Revista Rua

2019-07-29T18:05:09+00:00 Personalidades

Herman José, o senhor influencer do humor

Com 40 anos de carreira, Herman José é o senhor Humor que continua a marcar gerações.
Fotografia ©Nuno Sampaio
Andreia Filipa Ferreira
Andreia Filipa Ferreira22 Julho, 2019
Herman José, o senhor influencer do humor
Com 40 anos de carreira, Herman José é o senhor Humor que continua a marcar gerações.

O nome é transversal: gerações inteiras relembram as suas personagens, as suas falas, as suas músicas. Aos 65 anos, Herman José mantém-se o rei do humor em Portugal, revelando um estado camaleónico de adaptação à mudança. Não é à toa que numa altura em que as redes sociais proliferam o humor jovem, Herman José se mantenha no topo da lista dos influencers da comédia. Comemorando 40 anos de carreira, Herman José volta connosco ao início, aos tempos de descoberta de um talento único: fazer rir, por tudo e por nada!

Esta entrevista é parte integrante da Revista RUA #32, de abril de 2019.

Herman José fotografado no Coliseu de Lisboa Fotografia ©Nuno Sampaio

Herman José é o “senhor entretenimento”, considerado até o pai do humor contemporâneo em Portugal. “Senhor entretenimento” é o melhor termo para o definir tendo em conta que a sua carreira é baseada em várias artes: escrita humorística, intérprete musical, ator, contador de histórias e agora até instagrammer?

Sim, na cultura anglo-saxónica têm a figura do entertainer e a lógica do entertainment. Não sei se a tradução à letra será “entretenimento”, mas a ser é a mais adequada porque entertainment implica arte teatral, arte musical e sobretudo arte criativa. É alguém que escreve os seus próprios textos, alguém que interpreta as suas próprias coisas, mas também envolve tudo na música, porque a música no entretenimento está sempre presente.

São 40 anos de carreira. Alguma vez pensou que aqueles papéis nos filmes do seu pai (que era cineasta amador) fosse a base de uma carreira tão grande?

Eu desde pequenino que achava que era inevitável ser artista. Só não sabia bem em que contexto. Tenho um desenho muito engraçado, que fiz quando tinha mais ou menos 12 anos. É um cartaz que diz “Herman no Coliseu”, dirigido por Pedro Osório (um maestro que já faleceu), com um convidado que era o José Cid, que na altura era o máximo! Ter o José Cid como convidado significava que tínhamos chegado à consagração absoluta! (risos) Até achava piada descobrir onde guardei esse cartaz porque agora acontece uma coisa parecida, numa área que não é aquela onde propriamente eu achava que ia ser profissional. Eu sempre achei que ia ser um cantor semi-romântico, tipo James Taylor. Depois percebi, até muito cedo, que era muito mais útil fazer uma coisa que eu sabia muito bem… e que poucos conseguem: fazer as pessoas rir, por tudo e por nada. Portanto, peguei nessa arte e transformei-a na minha profissão. Mas isso não apagou a paixão pela música.

Que memórias guarda da sua infância? Foi uma criança feliz?

Tenho memórias felizes porque eu era a vedeta das peças da escola, sempre! Era daquelas realidades que não eram sequer discutidas. Eu tinha uma voz de anjinho, muito aguda e muito bonita, tanto que estiveram quase a convencer-me a ir para os Pequenos Cantores de Viena, mas os meus pais não deixaram porque não queriam ficar sem o seu menino (risos). Lembro-me de acabar as peças e as pessoas estarem com lágrimas nos olhos. Vinham ter comigo emocionadíssimas! Por acaso, mais tarde, ouvi uma gravação dessas, antes de mudar de voz, e eu realmente tinha uma voz absolutamente celestial. Com a mudança de voz, não ficou tão boa assim, infelizmente. Mas, já nessa altura de infância, com seis, oito ou dez anos, as minhas memórias são de estar em palco, no centro das atenções e de arrebatar as pessoas com o meu trabalho artístico.

Fotografia ©Nuno Sampaio

O Herman sempre foi um aluno brilhante. É fluente em várias línguas, até. Considera que é necessário ser culto para fazer humor com inteligência?

