Revista Rua

2021-03-02T10:23:38+00:00 Opinião

Humanos, apesar de tudo

Música
José Manuel Gomes
2 Março, 2021
Humanos, apesar de tudo

Chegou o fim. Os Daft Punk puseram um ponto final numa das histórias mais importantes – e agora passo o pleonasmo – da história da música mais recente. Este duo composto por Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter, ao longo do tempo e da carreira do grupo, nunca habituou os fãs a uma cadência de lançamentos discográficos muito ordeira. Antes pelo contrário: faziam sempre os fãs e a imprensa questionar quando seria lançado o próximo ano, como seria o álbum, que linha teria, que estética lhe iriam dar, ou até mesmo se era um disco ao vivo ou uma banda sonora. Os Daft Punk eram, de facto, enigmáticos, mesmo sem os famosos capacetes.

Olhando para a história mais recente dos Daft Punk, já não editavam nada, em registo de originais, desde 2013, com o milionário Random Access Memories e, em regra geral, a pergunta era sempre colocada: “quando vem o próximo disco?”. Sem darem uma explicação – nem é que precisem – o facto é que anunciaram, no final de fevereiro, que o fim chegou. Não há disco novo, não há mais dúvidas, não há mais expectativas. Acabou e com este fim, a música perdeu imenso; mesmo para quem não seja fã de música eletrónica.

Os Daft Punk lançaram, ao longo da carreira, que foi desde 1993 até 2021, quatro discos de originais, mais discos ao vivo e bandas sonoras, como o Tron:Legacy da Disney, mas foquemo-nos nos discos de originais. Em 1997 sai Homework, o disco de apresentação ao mundo do duo francês. De uma forma geral e mais lata, os Daft Punk passaram de pioneiros da música eletrónica/house dos 90’s para se tornarem mestres, ao longo do tempo, da produção e da gravação perfeita. Mas já lá vamos…

Homework, em 1997, deu-nos Da Funk e Around The World, entre outros temas que preenchiam este disco que reinventava a música house, sobretudo olhando e ouvido à altura. Os Daft Punk mostraram desde o início que traziam algo mais para o jogo. Para muitos, Homework é o melhor trabalho de toda a discografia; pela importância que teve na alteração da estética da música de dança, mas também por ser o início duma viagem que ainda mal tinha arrancado e que, sentia-se, os ia fazer ir a patamares muito além.

Em 2001, o segundo disco, Discovery, trouxe a explosão mundial e o reconhecimento das massas. Foi aqui que os Daft Punk se tornaram em estrelas da pop e não apenas uma banda nova para um público de música eletrónica muito em voga na década de 90. One More Time, além de ser sido o tema que mais vezes passou na MTV nesse ano, foi número um pouco por todo o mundo e ainda hoje ouvimos o tema numa qualquer festa; foi feito para toda a gente. Porém, muito mais do que a globalização ou a massificação da dupla, foi com este trabalho que a parte estética teve uma parte muito significativa e que ficaria como imagem de marca para sempre. Foi aqui que nasceram os robôs, a imagem de dois humanóides, futuristas e que trouxe uma comunhão perfeita entre som e imagem. Uma vez mais, os Daft Punk mudavam tudo.

Depois dum disco de pleno sucesso, de se tornarem em verdadeiros ícones da música global, em 2005 nasce Human After All, o disco mais difícil, que contrasta bastante com o seu antecessor e o menos bem-conseguido do grupo. É um disco que serve de ante-câmara para algo que ainda estava para vir. Os Daft Punk estavam diferentes e procuravam outras coisas, outras sonoridades, outros sons e outras viagens. Se Homework é um disco de dança, o Discovery gravitava muito à volta da pop eletrónica e Human After All trazia o rock electrificado para a equação. O processo de gravação passava das máquinas para algo muito mais orgânico. Foi aqui, nesta exploração e de uso de novos elementos que os Daft Punk tornaram esta fase da carreira, apesar de comercialmente menos bem conseguida, artisticamente essencial.

Chegávamos a um ponto em que já não se percebia bem com o que contar, com o que esperar de Daft Punk. Passaram das máquinas e da produção eletrónica para algo mais híbrido e orgânico e tudo passava a ser incerto. Em 2013 lançam Random Access Memories e roubam o spotlight a todas as rádios do mundo com a Get Lucky, e com ela o ressurgimento do Disco. Orelhuda, dançante, com nomes de peso na sua participação, era um preâmbulo do disco: uma homenagem aos primeiros heróis da música de dança, pela década de 70. Era como se Michael Jackson tivesse voltado com Quincy Jones a fazer música ou como se os Chic tivessem um disco novo. Acima disso tudo, é um disco que eleva a qualidade da produção ao nível de deuses. Não é exagero. Ouvir, ainda hoje, este disco com uns bons headphones é das coisas que mais prazer me dá. O disco foi um tremendo sucesso comercial e completava a viagem dos Daft Punk. Passaram duma dupla de música eletrónica para deuses da produção musical e multi-instrumentistas. Se houver alguém a ler este texto que ainda não tenha ouvido a “Gigorgio by Moroder”, por favor, ouçam. É a mais bela das epopeias e uma tremenda homenagem a um dos grandes mestres da música de dança. Absolutamente obrigatória para perceberem a mestria que estes dois robôs atingiram.

Não sabíamos que seria o último disco deles, é certo. Mas o legado de Daft Punk vai muito além dos trabalhos originais. Além dos trabalhos de produção e colaborações que foram tendo ao longo do tempo – aqui destaco a “Music Sounds Better with You” dos Stardust -, os Daft Punk foram absolutos pioneiros na afirmação daquilo que acabaria por se tornar conhecida como french house, isto é a música eletrónica típica da nova música vinda da França e que se globalizou e influenciou centenas de outras bandas. Projetos como Justice ou Kavinsky por exemplo, são filhos diretos daquilo que foi iniciado pelos Daft Punk.

Os Daft Punk despediram-se de nós com um vídeo que tem tanto de enigmático como a carreira deles. Só uma coisa é certa: chegou o fim. O legado e a importância deles viverá sempre que um de nós os ouvir. Para sempre ficarão provas de amor à dupla francesa, como a que James Murphy, dos LCD Soundsystem, imortalizou, em 2005, com o tema “Daft Punk is Playing at My House”.
De longe a longe, o mundo precisa de desafiadores. Os Daft Punk são um desses casos.

Até sempre, robôs.

Sobre o Autor:
Signo escorpião, sei informática na ótica do utilizador, programador do espaço cultural Banhos Velhos e sou um eterno amante de música, do cinema e do Sozinho em casa.

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