Revista Rua

2019-02-05T09:55:59+00:00 Opinião

Gulbenkian, entre a luz e a sombra

História e Património
Fotografia ©D.R.
Cláudia Paiva Silva
Cláudia Paiva Silva4 Fevereiro, 2019
Gulbenkian, entre a luz e a sombra
História e Património

No ano em que se assinala o 150º aniversário do nascimento de uma das figuras mais emblemáticas da História do mundo ocidental e oriental, não será despropositado escrever sobre a sua pessoa. Muito mais do que multimilionário do petróleo, Calouste Gulbenkian, nascido na Arménia a 23 de março de 1869 e falecido em Lisboa em 1955, foi sem dúvida um homem que se distinguiu em várias áreas, tanto em termos de engenharia (aos 19 anos obteve a licenciatura com louvor em Engenharia Civil abordando os temas mineiro e petrolífero, no prestigiado King’s College em Londres), assim como se provando num excelso estratega empresarial e claro, num incrível colecionador (e caçador) de arte, a quem se referia como “os meus filhos”.

Nascido no seio de uma família de classe média alta, não é de todo certo mencioná-lo como um selfmade man no sentido em que teria feito a sua própria fortuna, e o casamento com Nevarte Essayan assim o comprova, uma vez que a família da que veio a ser a sua única esposa e o seu amor maior ao longo da vida era ainda mais importante no antigo império otomano nas margens do Bósforo. É, contudo, verdade que, ao longo da sua vida, a sua conta bancária crescente – tornando-o na década de 50 e antes de ser ultrapassado pelos magnatas do Texas no homem mais rico do mundo a par das fortunas Rockefeller e Rotschild -, deveu-se precisamente aos seus conhecimentos, educação e cérebro cirúrgicos, completamente aptos para fazer vários tipos de negócio, mas claramente ganhando terreno quando foi um dos pioneiros no desenvolvimento dos campos petrolíferos na região do Iraque, Jordânia e Arábia Saudita na década de 20 do século passado. Resultado deste monopólio são os célebres 5%, alcunha adquirida por ser o investimento máximo que se permitiu a ter no mercado após a criação do Acordo da Linha Vermelha.

Calouste: o eterno aluno

Desde jovem que Gulbenkian se mostrava um autodidata e, embora ter dinheiro ajude a adquirir conhecimento, a verdade é que muitos outros homens igualmente ricos podem não possuir essa vontade de saber mais do que o estritamente necessário. Aos 20 anos foi enviado para Baku onde visitou pela primeira vez campos de petróleo (na altura dirigidos pela família Nobel), mas foi todo o processo de viagem que mais o encantou, pelas várias povoações que foi conhecendo e pequenos detalhes culturais. Quando o pai lhe deu a primeira recompensa por bons resultados escolares, Gulbenkian decidiu comprar (ou no caso “investir” em tenra idade), as suas primeiras moedas de origem grega. Ao longo da sua vida, tentou sempre cultivar-se no ponto de vista da História de Arte, passando imenso do pouco tempo livre que tinha em museus, contratando professores, aprendendo a fazer os melhores negócios e assim adquirindo requintadas obras, as quais seriam guardadas – raramente ou quase nunca foram expostas aos olhares de familiares e amigos, muito menos em festas sociais – na sua casa de Paris, situ no número 51 na Avenue d’Iéna, até terem sido reencaminhadas para Lisboa já na década de 60. Uma das obras mais conhecidas e mencionadas em todas as biografias e textos, verdadeiro resultado da sua capacidade de negociador, foi a estátua de Diana, comprada indiretamente a Estaline, que se encontrava no museu Hermitage. Outra curiosidade, igualmente adquirida a partir do museu russo, foi a coleção de prata antiga francesa, a baixela do séc. XVIII de Germain, que não foi derretida por Napoleão durante as invasões francesas. De nota: apenas Portugal, país que nunca chegou a ser invadido pelas tropas napoleónicas, é o único país com prata comparável para amostra.