A definição de cultura é muito vasta. Há pessoas que confundem ser letrado com cultura. Não é o facto de se ter lido 3000 ou 4000 livros que nos transforma em pessoas cultas. Acho que aquilo que eu considero cultura é ter uma visão completamente alargada. É perceber a moda, a música, as regiões, as pessoas, a gastronomia, ter cultura musical e cinematográfica. Acho que tem de se ser infinitamente curioso. É desse “engolir” constante de informação que nasce a capacidade de criar qualquer coisa interessante. Não quer dizer que o facto de se ter a cultura alargada a outras lógicas, nomeadamente às literárias, não faça bem, até porque a literatura está cheia de belos escritores de teatro e comediantes e é essencial falar e escrever bom português. Se se souber línguas melhor ainda. Já tenho feito espetáculos em alemão, francês e inglês e é também uma emoção. Mas eu diria que esse processo de aculturação é uma coisa que nunca está resolvida e deve ser uma constante. Tenho visto que todos os criadores que morrem tarde na vida – e que estão até tarde no ativo – aos 90 anos ainda estão a aprender coisas. Ainda estão preocupados em ir ver peças, em ler livros, em conhecer gente nova e perceber as suas ideias. Acho mesmo que a única coisa que nos protege da tristeza, do envelhecimento, da depressão, do abandono é esse constante enriquecimento intelectual. Hoje em dia, é maravilhoso termos à nossa mão o Google, as televisões, essa maravilha chamada Youtube… Portanto, não há desculpas para não se ser informado.

Falando desta lógica do Youtube, que parece ter formado uma nova comédia, como é que o Herman vê esta nova geração saída da internet?

Acho completamente fascinante como miúdos criaram os seus universos e até enchem salas – às vezes enchem mais do que os veteranos. Há muito lixo no meio disso tudo, é certo, mas também surgem as coisas boas que vão perdurar. É um bocadinho como na música: hoje em dia, qualquer pessoa vai a um talent show ou grava música pegando numa viola; de repente, há uns (poucos) Ed Sheerans que, numa mistura de coisas misteriosas que não se conseguem definir, têm sucesso. O Ed Sheeran é, com certeza, um mistério. Não é especialmente bonito, não é um cantor inacreditável, não é um músico extraordinário, mas de repente tudo o que ele é, condensado, transformam-no num tipo que já esgotou dois espetáculos no Estádio da Luz. É a partir do momento em que isso acontece que está tudo em aberto. Isso é também o lado interessante da vida, porque a todo o momento pode acontecer qualquer coisa de terrivelmente interessante à pessoa, desde que ela esteja atenta e não se deixe levar pela preguiça, ou pior ainda, pela inveja e pelo rancor de não fazer parte do grupo dos vencedores. Tenho alguns colegas meus que passam o dia a dizer mal e a ruminar, revoltados contra o êxito alheio. Todos nós temos direito à nossa indignação e ao nosso sentimento de inveja, quando olhamos para o nosso vizinho e percebemos que ele tem um carro melhor que o nosso, mas isso não nos pode inquinar a vontade de nos melhorarmos e em qualquer momento tentarmos procurar qualquer coisa, seja ela qual for, onde podemos ser melhores.

Fotografia ©Nuno Sampaio

“Eu sempre achei que ia ser um cantor semi-romântico, tipo James Taylor. Depois percebi, até muito cedo, que era muito mais útil fazer uma coisa que eu sabia muito bem… e que poucos conseguem: fazer as pessoas rir, por tudo e por nada”

Os humoristas jovens em Portugal continuam a destacar o Herman como um ícone da comédia, especialmente pela sua entrada também nas redes sociais. O Herman é verdadeiramente camaleónico: rádio, televisão, palcos e redes sociais. É interessante o Herman saber que continua a ser uma referência do humor em Portugal?

Fico muito emocionado quando esta nova geração tem esse cuidado de me reconhecer. Na verdade, tudo tem uma razão: eu sinto que sou o mesmo tipo desde que me conheço (risos). Ou seja, o meu fascínio pelos gadgets, pela procura dos efeitos, dos bonecos, pelo sentido de humor, pelo disparate… ele é o mesmo desde os meus 20 anos, sinceramente. Portanto, eu apesar de estar num invólucro de uma pessoa com idade para ser pai ou até avô de muitos desses novos comediantes, verdadeiramente o que eu sinto mantém-se inalterado. Há uma comparação muito forte, um paralelismo perfeito: o jazz. Quando Quincy Jones, que já vai a caminho dos 80 anos, se alia a jovens músicos como o Jacob Collier, miúdos de 20 anos completamente geniais, ele está intelectualmente e musicalmente a aliar-se a pessoas para quem ele olha na horizontal. Na linguagem jazzística, os produtos não envelhecem, são eternos e mantêm-se. Acho que no humor acontece isso um bocadinho. O que está por detrás da lógica do disparate, da piada, é a mesma coisa. Nós vemos um António Silva ou ouvimos um Vasco Santana a dizer “Ó Evaristo, tens cá disto?” e continua a dar-nos vontade de rir. Os tempos, a figura, os disparates, os diálogos… há uma intemporalidade no humor, que se encontra também no jazz, que faz verdadeiramente com que se batam essas fronteiras geracionais, o que nem sempre acontece nas outras artes, pois pela escrita, pelo modo de representação ou pela roupa percebemos de que geração estamos a falar.

A verdade é que o Herman começa na televisão com uma personagem que ainda hoje é relembrada, uma personagem verdadeiramente intemporal. O Sr. Feliz, acompanhado por Nicolau Breyner no papel de Sr. Contente. Foram tempos felizes?

Tempos muito felizes, mas de muita inquietação porque durante muitos anos tive a sensação de que não ia a lado nenhum. Não acreditava muito em mim, apesar de querer muito ser artista. Demoraram alguns anos até eu sentir que finalmente este era o meu caminho.

Ainda hoje o público, até o mais jovem, se recorda desse personagem…

Essa curiosidade das camadas mais jovens, que as leva à procura de coisas que foram feitas no passado e que faz com que algumas delas sejam recuperadas até, vai sempre parar ao princípio de que só o produto de qualidade é que se mantém. E há, no meu passado, muitas coisas, feitas com muito esforço e muita seriedade, que visto a esta distância, mantêm a sua qualidade inalterada – e isso dá-me um orgulho muito grande! Às vezes constato isso com um certo espanto. Quando vejo programas de 1982, como o Tal Canal, vejo que, nessa altura, eu tinha mais timing televisivo do que programas que são feitos hoje em dia.

Fotografia ©Nuno Sampaio

Costumava dizer-se que o Herman fazia um humor fora do seu tempo. Concorda?

Sim, tanto é que muito pouca gente me entendia verdadeiramente. As camadas mais novas, que são agora pessoas de 50 anos, eram as únicas que percebiam exatamente até onde eu queria chegar com o meu trabalho.

O Herman passou por vários programas de televisão durante os anos. O Tal Canal, o Herman SIC, agora o Cá por Casa… É muito diferente fazer humor em televisão hoje? O que mudou no humor em Portugal nestas décadas?

As pessoas só podem rir daquilo que conhecem… e há uns anos as pessoas não conheciam muita coisa, eram um bocadinho limitadas. Lembro-me que, nos primeiros espetáculos de província que eu fiz, praticamente as pessoas só riam quando ouviam a palavra merda. Era tão básico! (risos) O acesso à cultura tinha sido vedado às pessoas propositadamente pelo regime. Havia uma grande taxa de analfabetos. A televisão era meio esquizofrénica e bipolar, porque por um lado tinha vultos da cultura como Vitorino Nemésio a fazer palestras extraordinárias, mas depois tinha umas coisas absolutamente primárias, ou seja, não era verdadeiramente uma educadora do povo como depois passou a ser. Hoje em dia, o que acontece – e é absolutamente maravilhoso – é que as pessoas sabem muitas coisas diferentes. Pegamos nos vários temas correntes e há muitos assuntos em comum com muitas gerações, o que nos permite depois unir com a mesma gargalhada as pessoas todas à volta do conhecimento das coisas. Isso torna o nosso trabalho um bocadinho mais fácil.

Isso significa que o humor não tem que ser apenas algo culto e inovador… nem só polémico e disruptivo? É uma mistura?

É um bocado como a culinária! (risos). É delicioso a pessoa não deixar de gostar de uma grande feijoada ou de um grande cabrito assado e depois apreciar um hambúrguer bem feito ou ir a um restaurante francês comer uma coisa qualquer sofisticada. Tudo se completa, desde que tenha qualidade e que seja bem feita. Quem faz um cozido tem mesmo de gostar de fazer cozidos… e a pessoa que faz os hambúrgueres tem de os fazer com uma boa carne, pôr um bom queijo em cima e usar um ótimo pão. Se isso for contemplado, as coisas passam a ser todas elas importantes porque quem come um magnífico hambúrguer pode também, depois, comer um magnífico cozido à portuguesa… e vice-versa! (risos)

“Tenho alguns colegas meus que passam o dia a dizer mal e a ruminar, revoltados contra o êxito alheio. Todos nós temos direito à nossa indignação e ao nosso sentimento de inveja, mas isso não nos pode inquinar a vontade de nos melhorarmos”

O Herman está orgulhoso deste percurso?

Sim, estou! Mas há que ter cuidado nestas carreiras grandes: não sobrevalorizar o passado! Ou seja, o passado é uma magnífica carta de apresentação, mas depois o que conta verdadeiramente é o espaço de arranque da atuação artística até ao final – temos uma hora e meia para convencer todas as gerações, toda a gente, da nossa validade artística. Em nenhum momento podemos pensar: isto não está a correr muito bem, mas o meu passado é tão bom que tenho direito a ser desculpado. É como no futebol: “-Este tipo não marca golos!”, “- Oh, mas no ano passado marcou sete!”, “- Pois, mas este ano não marca! Se não está a jogar, não o queremos. Precisamos dos golos agora!”. Connosco, pode ser muito cruel, mas é igual. Portanto, o passado é encantador, dá-nos esta moldura lindíssima ao nosso nome, mas é mesmo só uma nota de rodapé. Às vezes há colegas que se esquecem disso. 

A presença nas redes sociais é algo que faz por gosto e tende a aproximar o público de si. Tem essa visão?

Muitíssimo! É fascinante. E recebo mensagens completamente maravilhosas: “Meu, esta música é o quê?” e eu faço um print screen da música ou do disco e mando. “Ah, ya, fixe, xau!”. E acabou. Não há “Senhor Herman isto ou aquilo” (risos) É “ok, adeus!” (risos)

Há uns dias, fiz uma caricatura ao Conan Osíris com o Manuel Marques e ele mandou-me uma mensagem “Kkkkk, as sobrancelhas estão iguais”… e acabou! Já está respondido e a vida dele continua porque ele tem mais que fazer (risos) Isso é absolutamente fascinante!

Fotografia ©Nuno Sampaio

Essa aproximação via redes sociais também ajuda com os espetáculos, correto?

Ajuda imenso. As pessoas adoram ser bem tratadas. Eu já me cruzei com vários artistas internacionais que foram gentilíssimas para mim e eu olho para eles com carinho desmedido: o Sting, o Elton John, a Anastasia, a Diana Krall… é uma longa lista de gente muito querida, muito atenciosa. Eu não esqueço isso nunca. Portanto, tenho isso em mente quando sou eu que estou a contactar com as pessoas. As pessoas não esquecem e são super gratas. Acho que o humor tem que estar ligado ao amor também. O afeto artístico é uma coisa, para mim, muito importante. Há artistas que se estão a borrifar, mas eu não! 

Falou da questão dos limites do humor numa passagem recente dos personagens Nelo e Idália no programa Cá por Casa, em que falava de “humoristas incompreendidos”. Há tipos de humor que não têm lugar em Portugal?

Há trabalhos que são insuportáveis em certas pessoas. O Rui Sinel de Cordes, por exemplo, por quem eu tenho um carinho especial, tem um repertório fraturante. Tem piadas violentíssimas! Se tivermos o mindset para nos divertirmos com este tipo de piadas – e há pessoas que têm e sentem-se aliviadas e encantadas por haver um sítio onde se dizem estas coisas – aquilo faz imenso sentido. Mas, se formos apanhados desprevenidos, ficamos completamente ofendidos e nunca mais queremos ouvir falar naquela pessoa. Aqui o truque é fazer o humor certo, no local certo, para as pessoas certas. Quando se tem a minha pretensão atual, que é basicamente fazer o humor mais abrangente possível, temos que nos aplicar e fazer verdadeiramente humor que consiga cativar todas as gerações. O Nelo e a Idália é um exemplo maravilhoso porque é completamente transversal. Põe a rir toda a gente e isso é fantástico!

A música sempre esteve ligada ao seu percurso – a canção “Saca o saca-rolhas” ou a “Canção do Beijinho” marcaram gerações. Agora lançou o singleAmanhã faço dieta”. Podemos saber mais sobre este trabalho? 

