Revista Rua

2020-03-03T11:04:36+00:00 Opinião

HABEMUS REUS?

História
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
3 Março, 2020
HABEMUS REUS?
©D.R.

Qual foi o verdadeiro papel do Vaticano durante a Segunda Guerra Mundial?

Em boa verdade, é muito difícil obtermos informações sólidas que nos permitam dar a conhecer, peremptoriamente, a dimensão da contribuição da Santa Sé durante o conflito.

Por agora, devemos ter por base aquilo que é correntemente debatido e aceite pela grande maioria dos historiadores.

No dia 2 de Março de 1939, o Cardeal Pacelli foi eleito Papa. Pacelli escolheu o nome de Pio XII, na continuidade do pontificado precedente de Pio XI. Seis meses depois, a Alemanha invadiu a Polónia, dando início à Segunda Guerra Mundial no teatro europeu.

Ainda antes do seu pontificado, o Cardeal Pacelli, que era Secretário de Estado do Vaticano, fez mais de 50 protestos contra as políticas nazis, mormente sobre a “ideologia de raça”. Pacelli também ajudou Pio XI a redigir o “Mit brennender Sorge” (“Com ardente preocupação”), uma carta encíclica datada de 14 de Março de 1937, que condenava a ideologia nacional-socialista. Este documento foi uma clara resposta às Leis de Nuremberga, um conjunto de leis anti-semitas criadas pela Alemanha.

O “Mit brennender Sorge” motivou Hitler a não aprovar a eleição de Pacelli como Papa, o que é confirmado pelo distinto historiador Martin Gilbert: “Tão francas foram as críticas de Pacelli que Hitler fez pressão para impedir que ele se tornasse o sucessor de Pio XI. Quando ele se tornou Papa, como Pio XII, em Março de 1939, a Alemanha nazi foi o único governo a não enviar um representante para sua coroação”.

Contudo, se estes dados nos dão a indicação de que o Vaticano fez uma crítica feroz ao regime de Adolf Hitler, outrossim, apontam-se as razões que alicerçam as acusações sobre a inércia e a subjugação do Papa aos interesses alemães. Logo no período pré-guerra, o Papa tentou obter da Polónia a cedência da cidade livre de Danzig à Alemanha, gerando uma onda de contestação.

Mas Pio XII é essencialmente criticado por nunca ter condenado explicitamente o extermínio dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Quando, em 16 de Outubro de 1943, mais de mil judeus foram reunidos e deportados, não muito longe do Vaticano, o silêncio do Papa criou uma consternação que ainda hoje continua a causar assombro.

Muitos historiadores concluem que, pese embora o Papa tenha desaprovado o anti-semitismo alemão, ele também foi o produto do ensino católico anti-judaico tradicional até ao Concílio Vaticano II de 1962 a 1965, que veio apaziguar as relações católico-judaicas. O combate à política anti-semita não foi a prioridade do Papa, que estava preocupado com o destino dos católicos e numa acérrima luta contra o comunismo.

Tudo isto é forçosamente insuficiente para nos debruçarmos com rigor sobre o papel do Vaticano no decurso da guerra. Todavia, setenta e cinco anos depois, foram disponibilizados os arquivos sobre a Segunda Guerra Mundial, permitindo que um conjunto de investigadores acedesse à documentação referente ao pontificado do Papa Pio XII (1939-1958), acusado de ter fechado os olhos aos crimes cometidos pelo nazismo.

Na esteira daquilo que foi agora anunciado, aguarda-se uma acutilante análise a milhares de documentos que poderão dar uma resposta cabal sobre o envolvimento do Papa Pio XII e da Santa Sé.

Este é, sem dúvida, um acontecimento de enorme importância. O que hoje pode ser dado como verdade em face da documentação disponível, terá de ser revisto com o surgimento de novas provas. Contudo, toda a documentação terá de ser sujeita à hermenêutica do texto, à radiação do carbono 14 e bem comparada com outras fontes.

A História não é uma ciência estática. E esta é a sua riqueza.

Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

Partilhar Artigo: