Revista Rua

2020-03-23T17:58:13+00:00 Cultura, Música

“Highlight” é o disco de estreia de St. James Park e já pode ser ouvido

St. James Park é o projeto a solo de Tiago Sampaio (GrandFather's House).
St. James Park ©Xipipa
Nuno Sampaio23 Março, 2020
“Highlight” é o disco de estreia de St. James Park e já pode ser ouvido
St. James Park é o projeto a solo de Tiago Sampaio (GrandFather's House).

Highlight é o primeiro trabalho de St. James Park,  projeto a solo de Tiago Sampaio, fundador da banda GrandFather’s House e é um álbum que nos fala da “sensação de viver na escuridão da sua própria sombra mantendo uma perspetiva promissora e clara, alimentada por pequenos raios de luz que vão surgindo ao longo dos temas”. O primeiro single, “Playground”, conta com a participação de Sofia Ribeiro (Lince) e é uma espécie de “eletrónica solarenga que enfatiza a maré de sensações que pontuam o álbum, imprimindo o balanço e a leveza de uma dança que nos leva numa viagem nostálgica e desassossegada”.

St. James Park, para além de um dos mais antigos parques Reais de Londres, é também o nome do estádio da equipa londrina do NewCastle. Podes contar a origem do nome?

O nome do projeto nada tem a ver com o parque em Londres nem com o estádio. Nasci numa localidade chamada Santiago da Cruz e durante a minha infância costumava brincar num parque perto de minha casa, ainda hoje são as memórias mais bonitas e lúcidas que tenho daquela fase. Decidi então homenagear essas memórias e essa fase da minha vida com o nome. Até porque todo o disco é bastante nostálgico para mim e fez sentido na minha cabeça.

Fundaste a banda GrandFather’s House, banda essa que assenta num registo algo diferente. Com St. James Park revelas um lado mais pessoal que não conseguias com os GrandFather’s House?

É sempre muito diferente quando mais do que uma pessoa participa em algo que originará um produto final. Aquela obra, ou objeto, ficará sempre com um bocadinho de toda a gente que interveio. Com Grandfather’s House a música é feita por toda a banda, existe muita partilha na composição e troca de ideias, no final os temas ainda são misturados e masterizados por outra pessoa, ou seja, as músicas vão ganhando formas muito diferentes e não depende só de ti o resultado final.

Com St. James Park foi tudo diferente. Apesar de ter recebido participações e opiniões muito importantes na composição do disco, senti que tudo estava como eu queria e tinha imaginado. Acho que foi muito importante ter sido eu a fazer a captação e mistura do disco. E respondendo à tua questão, sim! Sinto mesmo que esta obra tem algo de muito pessoal que em Grandfather’s House fica muito diluído, o que acaba por ser normal.

O que é que te fez virar para um projeto a solo?

Sempre tive muita necessidade e vontade de trabalhar música sozinho, já foi assim no início da banda, mas depois o projeto cresceu, e bem. Adoro trabalhar com o Nuno e com a Rita. Passando cinco anos voltei a sentir a necessidade de trabalhar sozinho, no meu mundo, e ao mesmo tempo de explorar algo que tinha muita curiosidade, os sintetizadores e a musica eletrónica. Sempre quis perceber como é que funcionava um sintetizador, para que serviam tantos botões e knobs, como é que o Nicolas Jaar ou Ryan Lott conseguiam aquele tipo de sons.

Lembro-me há quatro ou cinco anos, estar a falar com o Giliano dos Paraguaii, falávamos da vontade de criar algo a solo, na altura foi só uma conversa entre duas pessoas que estavam a beber uma cerveja num bar e que tinham vontade de fazer algo a titulo individual. Entretanto vim a saber que ele está para lançar algo a solo também. Engraçado o timing.

Era algo que já sentias necessidade?

Apenas senti necessidade numa fase mais tardia. Ao início tentava perceber todo este novo método de composição. Com o tempo fui percebendo que fazia todo o sentido fazer e pensar num disco. Demorei foi muito tempo a perceber a nível sonoro o que queria e o que não queria, mais de um ano e meio, se não estou em erro. Durante esse tempo fui compondo música e explorando vários caminhos.

St. James Park ©Xipipa

Mesmo sendo um projeto apenas teu, composto, misturado e gravado na íntegra por ti, tens a colaboração de nomes muito importantes no panorama da música portuguesa como, Lince, IVY ou Noiserv. A “família” da música portuguesa foi importante para este projeto?

Sim, bastante! Fiz todo esse trabalho de estúdio e composição, mas por exemplo, nos temas com os convidados foram eles que escreveram as letras e fizeram as melodias das vozes, tirando a IVY, que foi um trabalho conjunto. Mas sim, senti que fizeram muita diferença no projeto, acrescentaram muito valor artístico. Houve também algumas participações que ficaram por acontecer, dou o exemplo da Surma, tentamos trabalhar um tema, mas por incompatibilidade da carga de trabalho não conseguimos. Quem sabe num próximo disco.

 Como foi trabalhar com nomes e sonoridades tão distintos?

Não foi nada difícil, aliás, foi bastante fácil. Com a Lince e com o Noiserv fomos sempre trabalhando à distancia e trocando ideias dos temas, eles faziam alterações e enviavam-me, e vice-versa. Eu tinha na cabeça o que queria para o projeto e quando falei com eles para participarem, já sabia mais o menos com o que esperar, apesar de ter recebido surpresas muito boas! Lembro-me que a Lince, quando me enviou a primeira maquete da voz dela, os meus olhos “sorriram” muito.
Com IVY a história foi muito diferente, já fazemos música há mais de 10 anos juntos, e já nos conhecemos há quase 24 anos, a química é muita e já lemos a mente um do outro. Apesar do estilo de música que ela faz ser muito diferente do meu, temos imensa coisa em comum, exemplo de uma enorme amizade. O tema que temos juntos é o espelho disso, transmite muita paz e felicidade.

Juntamente com uma sonoridade visivelmente assente numa base eletrónica, existe uma mensagem muito positiva: “uma perspetiva promissora e clara, alimentada por pequenos raios de luz”.  Esta é a mensagem que queres transmitir?

Essa foi a conclusão a que cheguei a meio da composição do disco. Estava numa fase má da minha vida e não me tinha apercebido disso. O último ano é capaz de ter sido o melhor e o pior da minha vida e, sem sombra de dúvidas, o mais intenso. Este disco é a imagem disso: este disco é inocência, escuridão, esperança, vida, morte, consciência, é um despertar! Ele é quase como uma narrativa dos sentimentos de uma pessoa que vive preso em si e sem rumo. Existem momentos em que estás mais introspetivo, outros mais nostálgico e outros em que estás feliz porque sabes que aquilo vai passar, eventualmente um dia. Nunca perdendo a esperança.

Highlight é o primeiro fruto: um álbum bastante homogéneo, sintético e direto. Contudo não podemos deixar de notar que, ao ouvi-lo, há uma heterogeneidade nos pequenos símbolos musicais que vão surgindo. É o caso para aplicarmos o famoso pensamento de Aristóteles de que o todo é maior do que a simples soma das suas partes?

Como te referi em cima, este álbum é um espelho de alguém que está perdido dentro de si. A sua coerência psicológica não é algo muito presente. Os temas são pequenas ilustrações de fragmentos do que é uma luta diária em busca de uma autodescoberta. Não me preocupo nesta fase em tentar ser coerente, mas sim a expressar verdade nos sentimentos. Seguindo o pensamento de Aristóteles, só quero que a soma dos temas seja mais do que um álbum e chegue ao coração das pessoas. A música quando é verdadeira, apesar do estilo, tem o poder de criar um impacto enorme nas pessoas.

Highlight estará também disponível numa edição especial em cassete, limitada a 100 unidades. O som menos “limado” e digital de uma cassete é algo que achas encaixar bem neste projeto? Porquê a escolha da cassete em vez do vinil?

Não tem muito a ver, apenas achei engraçado o facto de poder lançar algo num formato que já está em parte ultrapassado, tornando o formato físico um objeto de coleção e não de uso.

Os próximos tempos são de incerteza para todos os artistas, de todas as áreas artísticas, em todo o mundo, mas também de sensibilidade e, acima de tudo, de muita solidariedade. Queres deixar-nos uma mensagem de força?

Isto é tudo muito novo e muito sensível. Mas gostava apenas que este fosse um momento de análise para toda a gente. Vivemos numa altura em que tudo se move muito rápido. Estando neste momento 80% da população mundial em quarentena, pode ser que ajude a que alguns valores sejam restabelecidos.

Acho que o facto de estarmos em casa deve ser levado, não como uma obrigação, mas como um desafio.

Podes revelar, caso tenhas, algumas ideias de como apresentar, de um modo mais “pessoal”, o teu álbum?

Na verdade, a questão do vírus apanhou toda a gente desprevenida, eu e a minha editora não fomos exceção. Tendo em consideração que todos os concertos foram cancelados, a oportunidade de tocar o disco ao vivo ficou adiada uns bons meses. Não gosto de pensar na ideia de oferecer um concerto às pessoas. Neste momento pertencemos a um dos setores mais desprotegidos e oferecer concertos em live streaming não me parece o melhor. Acho que as lojas de roupa, nos próximos tempos, não pensam oferecer uma t-shirt nova a quem pedir, por exemplo. Nós também precisamos de comer e temos encargos como toda a gente. Não sei, talvez o faça, dependendo do propósito. Se o fizer é com o intuito de poder experimentar algumas coisas.

 

 

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