Revista Rua

2020-04-21T10:52:16+00:00 Opinião

Hitler e a esperada desvirtude da ignorância

Sociedade/História
Pedro Nascimento
Pedro Nascimento
21 Abril, 2020
Hitler e a esperada desvirtude da ignorância

Vinte de Abril de 1889. Há precisamente 131 anos, Braunau-Am-Inn viu nascer uma das mais marcantes personagens da História: Adolf Hitler. Tive oportunidade de visitar aquela bucólica localidade austríaca no Outono de 2017. Uma pequena cidade situada na fronteira com a Alemanha, que convive com uma paz e acalmia completamente desligadas do retrato de um dos maiores ataques às raízes da civilização, do qual Hitler foi o epicentro.

O legado do nacional-socialismo é sobejamente conhecido e susceptível de nos guiar a um passado recente. Essa visita, sob um comando rigoroso, será sempre uma porta aberta à obtenção de respostas imprescindíveis para a compreensão dos comportamentos do Homem: a ditadura de Hitler tem a qualidade de um paradigma para o século XX. Faz parte dos mais negros episódios da História. E os mais negros episódios são também História.

Aqui, toma especial relevância o facto de, não raras vezes, sobressair um estigma na evocação do seu nome. Desde logo, aponto o simples facto de tantas vezes se olvidar, esconder ou ignorar as atrocidades perpetradas por outras figuras que se eternizaram por essa inclinação maligna. Mas a coroação de Hitler no topo da pirâmide do mal elevou-o ao corpo de uma Lei de aplicação universal: “à medida que uma discussão online se alonga, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou os nazis tende a 100%” – a Lei de Godwin. Eu e muitos outros – tal como o leitor – já o experimentamos.

Entendo que não devemos apontar um único indivíduo como o bode expiatório das vastíssimas forças que têm influência sobre o mundo. Mas se nos tentarmos a nomear um só homem que moldou essas forças da forma mais marcante, Hitler será um dos mais fortes candidatos a ocupar o lugar. Indubitavelmente, porque conhecemos as consequências das suas acções, este é um exemplo que deve penumbrar o presente.

©D.R.

Contudo, o impacto desastroso de Hitler não pode ser explicado apenas pela sua personalidade, na sua força e na influência que exerceu sobre milhões de pessoas. Isto remete-nos para um leitmotiv pautado no debate sobre a sua ascensão: o conceito de “autoridade carismática”, formulada pelo alemão Max Weber, um dos mais brilhantes sociólogos de todos os tempos. Weber postulou numa das suas dimensões que essa “autoridade carismática” não residia essencialmente em qualidades extraordinárias de um indivíduo. Antes derivava de uma percepção dessas qualidades entre um séquito que, em condições de crise, projectava num líder atributos históricos únicos, vendo nele uma grandeza pessoal.

Grande parte das pessoas tende a debruçar-se sobre a História “da frente para trás”. A título exemplificativo, tende-se a estudar Hitler a partir de Auschwitz e do Holocausto. Nada mais errado. Por isso mesmo, o mal que se vê em Hitler é alicerçado no resultado das suas acções e não em tudo aquilo que contribuiu para o ditador ter a possibilidade de as perpetrar.

E aqui desagua a lição que podemos retirar. Ainda que narrativamente mergulhados num mar hiperbolizado, entendamos o “séquito” num amplo conceito de população de um país. É certo que a existência de um líder (ou liderança) é condição sine qua non para a ocorrência destes fenómenos políticos. Mas não menos o é uma vasta corrente iletrada. E a vontade dos líderes em manter essa condição.

Sendo uma questão de disciplina científica transversal ao globo, a verdade é que Portugal é um caso sui generis. Continuamos a experimentar novas crises, como a que actualmente nos assola. Sabemos que estes choques são sempre susceptíveis de expelir mudanças estruturais indesejadas, como o passado nos ensina. E em plena pandemia, onde nos deparamos com as mais nefastas consequências para a saúde de todos, bem como inevitáveis resultados económicos futuros que nos farão experimentar mais um capítulo exigente, o debate foge para as celebrações do 25 de Abril. E a seguir, do 1.o de Maio. Pois bem, como todos os anos as celebrações destas datas, até ver, não contaram com um movimento anti-democrático que se sobrelevasse, entendo que o actual e extraordinário momento exigiriam uma mensagem política em consonância. Mas como quaisquer considerações tecidas a este respeito poderão sempre desemborcar a Lei de Godwin, não me pretendo alongar neste ponto.

Outrossim, reforço a tendência supra citada. Este é mais um capítulo das manobras distractivas com que tendencialmente perdemos o foco. O séquito entra no caminho daqueles que vêem uma oportunidade súbita para se afirmar, pois que talvez tenham percebido as circunstâncias em que outros o conseguiram, ou no dos que estão empenhados numa luta quixotesca contra moinhos de vento, perpassando uma imagem de alarmismo perante um exército reaccionário que anda armado nas ruas.

Seria imperioso centrarmo-nos no combate à pandemia, privilegiando tudo o que com ela está relacionado, procurando aprender e a mitigar os efeitos que se avizinham. E a devida atenção de hoje, permitir-nos-á assacar de forma justa a responsabilidade de todos aqueles que têm a obrigação de agir. Hoje – e aqui – não temos doutrina racial ou o culto de um chefe. Mas já Hitler contou com a esperada desvirtude da ignorância daqueles que se distraíram. Essa é a arma mais letal da História.

Nota: Este artigo não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico.

Sobre o autor

Advogado. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Aficionado por música e desporto. Entusiasta de História Militar e autor da página WWII Stories.

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