Tem imensa piada porque há seis anos fiz a cantiga mais ou menos na brincadeira, um bocado como desabafo no meio de mais uma dieta. Estava a pensar: “Mas que chatice, só me apetece ir para a cozinha fazer um grande spaghetti com bacon” (risos). A partir daí, escrevi a canção. A canção não nasceu logo assim, teve várias fases até ter a letra e tudo o resto apurado. Quando terminei, fiz uma versão num programa que tinha, o Herman 2012, e gravei algo com viola. A ideia ficou por ali. Depois, com o tempo e também com a história da internet, começo a ver posts com um bocadinho da música, porque eu tinha feito uma versão num espetáculo que tinha sido editado em disco. Pensei então que seria giro ter a música em versão dançável, porque há um estado de espírito de festa, quando o público já está com um copo a mais, que só quer ritmos para dançar. Então achei que seria engraçado arranjar uma versão reggaeton para a música! (risos) Fizemos uma experiência, fizemos a gravação e o resultado ficou tão divertido que eu pensei em usar como faixa principal de um disco que tem regravações de outros temas meus para espetáculos. Acho que ficou muito divertido. Já vai a caminho de ser um êxito!

“Eu nunca abusei da minha autoridade artística, no sentido em que o meu entendimento de escrever e dirigir os colegas é sempre numa lógica de entreajuda. Nunca é a lógica de me salientar ou de me manter protagonista”

Por onde vai andar o Herman nos próximos tempos?

Eu curiosamente anuncio os espetáculos um a um e pouco tempo antes para evitar cancelamentos. Mas posso dizer que vou estar no Porto, a apresentar um festival de comédia. Depois, no verão, vou andar bastante na estrada.

O Herman sempre teve consigo vários humoristas de renome, a chamada velha-guarda da comédia em Portugal. Maria Rueff, Joaquim Monchique, Ana Bola, Manuel Marques… Estas ligações ficam para a vida?

Sim! Acho muita piada porque todos eles cresceram individualmente e tornaram-se, eles próprios, pesos pesados da comédia. O Joaquim Monchique esgota salas, a Maria Rueff é uma atriz por mérito próprio, o Manuel Marques é fantástico… É muito engraçado porque, quando nos juntamos, o espírito mantém-se inalterado. Eu nunca abusei da minha autoridade artística, no sentido em que o meu entendimento de escrever e dirigir os colegas é sempre numa lógica de entreajuda. Nunca é a lógica de me salientar ou de me manter protagonista, que era uma coisa que se fazia muito antigamente. Eu pensei sempre ao contrário: quanto melhor eu escrever para eles, melhor fica o coletivo e melhor é o sucesso de todos! Há pouco tempo fiz um gozo ao programa A Passadeira Vermelha e cada um deles tinha o texto certo, o enquadramento certo e todos brilhamos à mesma altura. Foi um êxito! De tal maneira que nessa edição tivemos perto de meio milhão de espetadores…

Fotografia ©Nuno Sampaio

Está contente com os resultados do Cá por Casa?

Ficava muito mais feliz se conseguisse destronar as novelas da concorrência (risos). Mas, não sendo possível, estou bastante feliz porque o programa tem uma base sólida de apoiantes constantes, que não o largam nunca. Tenho ali uma família de espetadores que, aconteça o que acontecer, está sempre lá.

O Herman já foi considerado (em 2007) um dos 100 maiores portugueses de sempre. Acha que neste momento integraria essa lista?

Entre os 100, seguramente! (risos) Mas, se voltarem a fazer uma lista dessas, achava bom que não acontecesse (como aconteceu nessa lista de 2007) ganhar o Salazar! (risos) Acho que há portugueses mais consensuais (risos). Mas também não sou daqueles que transforma a memória de Salazar apenas numa imagem de ditador que não merece fazer parte da História. Claro que merece, fez muitíssimas coisas bem feitas, foi um grande português com as suas posições e idiossincrasias, mas entre 100 merece estar entre os 30 ou 40. Prefiro que os democratas, os lutadores da liberdade e os grandes criadores estejam bastante antes do Salazar (risos).

Nestes 40 anos de carreira, o Herman já provou tudo o que tinha a provar? Há anseios que ainda estão por cumprir?

Não há um espetáculo em que eu não sinta que me faltam coisas. Estou sempre em constante estado de inquietação! “Como é que posso refazer isto para ficar melhor?” Nunca estou satisfeito, o que é ótimo. E acho que nunca vou estar, por acaso… Vou estar sempre à procura de melhor!

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