Calouste: o amante

Francamente, Calouste tinha tanto de colecionador como de caçador. Para ele a beleza de comprar novas obras de arte só era comparável às suas conquistas amorosas. Fosse uma questão cultural, já que no oriente a procura de várias parceiras extra conjugais era vista como normal, como uma questão de saúde (como descrito na sua última biografia), a verdade é que na sombra, o homem que não se gostava de mostrar, gostava de ter um pequeno harém pessoal em Paris, onde tinha as suas amantes instaladas em apartamentos luxuosos. Não se pense que Nevarte não sabia destas “escapadelas”. Não só sabia, como aprovava, e também ela tinha as suas paixões escondidas. Era um casamento por amor, mas com muito respeito pela individualidade de cada um. Nevarte era igualmente uma mulher íntegra, inteligente, que soube ser a dona da casa e a “patroa” quando necessário, uma excelente anfitriã. Era a pacificadora e era ela quem mantinha a família unida. De certa forma, Gulbenkian sabia bem ser recatado, raras eram as vezes em que aparecia em público com as suas ninfas, e quando assim acontecia, era extremamente cortês, apresentando um distanciamento estratégico para não provocar mau estar entre outros convivas, e sempre era uma forma de algumas das raparigas mostrarem as prendas com que eram brindadas, entre peles e joias. De qualquer forma, era do conhecimento comum que Calouste não gostava de aparecer, mesmo que em reuniões de trabalho, delegando várias tarefas e questões para os seus homens de confiança.

Hotel Aviz

Calouste: rumo a Lisboa

Nunca se chegou a saber se foi da inteira vontade deste homem que a sua coleção privada viesse para Portugal. Na verdade, apenas parte do seu espólio foi apresentada em Londres entre 1937-1947 na National Gallery e no Bristish Museum, e pensa-se que teria sido da sua vontade ter construído um espaço-museu em Washington. Contudo, sem dúvida que a sua estadia em Portugal, tendo chegado em pleno conflito bélico no ano de 1942, veio de certa forma a amenizar parte destas ideias. Depois de ter saído de Paris e ter rumado a Vichy, nunca aceitou que o Reino Unido o tivesse tornado um “inimigo de guerra” por essa troca de cidades; por conseguinte, as boas relações que sempre manteve com o império britânico mirraram, e a eventual decisão de fazer de Londres a última casa dos “seus filhos” tornou-se diminuta.

Instalando-se no Hotel Aviz (entretanto já desaparecido) em Lisboa, uma segunda Casablanca durante a II Guerra Mundial, nunca chegou a aprender a língua ou a comprar outra casa. Chegou com a sua secretária de quase toda uma vida, Isabelle Theis, entre outras personagens do seu círculo mais pessoal.

Gulbenkian era um cidadão do mundo e não se importava em residir em hotéis. O Aviz era, de qualquer forma para a época, um importante e luxuoso hotel na capital portuguesa, e sem dúvida que satisfazia todos os requintes de um homem que apesar de viver na sombra, tinha e gostava dos seus pequenos luxos. Conseguia manter os jornalistas à distância e, apesar de tudo, nunca esqueceu a sua terra, tendo-se tornado mecenas em várias causas. Todos os dias seguia no seu carro alugado até a Montes Claros, em Monsanto, costumando passear com os pés descalços sobre a relva, mas sem dúvida que a crescente envolvência com Salazar se deve a Azeredo Perdigão, brilhante advogado e amigo, e terá sido possivelmente este último a ter uma palavra a dizer sobre o destino da futura fundação e museu que há já muito eram mencionados por Gulbenkian aos seus amigos e familiares.

Após a morte de Nevarte, que permaneceu em Paris, em 1952, também as forças de Gulbenkian tornaram-se menores. Era ela o seu pilar e de certa forma a sua resistência em aceitar a ideia de mortalidade.

Instalado numa quase total apatia, embora não se sentisse fisicamente mal, dedicava os seus tempos a escolher tarefas para outros e pouco decidia, contudo, a sua cabeça continuava tão ativa como no primeiro dia.

Homem que gostava de jardinagem, embora não tratasse de nenhum jardim; de hortas, embora nunca tivesse trabalhado em alguma; de animais, tendo sido benemérito do Jardim Zoológico de Lisboa; cresceu e fez-se sábio, profundo conhecedor da vida e daquilo que de melhor podemos obter da mesma.

Morreu no dia 20 julho de 1955, entre a luz e a sombra.

Para ler:
Conversas no Café Gelo (Vítor Sousa Lopes, Editora Guerra e Paz, 2016, 304 pgs.)
O Senhor Cinco Por Cento – a Biografia de Calouste Gulbenkian (Ralph Hewins, Texto Editores, 2013, 364 pgs.)
O Homem mais Rico do Mundo (Jonathan Conlin, Editora Objectiva, 2019, 496 pgs).

Sobre a autora:
Geóloga (do Gás e Petróleo). Autora de textos no blog A Carroça da Clau e simpática utilizadora de IG: @claudiapaivasilva e @urban_trender. Aficionada nas heranças culturais de Portugal e em chocolate.

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