Revista Rua

2026-04-06T10:00:52+01:00 Cultura, Literatura

Horas Azuis de Bruna Dantas Lobato, uma história de amor entre mãe e filha

Horas Azuis é o primeiro romance da escritora brasileira Bruna Dantas Lobato, também ela emigrante nos Estados Unidos, agora publicado em Portugal pela Companhia das Letras.
Cláudia Paiva Silva6 Abril, 2026

Horas Azuis de Bruna Dantas Lobato, uma história de amor entre mãe e filha

Horas Azuis é o primeiro romance da escritora brasileira Bruna Dantas Lobato, também ela emigrante nos Estados Unidos, agora publicado em Portugal pela Companhia das Letras.

A nossa narradora arruma as malas com destino aos Estados Unidos. Ganhou uma bolsa de estudo. Vai viajar, estudar e trabalhar para fora do seu país. Para trás, toda uma vida numa pequena (ou grande) cidade. Uma “zona de conforto”, com as suas qualidades, defeitos, tradições e cultura. Para trás, a família. No caso, a mãe.

Para muitos esta é uma realidade comum. Até mesmo dentro do nosso país, pequeno, onde estala a necessidade de rumar para outras regiões, para estudar, para trabalhar, ter uma outra vida, geralmente para melhor. E raramente, mesmo que, como diz a canção dos Napa “nunca se pertença àquela cidade”, a verdade é que também deixamos de encaixar na terra que nos viu nascer e crescer.

Mas para quem emigra, essa realidade pode ser mais cortante.

A história de Horas Azuis passa-se entre continentes e atravessa um período de cinco anos. Ao longo desse tempo vai-se conhecendo a nova rotina da filha, no estado do Vermont. As suas amizades, os seus trabalhos escolares, até as férias, que não, não são feitas de retorno a casa. Uma passagem de avião para o Brasil natal, em Natal, não é tão acessível assim, mesmo para quem trabalhe a tempo parcial. E os vistos para autorização de residência ou permanência no país são uma burocracia necessária, mas atroz para qualquer pessoa.

Também começamos a conhecer mais sobre o dia a dia da mãe, uma mãe que se sente sozinha, mas que também entende a vida pela frente, a oportunidade garantida, mesmo que aos olhos dos outros pareça um abandono, ou um privilégio mal empregue.

Porque é que a filha quis fazer mais? Quis estudar mais? Não seria mais fácil ficar perto, arranjar um trabalho simples, cuidar apenas da mãe? Ao mesmo tempo sentimos e partilhamos das dúvidas da filha: seria possível largar tudo o que já havia conquistado e regressar a casa? Será que os Estados Unidos da América seriam a terra das grandes oportunidades, ou seria/será sempre vista com olhos de diferença, como emigrante, mesmo que já tenha uma vida enraizada?

Mãe e filha, Filha e mãe, vão-se falando amiúde, através dos ecrãs de computador, uma imensidão de tons, onde o azul ganha preponderância. Como escreve a filha, um enorme aquário, no qual a mãe é um peixe. Ao mesmo tempo, a mudança das estações se torna um imponente relógio – a mudança das horas, das cores das folhas das árvores, o tom cinza e azulado nos dias de neve.

Até ao momento do reencontro. Em que filha e mãe sentem que não passou um único dia sem estarem separadas e, no entanto, tanto que mudou.

Um livro calmo, de uma escrita cuidada e bela, que se lê num sopro, entre os vários tons de azul, as horas de passagem, de esperar pelo momento de voltar a ligar o computador e falar com aqueles que mais nos amam.

Horas Azuis é o primeiro romance da escritora brasileira Bruna Dantas Lobato, também ela emigrante nos Estados Unidos, agora publicado em Portugal pela Companhia das Letras, uma chancela da Penguin.

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