia, coisas mais relevantes em Portugal ou no mundo. Depois, as piadas soltas ou os textos que faço no Facebook ou no blog é um bocadinho de tudo. Podem ser temas intemporais, questões sociais mundanas, como ver uma pessoa a tirar macacos do nariz no comboio ao meu lado. E faço uma descrição ao jeito National Geographic disso! Mas, por exemplo, para os espetáculos de stand-up, eu tenho zero atualidade. São coisas mais de observação do dia a dia, histórias pessoais que me acontecem. A atualidade acaba por ser o que funciona melhor nas redes sociais em termos de cliques, mas depois envelhece mal. Também acaba por trazer seguidores que não são aqueles seguidores que depois acompanham o resto. A atualidade cria um público muito heterogéneo, que é bom, mas que às vezes é melhor ter um foco, uma linha editorial. Gosto de ir falando das coisas que são incontornáveis e que me dão gozo, mas tento que o meu foco seja sempre algo de observação, que as pessoas se identifiquem, coisas que me acontecem a mim, mas que muita gente já passou por elas e nunca pensou nisso.

“O meu foco sempre foi a escrita. Eu, por mim, seria um blogger anónimo, não dava a minha cara. O meu objetivo inicial sempre foi ser recatado.”

O Guilherme era informático e, de repente, surge a comédia no seu percurso. De que forma é que isto aconteceu? Era um rapaz graçolas?

Eu sempre gostei muito de humor, mas sempre num ponto de vista de observador. Lembro-me do Herman Enciclopédia, que talvez tenha sido o programa que me marcou mais, quando eu tinha 13 ou 14 anos. Gravava aquilo em VHS, via, revia, tentava imitar os sketchs para os meus pais, mas nunca me passou pela cabeça fazer nada com isso. Segui o caminho da Engenharia Informática… estava traçado! Mas não estava a gostar muito daquilo. No entanto, a minha decisão não foi do género: “não estou a gostar desta área, vou criar uma alternativa”. Foi só quando eu me despedi da consultora onde eu estava e fui trabalhar para startups. Nesse período, em que eu estava a tentar perceber o que eu queria fazer, estava em casa e decidi criar um blog para dizer umas coisas. Nem sabia se ia ser humor ou não. Queria só partilhar uns pensamentos. Acabei por lhe tomar o gosto e começar a escrever diariamente, textos maiores até. Depois, quando recomecei a trabalhar na área, mantive o hábito de escrever quando chegava a casa e aquilo foi ganhando alguma visibilidade. Eu também fui tomando cada vez mais o gosto e fui mantendo as duas coisas em paralelo, durante dois anos e tal, três. Até que chegou uma altura em que fiz um exercício simples: “se eu ganhasse o Euromilhões, continuava aqui nas startups?” Se calhar não. “Mas continuava a escrever e a dizer umas piadas?” Sim, se calhar sim! Foi aí que percebi que já conseguia ter uma fonte de rendimento com as piadas, já tinha poupado algum dinheiro durante aquele tempo… percebi que estava a rejeitar algum trabalho que vinha da parte da comédia, por exemplo, um evento em Aveiro a uma quarta-feira ao almoço. Não podia fazer porque estava a trabalhar. Comecei a ver que havia aqui um potencial de rendimento. Aliás, já tinha um rendimento fixo das crónicas para o jornal. Se tudo corresse mal, isso já dava para pagar as contas. Então, terminei a relação com o meu chefe e decidi arriscar (risos) Claro que tive receio, mas foi um risco relativamente calculado. Principalmente porque se tudo corresse mal e se de hoje para amanhã mais ninguém me quisesse ver, eu conseguiria voltar para o mundo da informática ainda. Mas foi tudo gradual, não houve um momento em que eu dissesse mesmo “chega disto”. Fui percebendo que eu trabalhava e chegando a casa, mesmo que estivesse cansado, queria ir escrever. Isso fazia com que eu andasse muito cansado. Houve uma altura em que percebi que já não estava a dar o máximo no meu trabalho e já não estava a conseguir ser tão criativo na parte do humor. Porque já estava em esforço em ambas as partes. Decidi que, para arriscar, era naquela altura, há dois anos mais ou menos.

Fotografia ©Nuno Sampaio

À medida que foi conseguindo seguidores, percebeu que afinal tinha talento?

Sim. O meu foco sempre foi a escrita. Eu, por mim, seria um blogger anónimo, não dava a minha cara. O meu objetivo inicial sempre foi ser recatado. O que me dava gozo era escrever, em casa, de pijama. Depois, percebi que, se queria fazer stand-up, fazia sentido eu dar a cara. Os sketchs sempre foram algo que eu gostava muito de ver… aquele estilo de humor do Herman, do Gato Fedorento! Então, juntei-me com o Ricardo Cardoso para fazer um programa chamado Falta de Chá, na SIC Radical, mas foi numa de testar e perceber se tínhamos algum jeito para aquilo. Ainda hoje, há coisas que eu consigo ver que sou bom, mas há outras que eu não gosto. O pessoal diz que gosta, mas eu acho que estava um grande canastrão (risos) Mas dá-me imenso prazer fazer sketchs!

É perfecionista?

