
Horas Azuis de Bruna Dantas Lobato, uma história de amor entre mãe e filha
A nossa narradora arruma as malas com destino aos Estados Unidos. Ganhou uma bolsa de estudo. Vai viajar, estudar e trabalhar para fora do seu país. Para trás, toda uma vida numa pequena (ou grande) cidade. Uma “zona de conforto”, com as suas qualidades, defeitos, tradições e cultura. Para trás, a família. No caso, a mãe.
Para muitos esta é uma realidade comum. Até mesmo dentro do nosso país, pequeno, onde estala a necessidade de rumar para outras regiões, para estudar, para trabalhar, ter uma outra vida, geralmente para melhor. E raramente, mesmo que, como diz a canção dos Napa “nunca se pertença àquela cidade”, a verdade é que também deixamos de encaixar na terra que nos viu nascer e crescer.
Mas para quem emigra, essa realidade pode ser mais cortante.
A história de Horas Azuis passa-se entre continentes e atravessa um período de cinco anos. Ao longo desse tempo vai-se conhecendo a nova rotina da filha, no estado do Vermont. As suas amizades, os seus trabalhos escolares, até as férias, que não, não são feitas de retorno a casa. Uma passagem de avião para o Brasil natal, em Natal, não é tão acessível assim, mesmo para quem trabalhe a tempo parcial. E os vistos para autorização de residência ou permanência no país são uma burocracia necessária, mas atroz para qualquer pessoa.
Também começamos a conhecer mais sobre o dia a dia da mãe, uma mãe que se sente sozinha, mas que também entende a vida pela frente, a oportunidade garantida, mesmo que aos olhos dos outros pareça um abandono, ou um privilégio mal empregue.
Porque é que a filha quis fazer mais? Quis estudar mais? Não seria mais fácil ficar perto, arranjar um trabalho simples, cuidar apenas da mãe? Ao mesmo tempo sentimos e partilhamos das dúvidas da filha: seria possível largar tudo o que já havia conquistado e regressar a casa? Será que os Estados Unidos da América seriam a terra das grandes oportunidades, ou seria/será sempre vista com olhos de diferença, como emigrante, mesmo que já tenha uma vida enraizada?
Mãe e filha, Filha e mãe, vão-se falando amiúde, através dos ecrãs de computador, uma imensidão de tons, onde o azul ganha preponderância. Como escreve a filha, um enorme aquário, no qual a mãe é um peixe. Ao mesmo tempo, a mudança das estações se torna um imponente relógio – a mudança das horas, das cores das folhas das árvores, o tom cinza e azulado nos dias de neve.
Até ao momento do reencontro. Em que filha e mãe sentem que não passou um único dia sem estarem separadas e, no entanto, tanto que mudou.
Um livro calmo, de uma escrita cuidada e bela, que se lê num sopro, entre os vários tons de azul, as horas de passagem, de esperar pelo momento de voltar a ligar o computador e falar com aqueles que mais nos amam.
Horas Azuis é o primeiro romance da escritora brasileira Bruna Dantas Lobato, também ela emigrante nos Estados Unidos, agora publicado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin.