Sim, de certa maneira sim. Sou crítico, muito crítico em relação ao que faço. Mas estou naquela fase em que me quero testar ao máximo, no máximo de formatos, por isso é que da escrita surgiu o stand-up, depois os vídeos, os sketchs, o podcast, uma série de formatos em que o humor pode ser veiculado e em que eu me quero testar. Provavelmente, durante muito tempo, vou tentar testar-me ao máximo e, daqui por uns anos, irei ficar naqueles formatos que me dão mais prazer, onde eu acho que sou melhor. Os outros formatos acontecerão só de vez em quando, por brincadeira. Mas é sempre difícil dar esse salto. Acho que quem passa do vídeo para o palco é mais fácil, porque as pessoas já conhecem a tua cara, a tua voz, o teu registo. Quando passas do texto para o palco há um choque maior, porque as pessoas leem o texto com uma voz na cabeça delas, imaginam como as piadas são ditas e quando passam para o palco aquilo pode entrar um bocadinho em conflito. E passar dos textos para o sketch a mesma coisa. Mas há coisas que eu faço por prazer e não me interessa se tenho jeito ou não! (risos) Depois, há outras que eu faço e que se calhar já não me dão assim tanto prazer, mas dão dinheiro (risos) Se encarar isto como uma carreira, é isto que eu quero fazer ao máximo: testar-me, fazer aquilo que me dá gozo e fazer algumas coisas que me dão menos prazer, mas que me dão dinheiro para depois poder fazer as outras coisas que me dão prazer, mas que não me dão dinheiro nenhum! (risos)

“Sou muito crítico em relação ao que faço. Mas estou naquela fase em que me quero testar ao máximo, no máximo de formatos!”

Considera que este regresso do Levanta-te e Ri! relembrou-nos de um início de stand-up em Portugal e abriu as portas para o público olhar para a atualidade da comédia em Portugal de um modo diferente? Quase que um novo despertar?

Eu acho que o Levanta-te e Ri é importante – eu já fui lá duas vezes e tem ido lá muita gente desta nova geração -, mas acho que, para quem vem da nova geração, das redes sociais, quem já tem um público cimentado, o programa não é essencial. O facto de eu ter ido ao programa fez com que eu vendesse, provavelmente, cinco bilhetes na minha tour inteira. É mais o desafio e o prazer de ir lá, a um programa que marcou o humor em Portugal. Ir é importante, mas para quem vem da geração das redes sociais não precisa do Levanta-te e Ri para atrair público. Pode ser importante em termos de patrocínios, por exemplo, mas em termos de fidelizar público acho que já não tem a mesma importância que tinha há uns anos em que quem fosse lá duas ou três vezes e fosse bom tinha um ano ou dois garantido de pedidos de eventos. Acho que agora já não há isso. Acho apenas que é importante haver um programa assumidamente de humor na televisão, que é uma coisa que não existe há muito tempo. Pelo menos, neste registo de stand-up, o Levanta-te e Ri foi o único programa a existir. Lembro-me que, na altura do Herman Enciclopédia, havia vários programas como o Contra-Informação, os programas do Camilo, os Malucos do Riso, todos os canais tinham humor em prime time, mesmo que fosse um humor mais popular. Mas havia humor. Agora, vamos tendo na RTP alguns projetos, mas na SIC e na TVI nem tanto. Acho que isso é mau para o público! Penso que quanto mais as pessoas se rirem nesses media tradicionais, mais estão predispostas para ver humor noutras áreas. A televisão está com menos dinheiro para arriscar e as audiências são quem manda. É difícil arriscar num produto de humor diferente, como antes acontecia. Hoje em dia, se calhar, é impossível um projeto como os Gato Fedorento, que migraram da SIC Radical onde não tinham assim muita audiência, chegar a um canal generalista. Seria bom, mas se calhar já não faz tanto sentido.

O próximo ano será um ano mais calmo?

Sim, acho que é importante parar um bocadinho depois de acabar esta tour. Primeiro porque um ano ou um ano e meio é pouco tempo para montar um espetáculo a solo. Lá fora, há possibilidade de atuar todos os dias e de testar muito texto. Conseguem atuar 200 ou 300 vezes num ano para conseguir montar uma hora de espetáculo. Cá é mais difícil. Só conseguimos atuar uma ou duas vezes por semana. Acho que, depois destes dois espetáculos, vou precisar de mais tempo para montar um terceiro e ter a qualidade que eu quero que tenha. Mas tenho muitos outros projetos na gaveta que estando na estrada e a fazer uma tour é impossível realizar. Então, quero voltar à escrita, ter um ano mais calmo e explorar outros formatos.

Que anseios tem então?

Tenho muitas ideias! Algumas estão mais maturadas e provavelmente poderão avançar. Mas ainda está tudo na fase conceptual. Se calhar, começaria por fazer algo mais virado para uma série ou para um filme. Algo mais de longos formatos. Não sei se para a internet, se para a televisão, se para outra plataforma. Mas acho que fazer uma série era um bom plano. Não tanto a série de sketch, mas algo mais com narrativa, com personagens. Se calhar até explorar formatos fora do humor, como realizador ou guionista. Gostava de experimentar um drama ou um terror, por exemplo.

Quer deixar um convite para os nossos leitores irem ver um espetáculo seu?

Quem nunca viu stand-up comedy ao vivo, está na altura de ver! Há tanta escolha… e de certeza que vão encontrar algum que gostem: o meu, por exemplo! Quem já viu o meu espetáculo anterior, acho que vai gostar deste “Só de passagem”, porque há uma evolução. Quem viu o outro e não gostou… pá, não venha ver este porque à partida também não vai gostar. É 1h30 de espetáculo e… pelo preço… vá, digamos que há coisas mais caras! É um bom programa de fim de semana! O que eu posso dizer é que não é um espetáculo puramente de stand-up comedy, ou seja, trago vários momentos diferentes – musicais também. Não é um espetáculo enjoativo… prometo!

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